Sónia Morais Santos
Férias?
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 1181
Três dias que pareceram três meses e o último foi pior porque me enchi de 40º de febre e pontos brancos na garganta. quando o Ricardo chegou tivemos de passar a tarde num centro de despistagem da Gripe A, para se concluir que tinha uma amigdalite.
«Ómãeee ele bateu-me! Isso foi porque ele me deu um empurrão primeiro! Não dei nada. Deste, deste. Estúpido! Estúpido és tu. Ó mãeee ele chamou-me estúpido! Isso foi porque tu chamaste primeiro!
– Uééééé-uééééé-uééééé-uééééé!
Viram bem o que fizeram? Viram? Acordaram a Madalena! Só fazem asneiras, caramba! Mãe, quero água… Agora não há água. Mas eu quero água, estou a morrer de sede. Até à praia é um instante, não morres até lá. Morro, morro. Vou morrer, ai, ai que eu morro, tenho tanta sede, mamã, dá-me aguinha. Já disse que não tenho água aqui, está lá atrás no porta-bagagens. Mas mamã eu não aguento mais, cof, cof, cof, vês mamã eu vou morrer de sedinha, cof, cof, cof. Já me estás a enervar, Martim, vês aqui alguma torneira no carro? Hã? Vês, vês? Espera que já bebes quando chegarmos. Se me chateias muito volto para trás e não vamos à praia.
– Uéééééé-uéééééé-uéééééé-uéééééé!
E a miúda que não se cala, hein? Manel, estás a abanar a cadeirinha dela? Estou, mas não adianta. Ainda falta muito para chegarmos à praia? Tenho tanta sede. Mãe, pões o CD do Panda? Mãe, logo vamos aos carrosséis? Vá lá, por favor, vá lá, vá lá, vá lá…
– Uééééé-uéééééé-uééééééé-uéééééé!
Vá. Chegámos. Tirem o cinto. Não consigo tirar o meu! Manel, ajuda por favor o teu irmão a tirar o cinto. Não me ajudes! Não quero que o Manel me ajude. Cala-te, Martim, e deixa o Manel ajudar, que a mãe tem de tirar a Madalena da cadeira e metê-la no sling. E ainda tenho de ir tirar as toalhas, as mochilas e o chapéu. Sai daqui, Manel, não me ajudes que eu consigo sozinho! Ó mãe, ele bateu-me e não me deixa tirar-lhe o cinto! Martim, se eu for aí levas mesmo a sério! Está bem, tira-me lá o cinto, Manel….Mãe, dá-me água. Aguinha, tenho tanta sede…
– Uéééééé-uéééééé-uéééééé-uéééééé!»
E assim foram as nossas férias, mais coisa menos coisa (ia a escrever mais grito menos grito mas, na verdade, no que toca a gritos foi sempre mais do que menos). As duas primeiras semanas foram para esquecer e houve vários momentos em que ponderei se voltar ao trabalho não era mais compensador. Quando as coisas começavam a compor-se (ou a gente principiava a acostumar-se), o Ricardo recebeu um telefonema da empresa. Ah, e tal, temos boas e más notícias, as boas é que foste promovido, parabéns, sim senhor, já merecias, as más notícias é que tens mesmo de voltar mais cedo das férias. O meu homem que não, nem pensar, as férias são sagradas e coiso e tal, a minha mulher é bem capaz de atirar com o carro de um penhasco, coitada, com três crianças uma das quais só com um mês e muito grito preso nos pulmões, não façam isso, vá lá, e entre um choradinho de um lado e muita pressão do outro, lá se estipulou que o promovido havia de ir três dias a Lisboa para depois voltar para as férias. Aqui a valente encheu o peito de ar e fez-se toda sorrisos, armada em mulherzinha compreensiva e delicodoces, incentivando o seu homem a ir, claro que sim, então o que se há-de fazer e afinal de contas o que são três dias, hum?, passam num instante, e para além de tudo vai ser bom para nós, a longo prazo e não sei o quê. A verdade verdadeira é que ainda o fulano não tinha aquecido o lugar em Lisboa e já eu rogava pragas à empresa, a quem o tinha mandado ir e a ele próprio, que por muito trabalho que tivesse, não podia ter mais que uma mãe de três, um dos quais rebelde sem causa e a mais pequena empenhada em seguir a carreira de soprano. Foram três dias que pareceram três meses e o último foi pior porque me enchi de 40º de febre e pontos brancos na garganta, o corpo a doer como se tivesse levado pancada (e não tinha???), de maneira que quando o Ricardo chegou teve de passar a tarde num centro de despistagem da Gripe A, para se concluir rapidamente que não, esta desgraçada tinha uma amigdalite e assim fiquei o resto das férias a antibiótico e antipiréticos sendo que, infelizmente, nenhum teve o efeito secundário de me deixar temporariamente mouca, de modo a não escutar os berros da minha Madalena, muito pouco arrependida de me fazer a cabeça em água. Como diriam alguns: pensam que é só fazê-los? Pois. Não é, não senhor.
