Os sentidos do bebé

ImageDesde há alguns anos que os estudos científicos começaram a revelar que um recém-nascido é capaz de ver, de ouvir, de perceber e reconhecer os cheiros e os gostos, para além de ter uma extrema sensibilidade ao tacto.

 

Na altura do nascimento, o bebé humano parece frágil e é indiscutível que não apresenta o grau de maturidade da maioria dos recém-nascidos de outras espécies animais - quem já viu os filmes da National Geographic, em que as girafas acabadinhas de nascer começam imediatamente a correr atrás das mães, dificilmente imaginaria uma cena destas com seres humanos. De facto, com um bebé humano, os riscos são diferentes, assim como os perigos e a capacidade de gestão das situações é mera consequência das condições em que se vive. Esta vulnerabilidade humana é também uma consequência directa da sua superioridade biológica e psicológica. Foi por isso que, durante muito tempo, se pensou que o bebé praticamente só tinha funções «digestivas», sem qualquer vida de relação. A pediatria moderna, contudo, foi capaz de (re)descobrir as grandes proezas de que um recém-nascido é capaz.

 

Os primeiros reflexos

Assim que nasce, o bebé está já equipado com um certo número de reflexos, habitualmente pesquisados nos exames de saúde. A importância que se dá a esses reflexos já não é tão grande como anteriormente, embora ainda desempenhem um papel de relevo na avaliação da saúde de uma criança. Um dos reflexos mais evidentes, iniciado muito precocemente na vida intra-uterina, é o reflexo da sucção, indispensável para a sobrevivência da criança. Por outro lado, ao acariciar-se a face de um bebé, ele volta a cabeça para a mão que o tocou, procurando sugar - é o chamado «reflexo dos pontos cardeais». É por isso que, às vezes, quando as mães acariciam a face dos bebés durante a mamada, eles parecem «afastar-se» do peito; não se trata de nenhuma «rejeição» do peito, mas apenas de uma resposta normal à estimulação da face.

 

A sucção consiste em três movimentos diferentes da boca e da língua, os quais provocam uma aspiração potente. Outro reflexo é a procura do seio materno: o bebé mexe a cabeça de um lado para o outro, abrindo a boca, numa tentativa de encontrar o mamilo. Um reflexo que entusiasma as mães e os pais (e os irmãos…) na primeira consulta médica é o reflexo da «marcha automática». Posta de pé, a criança esboça passadas, do mesmo modo que, mantida à superficie da água, agita os braços e as pernas, simulando nadar. Na posição de sentado, o recém-nascido é também capaz de ensaiar tentativas de segurar a cabeça em posição vertical. É, pois, indiscutível que os bebés estão, ao nascer, «programados» para saberem sentar-se, andar, ver e até nadar. Outro reflexo muito conhecido é o da preensão. Basta tocar na planta do pé ou na palma da mão de um bebé para ele fechar automaticamente os dedos com força. Acariciando o lado contrário - o dorso do pé ou da mão - a criança abre os dedos. O reflexo do abraço, ou de Moro, é um reflexo de defesa que, por vezes, assusta os pais. Deixando cair a cabeça para trás, o recém-nascido estende o pescoço, abre e fecha os braços e as pernas e agita-se.

 

O bebé é capaz de ver

 

As capacidades sensoriais do bebé têm sido alvo de crescente interesse. No que respeita à visão, por exemplo, praticamente todos os bebés são capazes de seguir com os olhos objectos de cor viva. Apesar de poder haver ainda uma certa dessincronização dos movimentos oculares, a criança é capaz, desde os primeiros dias de vida, de encontrar o objecto que se desloca e, inclusivamente, de movimentar a cabeça para melhor seguir o objecto. Esta actividade exige a atenção completa do bebé e implica a existência de mecanismos de controlo complexos. Demonstrou-se, de igual modo, que os bebés fixavam mais longamente um alvo, desde os primeiros dias de vida - desde que fosse desenhado o esboço de um rosto humano ou círculos concêntricos de uma cor única - prova evidente de que conseguem distinguir uma superfície estruturada de uma outra não estruturada. Foi, inclusivamente, sugerido que os bebés, a avaliar pelo tempo que se mantêm a fixar a imagem, terão um certo prazer neste exercício. Sabe-se, de igual modo, que um bebé consegue ver nitidamente a uma distância de um palmo (cerca de 2O cm) que é, afinal, nem mais nem menos, do que a distância natural entre a face da mãe e a sua, quando está ao colo ou a mamar. A natureza realmente não se engana.

