Puberdade e descoberta
«Tenho uma filha de nove anos e estou meia perdida. Ela aperta as partes íntimas muitas vezes e fala sobre sexo com as amigas. Eu conversei com ela e soube que ela colocou objectos nas partes íntimas. Estou desesperada e não sei como lidar com esta situação.»
A sua filha encontra-se no período pubertário, que antecede e inicia a adolescência, sendo uma fase de contacto mais intenso com a vivência e reconhecimento dos caracteres sexuais. Período este em que se dá um desenvolvimento físico e um aporte emocional intenso que se liga ao corpo. Tudo o que promova que a mesma o faça de modo tranquilo e não culpabilizante será de enorme importância. Pelo que será fundamental relativizar essas manifestações, procurando falar com a sua filha de forma sempre construtiva, apelando apenas que ela tenha essas manifestações na sua intimidade (não em público).
Álvaro Ferreira
Frases «cruéis»
A minha filha de seis anos, um dia a brincar fazendo um trabalho para o dia da mãe com uma amiga de quatro anos, virou-se para ela e disse: «a tua mãe morreu, a tua mãe já não é a Maria...». A amiguinha ficou assustada e eu mais ainda porque queria perceber o significado deste comportamento aparentemente cruel. Queria saber se pode ser indício de algum problema psicológico, uma vez que eu e o pai separámo-nos há dois anos e meio e o pai é muito ausente e nada carinhoso.»
O facto de a sua filha ter os pais separados não significa por si só a existência de perturbação. Mas é claro que é muito importante para qualquer criança ter a presença e carinho (se possível) de ambos os pais. O tipo de situação que descreve também não revela por si «problemas psíquicos». O crescimento emocional faz-se por experiências, sentimentos, jogos. Essas frases aparentemente para nós «cruéis», mobilizam as angústias, sentimentos, afectos, mobilização essa necessária para crescer e ser saudável.
Álvaro Ferreira
Agressividade na escola
Sou professora de inglês no primeiro ciclo e tenho um aluno de sete anos que reage muito agressivamente cada vez que é contrariado ou é necessário cumprir regras do dia-a-dia. Já tentei tudo, falei com ele tentando perceber se tinha algum problema, coloquei-o de castigo, a professora já falou com os pais e nada resulta. Continua a agredir colegas, funcionários e até professores. Uma simples pergunta como «Porque agrediste a tua colega» é suficiente para ele atirar coisas pelo ar. Já não sei o que fazer.
A agressividade do seu aluno transmite que alguma questão que não estará a correr bem com ele. É normal que ele não reaja bem à pergunta que lhe colocam: «Porque agrediste a tua colega?». Afinal, ele não saberá muito bem o que estará a acontecer. Ele está a reagir com a emoção e não com a razão. Era muito importante que ele pudesse ser consultado na área da Psiquiatria da infância ou da Psicologia Clínica, de modo a compreender o que o está a transtornar dessa forma tão violenta.
Maria João Santos
Testa os limites
Estou numa situação desesperante com a minha filha de seis anos. É uma miúda muito inteligente e com aproveitamento escolar, o problema é o comportamento. É muito destemida, teimosa, testa os limites e agora chega a ser mal educada. Responde mal à professora e não tem medo de nada. A professora nunca soube lidar com ela, rotulando e humilhando a miúda. Ela já é acompanhada por um psicólogo e pelo psicólogo da escola e ainda é chamada à atenção por duas directoras. Acho muito para uma criança desta idade mas as três professoras já dizem que ela não é normal.
Pelo que relata, a sua filha estará muito pouco tranquila na escola. Em casa registará os mesmos comportamentos? Se está a ser acompanhada na área da psicologia, seria importante conversarem todos para tentar encontrar algum caminho que tranquilize a sua filha. Talvez fosse importante também poder ser consultada na área da Psiquiatria da infância. Por vezes é fundamental promover um encontro de saberes e experiências para adequar melhor a intervenção
Maria João Santos
Separação e rotinas
O contacto com o pai causa quebra de rotinas? Tenho dois rapazes gémeos de três anos e separei-me há um ano e meio. Os meninos mudaram de casa, infantário e passaram a ver o pai um dia por semana. Estas mudanças coincidiram com o desmame da fralda, que não está a correr bem. De dia fazem xixi na sanita mas cocó só na fralda.Sei que o pai e a avó põem-lhes fralda sempre. Outra questão é o facto deles faltarem ao infantário um dia por semana (na folga do pai). A educadora acha que é um mal menor, mas, tendo em conta a quebra de rotinas, estou preocupada.
Responderia à questão que a leitora nos coloca, afirmando que quanto maior for a consistência e previsibilidade nas rotinas das crianças, maior eficácia terão na superação dos objectivos para as quais estão pensadas. Desta forma, é fundamental uma boa comunicação entre o pai e a mãe para que se chegue a um consenso relativamente a algumas rotinas estruturantes. Deixando sempre espaço para a liberdade individual de cada um e de cada contexto.Assim, haverá sempre coisas que se fazem em casa de um e que não têm que ser exactamente iguais na casa do outro.
Mas haverá pontos fundamentais na educação e desenvolvimento das crianças que devem ser discutidos e definidos por ambos os pais. Havendo este cuidado na definição das linhas gerais da educação das crianças, torna-se mais fácil passar a mensagem de que os pais podem já não ser «namorados», mas são e serão cúmplices no amor que sentem pelos filhos, garantindo a função parental.