«Encegonhei»
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2247
Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.
E vai daí que «encegonhei», primeira pessoa do singular do verbo «encegonhar», verbo inventado de fresco e que significa isso mesmo, acolher a cegonha, deixá-la pousar na nossa casa, receber a trouxa querida e, claro, agradecer a gentileza e desejar à ave uma boa viagem de regresso. Para quem abre a revista pela primeira vez, explicar que esta que agora escreve na primeira pessoa, depositou aqui durante seis meses a história da Ana e do Hugo Rodrigues, dois pais grávidos de primeira viagem que aceitaram ser acompanhados, perscrutados e perseguidos pela PAIS&Filhos (e pela Antena 1, em programa diário), dois grávidos agora feitos pais, e ao que se sabe dois belíssimos pais, que a Maria Leonor está gordinha e sorri e já tem três meses de uma vida sossegada e feliz.
Pois então, para quem não sabe, fica a notícia. A jornalista que acompanhou A Viagem da Cegonha – esta mesma que vos escreve – «encegonhou». E, assim «encegonhada», decidiu aceitar o amável convite da directora da PAIS&Filhos para vir aqui depositar a sua história. De modo que é isto. Estou grávida muito grávida. Tão grávida que a cada hora e meia, mais coisa menos coisa, há alguém que pergunta se são dois em vez de um, há alguém que vai mais longe e quer saber se são três ou até quatro, verdadeira ninhada de gata, a cada duas horas há quem pergunte se está quase, mesmo quase. A verdade é que está. A Madalena nasce lá para meios de Junho, resta saber se será gémeos ou caranguejo, se nasce de parto natural ou, como é mais certo, de cesariana, e se os dois irmãos vão ficar tão apaixonados por ela como já se estima que fiquem.
Os irmãos da Madalena, o Manel e o Martim, têm sete e quatro anos, respectivamente. E deixaram de me olhar como mãe, entidade única, para passarem a encarar-me como mãe-e-Madalena, uma espécie de dois em um em que a parte de mãe está claramente em desvantagem perante a fracção Madalena. Por isso, quando chego do trabalho, recebo um «Madalenaaa!» de cumprimento, beijos e abraços na barriga e, assim remetida para segundo plano, chego a ter de mendigar um beijo na cara, única forma de ter a certeza absoluta de que me beijam mesmo a mim, mãe.
Este amor pré-natal não caiu do céu aos trambolhões, como pozinho de perlimpimpim que a cegonha deixasse cair, mas tem antes sido minuciosamente cultivado por nós, pais, com a partilha de tudo e mais alguma coisa, desde os vestidinhos minúsculos às ecografias, sem esquecer os pontapés que os fazem delirar – creio que imaginando que, pela amostra, em vez de Barbies esta mana vai querer mesmo é jogar à bola como eles e como qualquer ser que se preze.
Esta gravidez, sendo a terceira, em nada se assemelha às outras. A primeira foi o espanto, o mistério, o milagre. E a ignorância, colmatada pela ávida leitura de todos os livros com barrigudas na capa.
A segunda gravidez foi o medo: e se eu não o amo tanto como amo o primeiro filho? Como será possível, de resto, igualar um amor assim? Um receio só ultrapassado quando, acabado de sair de mim, o Martim chorou, e eu também, e assim aprendi que o amor pelos filhos não se divide, antes se multiplica de cada vez que se repete.
Esta gravidez, a terceira, é diferente porque com a aprendizagem anterior o amor nasceu cedo e nasceu forte. E por ser uma menina, sexo muito desejado para o terceiro rebento, a descoberta e a invasão do rosa foi uma graça numa casa predominantemente azul, e uma desgraça num orçamento familiar que vivia em relativo sossego com as heranças de um mano para outro mano.
Certo é que os meses passaram muito mais velozes desta vez. Quando dei por ela, estava grávida, muito grávida. Tão grávida que deixei de responder pelo meu nome e passei a ser a «barrigorda», palavra ternurenta que se inventou cá em casa para me designar, e tão usada e abusada que se perdeu a noção de quem foi o seu brilhante autor, se o Martim, se o pai Ricardo.