 

A partir dos quatro meses, a capacidade de ver com nitidez é já praticamente total. Desta forma, é indiscutivelmente importante investir na interacção precoce entre os pais e o filho e no jogo sensorial entre ambos. Um recém-nascido interessa-se, em primeiro lugar, pelos contornos e pelas fronteiras entre as cores e o seu gosto em olhar formas com vários ângulos atesta a sua vontade de apreender o máximo de informações. Gosta das cores contrastadas, dos objectos de médio tamanho em que a luz se reflecte e, de preferência, de forma ovóide. Por outro lado, o bebé prefere a face humana à sua representação em desenhos.

 

Durante o primeiro mês de vida, a criança sabe distinguir o rosto da mãe do das outras pessoas e reage de forma diferente às diversas expressões que a mãe faz. Se ela sorrir, a criança fica calma ou até sorri. Se a mãe ficar impassível ou fizer uma cara zangada, a criança faz uma expressão triste e chora. A capacidade de imitação é bastante grande: se a mãe deitar a língua de fora, o recém-nascido irá tentar fazê-lo também, abrindo a boca, fazendo movimentos com a língua e conseguindo, muitas vezes, imitá-la.

 

O gosto e o olfacto

 

A investigação dos comportamentos neonatais permitiu provar que o recém-nascido tem, desde muito cedo, um sentido do olfacto bem desenvolvido: colocando dois algodões de cada lado do nariz do bebé, um impregnado com leite da mãe e outro com leite de outra mulher que tenha tido um filho no mesmo dia, verifica-se que o bebé se volta significativamente para o algodão que tem o leite da sua mãe. A criança possui, assim, desde os primeiros dias, um olfacto suficientemente apurado para reconhecer o cheiro da mãe. Alguns autores pensam, inclusivamente, que o olfacto pode estar mais desenvolvido nos recém-nascidos do que nas crianças de mais idade ou nos adultos, o que está certamente relacionado com a necessidade de procurar, por todas as formas, o peito da mãe.

 

Quanto ao paladar, a criança sabe apreciar o gosto do líquido amniótico, ainda dentro do útero materno. Isso foi provado através de experiências em que, conferindo ao líquido amniótico um sabor mais açucarado, se conseguiu desencadear movimentos de deglutição mais intensos. Tudo isto é natural se pensarmos que o líquido amniótico é impregnado por várias substâncias e sabores que passam da mãe e que têm origem nos alimentos que esta consome. Os gostos alimentares têm, portanto, uma origem muito precoce na vida da criança. Isso pode explicar certas preferências, embora não deva servir como alibi para as «esquisitices» alimentares da criança.

 

O bebé ouve bem

 

A audição da criança recém-nascida tem também sido alvo de intensa investigação. Sabe-se agora que o bebé é capaz de, a partir da 26ª semana de gestação, reconhecer e diferenciar sons de diversas frequências e manifestar o seu contentamento ou o seu desagrado relativamente a um som, o que é avaliável pela observação das alterações do ritmo cardíaco e dos movimentos fetais em resposta a estímulos auditivos. Sabe-se, de igual modo, que um bebé que tenha ouvido certas melodias durante a gestação pode, depois de nascer, reconhecê-las e acalmar-se ao ouvi-las, demonstrando, afinal, a «nostalgia» do conforto uterino. Do mesmo modo, um bebé acalma-se, geralmente, ao ouvir sons ritmados… Provavelmente por evocar o barulho dos batimentos cardíacos da mãe, aos quais se habituou durante nove meses consecutivos e que lhe relembram o ambiente calmo e agradável em que viveu durante esse tempo. Pode também reconhecer facilmente a voz do pai, se teve a oportunidade de a ouvir durante a gravidez - é, por isso, importante que os pais-homens falem com o feto, quando ele ainda está na barriga da mãe.

