A febre da indução
Terça, 07 Agosto 2007 | Visto - 3043
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O dia estava marcado. Seria dali a uma semana. «Esse bebé que não saia antes de quarta-feira...», ressalvava a médica no final da consulta.
Joana Marques e o marido riscavam no calendário os dias que faltavam para o nascimento do primeiro filho de ambos. Era estranho saber, com antecedência, o dia em que veriam Pedro pela primeira vez, mas a médica defendia que a indução do parto era a forma de «garantir que tudo estaria sob controlo».
Um argumento de peso para uma grávida no fim do tempo de gestação. «Não consegui dizer que não, mas tinha a ideia de que não era necessário provocar o parto. Eu estava bem, o bebé estava bem. Porquê induzir? Além disso, achava que era emocionante passar pela ansiedade da espera.»
Uma sensação que Joana não viveu. Tal como programado, Pedro nasceu alguns dias depois, às 39 semanas e quatro dias, num hospital privado de Lisboa. Joana chegou à maternidade às primeiras horas da manhã, foi submetida a uma medicação para estimular o início das contracções, epidural para controlar a dor e aguardou que o corpo obedecesse aos fármacos.
O filho nasceria dez horas depois. Um parto «chocho» e sem grande emoção: «Faltou ali qualquer coisa», recorda Joana, três anos depois.
Nascer com dia e hora marcada é, cada vez mais, uma prática comum em Portugal. «Banalizou-se muito a ideia do parto induzido», critica Diogo Ayres de Campos, director da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João (HSJ), no Porto. Particularmente, «as induções sem motivo clínico», que o responsável acredita serem frequentes a nível nacional.
Quantas partos induzidos ocorrem em Portugal, ninguém sabe. Luis Graça, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos (OM), afirma que este é um assunto «que não está minimamente estudado no nosso país» e que não existem estatísticas nacionais sobre indução do parto.
Há, no entanto, outros números que podem ajudar a compreender a dimensão do fenómeno. Joaquim Gonçalves, do serviço de Obstetrícia do Hospital Geral de Santo António, no Porto, compilou alguns dados internacionais: actualmente, 20 a 30 por cento dos partos resultam de uma indução, com destaque para os nascimentos ocorridos em unidades de saúde privadas.
A escalada dos valores é a tendência observada ao longo dos últimos anos. Entre 1990 e 2003, o número de partos provocados subiu 25 por cento. A indução por conveniência representa, actualmente, cinco por cento do total de partos. O médico apresentou estes números no simpósio Clínica do Parto, que teve lugar no passado dia 13 de Abril, em Lisboa.
Como «áreas de controvérsia» elegeu a indução programada e a gravidez tardia, motivo frequente das induções registadas em todo o mundo. Temas polémicos, porque a indução do parto não é uma prática isenta de riscos. «Não podemos ocultar as consequências desta técnica», afirmou Joaquim Gonçalves. «É preciso criar uma consciência do risco.»
Conveniência e riscos
Joana nada sabia sobre os possíveis riscos da indução do parto. «Foi uma opção que sempre me foi apresentada como isenta de complicações.»
Da parte da médica, a única garantia que obteve foi que a indução representava mais segurança para o bebé. Nunca a ouviu dizer, por exemplo, que havia a probabilidade de o parto terminar em cesariana.
«Uma das principais causas do aumento da taxa de cesarianas é a indução do parto em grávidas que ainda não têm o colo do útero maduro», explica Luis Graça. Uma prática que o médico reconhece ser «comum» em Portugal.
Diogo Ayres de Campos aponta outras consequências dos nascimentos induzidos com fármacos: contracções mais precoces, partos mais dolorosos e incómodos, necessidade de outras intervenções. No HSJ só se fazem induções com motivos clínicos. «Fica tudo registado», esclarece o responsável.
O controlo é feito, inclusive, de forma indirecta: «Verificamos sempre as razões das cesarianas e se houver alguma que tenha origem numa indução sem fundamento, questionamos o médico», explica Diogo Ayres de Campos. Esta postura fez com que, entre 2003 e 2004, o número de cesarianas registadas no serviço baixasse dez por cento.