Seja de quem for a autoria, é bom que esqueçam o vocábulo mal nasça a Madalena, porque só é giro ser «barrigorda» quando se tem gente dentro. Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.
Berrar
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2286
Agora que tenho três filhos é que percebo como pode ser desesperante ter o primeiro. Porquê? Por causa das teorias dos outros.
Tenho os gritos dela dentro dos meus ouvidos, dentro da minha cabeça, tão dentro de mim que às vezes já nem sei se é mesmo ela que continua a gritar ou é só o eco que teima em persistir. Há alturas em que até o amor materno consegue ser posto em causa. São apenas momentos, instantes, mas existem e sou menina para desmentir categoricamente quem, tendo uma gritadora de categoria como esta, venha aqui negar, dizer «eu cá não, nunca tive vontade de sair de casa, de bater com a porta, tudo para não ouvir tanto berro descontrolado». O tanas é que não! (a menos, claro está, que se trate de algum cidadão masoquista, que os há, e merecem todo o nosso respeito e consideração).
A Madalena começa a parecer-se perigosamente com o meu primeiro filho. O Manel chorava tanto, guinchava tanto, tanto, tanto que até a PAIS & Filhos me entrevistou, na altura, para falar sobre aquilo que designaram por “bebés coléricos”, daqueles que barafustam sem se perceber muito bem a razão. Foi um drama. Um drama sobretudo porque era o primeiro filho e, por isso mesmo, juntava-se o desejo de fazer tudo bem com o medo de estar a fazer tudo mal. Um verdadeiro teste à sanidade mental e, sobretudo, um verdadeiro incentivo ao controle da natalidade. Não fora a memória ser curta e seríamos hoje pais de um belo filho único. A diferença entre o primeiro filho e o terceiro é a descontracção. Sim, os gritos enervam, sim, os gritos cansam, mas a gente sabe que faz parte e não entra em neurose a achar que a criatura tem de certeza uma doença grave que a vai levar desta para melhor daqui a dez minutos. Isso ou que somos a pior das mães e que, se fosse outra, já sabia de cor o que fazer e já teria calado o bebé em três tempos. Qual quê? A melhor coisa do mundo é ter três filhos, também por isso. Vem este e aquele com as suas teorias e a gente ou não ouve ou desata a rir.
Agora que tenho três filhos é que percebo como pode ser desesperante ter o primeiro. Porquê? Por causa das teorias dos outros. Senão vejamos: uma visita chega a casa de uma mãe recente com um bebé que grita e diz, do alto da sua sabedoria: «Coitadinho, tem fominha…» Se a mãe responder que a criança comeu como uma alarve dez minutos antes, a visita dirá a segunda enormidade do dia: «Se calhar o teu leite é fraco». Em apenas duas frases, a mãe sente-se um farrapo. A culpa do choro é, como tinha imaginado, sua. E isto há-de repetir-se até terminarem todas as visitas. Desde as próprias avós à restante família e amigos, praticamente todos aventarão que o choro da criança tem que ver com fome, e muitos suspeitarão que o seu leite é fraco.
Mas há muito mais teorias para explicar o choro incessante de um bebé: tem sede, tem cocó, tem chichi, tem cólicas, tem sono, está muito calor, está muito frio, quer a chucha, não quer a chucha, precisa de colo, tem colo a mais, precisa é de arrotar, tem roupa a mais, tem roupa a menos, a televisão está muito alta, põe mas é a televisão mais alta, precisa que se abane o berço, está muita luz, está muito escuro, é normal, não é normal. Já ouvi de tudo, das três vezes. E nunca como agora me deu tanta vontade de rir. Há alturas, claro, em que apetece correr à pedrada estas pessoas com tantas certezas. Algumas garantem que só querem ajudar, eu garanto que só chateiam e não ajudam nada. Ainda ontem, tornou a acontecer: «Não me leve a mal mas eu acho que isso é das coisas que come». Eu não levei a mal. Mas atendendo a que como coisas diferentes todos os dias, pergunto: e que tal se deixar de comer? Hum? Que tal?
Os gritos dela ecoam ao mesmo tempo que escrevo este texto e, desta vez, não há margem para dúvidas: não é eco, é mesmo ela. Vejo-lhe os bracinhos a abanar no berço, vou lá e embrulho-a na manta, dou duas voltas à casa mas a Madalena não está para se calar. O pediatra, na consulta do primeiro mês, impressionou-se com a capacidade vocal da miúda e disse aos irmãos: «Já viram como são as mulheres? Não se calam. Faça a gente o que fizer não se calam nunca.» E é isto. Dentro de uma semana vamos de férias. Cheira-me que serão as férias de Verão mais sonoras de toda a nossa vida.