 

Logo depois de nascer, pode avaliar-se a audição do bebé, provando que volta nitidamente os olhos ou a cabeça na direcção do som. Por outro lado, ruídos inesperados (como o estrondo de uma porta a fechar-se) provocam uma reacção de agitação ou «sustos» (reflexos de Moro), enquanto barulhos rotineiros e mantidos (como o som de um aspirador) não provocam qualquer reacção.

 

A criança é especialmente sensível à voz humana. Falar com o bebé é um momento essencial na relação pais-filho. Ouvir a voz da mãe, especialmente a voz aguda que todas as mães tendem a adoptar quando falam com os bebés ou, pelo contrário, sons de tonalidade grave, tem um efeito pacificador e tranquilizante sobre a criança. Deve falar-se com os bebés, especialmente quando eles estão acordados e não têm fome ou não se sentem desconfortáveis.

 

E o tacto...

 

Resta o quinto sentido - o do tacto. Sabe-se que o feto, ainda na vida intra-uterina, é sensível aos estímulos tácteis que lhe chegam a partir dos movimentos da mãe. A massagem suave do ventre materno provoca movimentos do feto. Por outro lado, movimentos «agressivos» da parede abdominal da mãe - como, por exemplo, espetar um dedo - levam o feto a adoptar atitudes de defesa, como o sobressalto e a recua. Depois de nascerem, muito gostam eles de ser acariciados ou simplesmente de se sentirem em contacto com o corpo e a pele dos pais.

 

Estímulos e descobertas

 

Os bebés são capazes de muitas coisas Longe vão felizmente os dias em que, para os pais e para os profissionais de saúde, os bebés recém-nascidos eram seres incapazes de uma interacção com o mundo que os rodeava. A investigação pediátrica, entre outras, provou, sem margem para dúvidas, o que era evidente e esperado, tendo em conta o que se passa com todos os outros animais: o recém-nascido tem as suas capacidades sensoriais bem desenvolvidas e necessita de estimulação para a sua vida de relação. É um ser capaz de comunicar e são enormes as vantagens de entender e estimular essa comunicação.

 

Para os pais, por outro lado, é extremamente recompensador e divertido descobrir as capacidades do seu filho. Os pais não devem ter medo de brincar com o bebé, de falar com ele, de o estimular, demonstrando abertamente o seu amor. É fácil perceber os melhores momentos para desenvolver esta interacção pais/filho: quando o bebé está bem acordado, sem fome, sem a fralda molhada, sem cólicas, sem frio, sem sono. É fácil perceber, também, quando o bebé está a ficar cansado - ele defende-se, deixando-se adormecer ou ficando irritado. É também fácil descobrir como o bebé se consola, quando irritado: falando com ele, pondo-lhe a mão na barriga, segurando-lhe as mãos e as pernas e impedindo os movimentos de agitação que o desorganizam, pegando-lhe ao colo, embalando-o.

 

Cada bebé tem a sua maneira de ser e o seu leque de respostas aos diversos estímulos do mundo que veio encontrar, após nove meses de vida num ambiente agradavelmente quente, relativamente insonorizado e sem demasiada luz. Não se pode esperar que um irmão seja igual a outro irmão, muito menos que o nosso bebé responda da mesma forma que os filhos dos vizinhos, dos amigos ou dos colegas. 

 

A descoberta do bebé é um desafio estimulante e agradável para cada casal, com a certeza, porém, de que o recém-nascido humano sabe fazer muitas mais coisas do que simplesmente comer e dormir. É só uma questão de lhe dar as oportunidades para o demonstrar. E apreciar cada dia do bebé «gulosamente». Mesmo que o tempo não seja muito em quantidade, pode ser excelente em qualidade. Amanhã já o bebé será diferente, será outro, como nós o seremos também. E em famílias com poucos filhos, como é o caso das portuguesas, não vamos ter tantas hipóteses de experimentar a alegria e a felicidade (e o gozo) de ser pais e de descobrirmos, sentido a sentido, os nossos bebés.

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