Madalena
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2309
Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer.
E pronto. Hei-de morrer sem saber o que é isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito. Não fora eu uma mulher com muitos afazeres e pouco tempo livre para a depressão e juro que deprimia, mas deprimia mesmo à séria, que a ideia de haver experiências que me estão definitivamente vedadas para o resto da vida aborrece-me a valer. Adiante. A verdade é que a Madalena nasceu e é linda e eu estou perdidamente apaixonada por ela. E com tamanho amor dentro do peito é difícil uma pessoa dedicar-se à depressão, de modo que mais vale andar para a frente e apreciar a felicidade única de ter um bebé em casa do que ficar a remoer num momento que já passou e que não tem volta.
A Madalena nasceu no dia 28 de Junho. Era domingo e, apesar de ser o dia do Senhor, o meu querido obstetra, Dr. Fernando Cirurgião, abriu a porta do consultório de propósito para me fazer mais um toque (já tinha feito um na véspera e outro na antevéspera), tudo para ver se o colo do útero se resolvia a abrir, qual porta mágica, para dar passagem à minha miúda. Um parêntesis para dizer, de resto, que para aquele médico não há fins-de-semana ou feriados, dias santos ou dias não, o homem trabalha como nunca se viu, de dia, de noite e de madrugada, sempre com um sorriso, sempre fazendo-nos sentir que tem todo o tempo para nos aturar, que somos a única grávida que importa, que não houve mais nenhuma antes de nós e não vai haver mais nenhuma a seguir.
O estúpido do meu colo estava mole mas ainda fechado. E assim fui para casa, com ordem para dar corda aos sapatos, coisa que fiz de imediato e com tanto vigor que ainda hoje deve haver pessoas incrédulas por terem avistado, naquele domingo, uma grávida muito grávida a subir e a descer a escadaria do Pavilhão Atlântico vinte vezes, isso mesmo, vinte vezes vinte e sete degraus, o que perfaz 540 degraus, subidos e descidos com a destreza de uma atleta sem pança. Além dessas manobras, fiz vários quilómetros a pé, da zona sul do Parque das Nações até à zona norte, junto à Ponte Vasco da Gama, para depois regressar à zona sul outra vez, praticamente morta mas com a sensação de dever cumprido.
Chegada a casa, sentei-me a almoçar com a minha família e na última garfada tive a primeira contracção. Cinco minutos depois, outra. Cinco minutos depois, outra. Comecei a sorrir. Pensei: resultou! E outra. E outra. Durante uma hora foi assim. Liguei ao médico e ele mandou-me para a Cuf Descobertas, pedindo notícias em breve. Esse momento foi lindo. Inesquecível. Tal e qual os filmes, tal e qual como eu sonhava. Os miúdos de repente recambiados para a avó, o coração aos pulos, o pai apatetado (tão apatetado que, já eu estava a caminho do bloco, percebeu que se tinha esquecido da mala da Madalena), e a coisa estava tão embalada que, apesar de vivermos a um minuto de carro da Cuf Descobertas, sugeri ao Ricardo que buzinasse e pusesse os piscas: «É o nosso terceiro filho, nunca tivemos isto, toca a aproveitar!»
Mas o colo continuou fechado e as contracções estavam ferozes. O curioso é que não doíam quase nada. Até ao momento em que me disseram que ia mesmo ter de ser cesariana. Com o colo tão fechado e com contracções tão seguidas, o risco do meu útero rebentar na zona das cicatrizes anteriores era grande. Não dava para esperar que o colo se resolvesse a abrir. E, de imediato, as contracções começaram a doer. Nesse instante tive muita, mas mesmo muita vontade de chorar. Não de dor, mas de desilusão. Tinha acreditado que à terceira podia ser de vez. E afinal… afinal havia de morrer sem saber o que era isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito.
Mas pronto. Passado pouco tempo o Dr. Fernando chegou e olhou-me com aquele olhar sereno que sossega, passado pouco tempo o pai Ricardo entrou no bloco (porque felizmente a Cuf Descobertas decidiu deixar os pais assistir às cesarianas), e passado mais um pouco o anestesista baixou o pano e nós vimos a nossa menina sair de mim para o mundo inteiro. Uma nova pessoa, uma nova vida, um livro em branco onde vamos sempre tentar escrever o melhor que podemos, o melhor que sabemos. Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer, e nós estamos irremediavelmente apaixonados por ela. O resto? O resto são detalhes.
Esperança no terceiro parto
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 1727
Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia.
A culpa é dos filmes. Uma pessoa acostuma-se a ver senhoras de repente aflitas, de repente a dizerem que chegou a hora, de repente a deixarem os maridos em transe com as águas que as inundaram, a zarparem muito depressa para a maternidade, uma pessoa acostuma-se a isto e não imagina para si outra cena, de modo que quando o guião é outro fica-se com a sensação de que o nosso filme não presta e que, se fosse visionado por um qualquer crítico da sétima arte, não levava mais do que uma desprezível bola preta.
Quando tive o primeiro filho, o dia do parto foi marcado mas a indução ainda permitiu algum suspense. O obstetra a dizer que, em princípio, a criatura não ia descer para a porta de saída, eu a insistir que queria pagar para ver (estava num hospital privado, de maneira que a expressão não é de todo descabida), e assim permaneci algumas horas, arfando e gemendo, capaz de espetar um bofardo no nariz do Ricardo sempre que ele me chamava a atenção para o modo correcto de respirar, e pedindo a Deus e aos anjos uma epidural fresquinha. No final, o esforço não foi retribuído pelo Manel que, do alto dos seus quatro quilos, se escusou aproximar-se da luz ao fundo do túnel e assim fui aberta e depois cosida, acabando em águas de bacalhau qualquer ideia de um parto natural.
Se o primeiro parto já deixou algum amargo de boca, o segundo foi pior. O obstetra resolveu informar-me que depois de uma cesariana a única opção era outra cesariana, e esta parva comeu a teoria sem sequer fazer uma mísera pesquisa no Google, de maneira que no dia marcado chamei um táxi, enquanto o Ricardo foi levar o mais velho ao colégio. O motorista, coitadito, ainda há-de ter sentido um tremor percorrer-lhe a espinha, quando viu aquele barril com pernas abeirar-se da sua viatura com duas malinhas na mão e a dizer «É para a Cuf Descobertas, se faz favor». Fosse por ser boa alma, fosse por não querer ver o seu táxi invadido por líquidos maternais, o homem abriu muito os olhos e perguntou: «Chegou a horinha, foi?», e pisou a fundo o acelerador. Foi preciso explicar-lhe que não havia pressa, que escusava de nos matar aos três, e a boa alma – que também há-de ter visto muitos filmes – lá seguiu entristecida, esvaziada de emoção. Daí a nada já eu estava com o bucho aberto e de novo fechado, como se tivesse ido remover um quisto ou outra nascida desinteressante, sem ais nem uis, sem a mínima participação na cena, sem esforço, dor ou cansaço.
É por isso que todos os sonhos de um parto inesperado, daqueles que os filmes nos espetam pelos olhos dentro desde que o cinema se dedicou à maternidade, todos esses sonhos – dizia – estão agora depositados na pequena Madalena, ela que já se revelou tão diferente dos irmãos, não só porque se mexe na minha barriga muito mais do que qualquer um dos rapazes, como pelos parcos quilos que me fez engordar, nove ao todo, num bestial contraste com os 25 que ganhei na primeira gravidez e os 20 que somei na segunda.
O novo obstetra vai pondo alguma água na minha fervura, explica que não poderemos esperar até às 40 semanas, que o meu útero corre o risco de romper na zona das anteriores cicatrizes, que nunca poderemos induzir porque as contracções com a indução são demasiado intensas para um útero tão costurado, que é pouco provável que ela decida nascer espontaneamente antes de ele lá ir pescá-la. Mas a verdade é que eu ainda deposito alguma fé e imagino todos os dias que, de repente, vai desabar um mar morninho nas minhas pernas, que a barriga se me vai pôr dura como uma pedra a cada cinco minutos, e que vou acordar o Ricardo com um: «Querido, chegou a hora», para de seguida o ver desgovernado pela casa, a pôr pasta dos dentes na barba, seguindo no carro com os quatro piscas ligados e a buzinar que nem um demente, apesar do hospital ficar a 200 metros da nossa casa.
Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e que me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia e pronto, mais um que nasce sem a emoção do nascer. Resta-me o consolo de ter o pai ao meu lado, coisa inédita nesta aventura da maternidade. A Cuf Descobertas acaba de decidir tornar-se um hospital amigo dos bebés e dos progenitores, permitindo que os pais (que o desejem) assistam às cesarianas, estando ao lado das mulheres nessa hora mágica em que uma nova vida sai de uma barriga para o mundo. Esta atitude não vai fazer o meu filme uma obra-prima mas já vai dar uma grande ajuda a que não seja um fracasso de bilheteira.