Sabemos que nem sempre a comunicação entre os pais é uma situação fácil, por isso a introdução de um terceiro elemento facilitador e mediador desta comunicação é fundamental, para garantir que apenas as questões que se prendem com a educação e e desenvolvimento das crianças são discutidas e não outras inerentes à própria ruptura e que podem trazer «ruídos» para o diálogo, tornando-o ineficaz.
Mónica Bento
Adaptação difícil à creche
«Tenho uma menina de 14 meses que está na creche desde Setembro. Nunca se adaptou: chora todos os dias para ficar e enquanto lá está, e tem adoecido várias vezes. A pediatra diz que é natural e que ela tem tendência a infecções respiratórias. Estou a pensar mudá-la no próximo ano lectivo pois ela na creche chora muito ao longo do dia. Mas a coordenadora diz que não o devo fazer pois para o ano será pior pois terá que reiniciar toda a adaptação. Mas eu pergunto: qual adaptação se todos os dias parecem o primeiro?»
Pelo que refere, a sua filha tem interrompido várias vezes a rotina da ida para a creche por razões de saúde. Essa será uma situação que não ajudará a uma adaptação mais tranquila, em crianças que demonstrem dificuldades a este nível. Por vezes, em processos de adaptação muito difíceis, uma ajuda poderá ser a mudança. No entanto, para poder aconselhar esta mudança seria necessário reflectir e avaliar muitas questões que poderão estar a dificultar a adaptação.
Seria necessário entender questões como por exemplo, a relação da sua filha com a educadora, com as auxiliares, com os colegas. O que ela gosta ou não na escola… e outras questões que será muito difícil de equacionar no geral. Tente perceber o que está na base desta dificuldade e até que ponto a sua possível ansiedade (perfeitamente natural numa situação como esta) poderá ou não estar a dificultar também o processo. Quando não é fácil para os pais não é fácil para os filhos.
Maria João Santos
Dificuldade em adormecer
«Sou mãe de dois meninos, de três e quatro anos. Estamos a enfrentar uma fase difícil, tanto a nivel de adormecerem, como de brigas entre irmãos e de teimosia. No geral vão para cama entre as 20h30 e as 21h00h e, habitualmente, antes das 21h30h já estavam a dormir e acordavam por volta das 7h00. Actualmente, vão para a cama à mesma hora mas só passado uma a duas horas é que adormecem e querem que fique com eles até dormirem. Como tenho muita coisa para fazer, conto uma história e depois saio do quarto. Mas de cinco em cinco minutos vão ter comigo.»
Em primeiro lugar, tal como referiu e bem, é uma fase. Poderá ser difícil, mas é uma boa fase. Significa que os seus filhos estão a lutar pela sua autonomia (birras). A lutar para serem eles próprios (teimosias), e a lutar pela atenção da mãe. Quanto mais tentar fugir dos seus chamamentos, mais eles correrão atrás de si. É natural. Eles querem a mãe, a sua disponibilidade incondicional. Histórias como esta repetem-se, com nuances. Se não vão ter consigo chamam-na para trazer um copo de água, porque querem mais uma voz embaladora a ler mais uma história, porque… Eles apenas querem ter a certeza que a mãe está lá para quando precisarem. E esta mensagem não passa através do que se diz mas do que se faz.
Surpreenda-os com a sua disponibilidade total, na hora de dormir. Eles estão a necessitar. À medida que vão crescendo vão perceber que a mãe está com eles para quando precisam mesmo. A disponibilidade para as crianças é difícil de arranjar mas vale a pena. Dá-lhes segurança. Não tenha medo que eles fiquem dependentes. Com o tempo, não irão estar tão chamativos porque estarão mais seguros. Investir no sentimento de segurança das crianças tem um valor incalculável para todos!
Maria João Santos
Choro na creche
«O meu filho entrou na creche com sete meses, só na parte da tarde. Desde que entrou (hoje está com um ano e três meses) chora sempre na hora que vou deixá-lo, agarrado ao meu pescoço... Mas após deixá-lo fico a observar de longe e após alguns minutos ele pára de chorar. Segundo as professoras fica bem o resto do dia. O pediatra dele disse que a forma de adaptá-lo foi errada, pois apesar ter sido aos poucos, cada dia uma hora a mais, eu não podia ficar na sala com ele, ficava na secretaria.»
É importante que o seu filho se sinta bem na creche. E pelo que refere, ele apenas chora na hora da separação. Não me cabe a mim dizer se a forma como se fez a adaptação foi certa ou errada. Foi a possível dentro dos «limites» e sensibilidades de cada um. A questão não se coloca na forma da adaptação mas na hora da despedida. Como largar a mãe se para a mãe também é tão difícil largar o bebé? A questão que se coloca aqui tem a ver com a (in)segurança que o seu filho consegue encontrar e onde pode apoiá-la. Assim, é fundamental que a mãe possa encarar esta separação com naturalidade. Tem uma grande ajuda neste processo. Sabe que ele fica bem na escola! Com o tempo, ele vai percebendo que a mãe volta sempre e que há a hora de ir embora e voltar. Para já, parece-me importante dar importância às rotinas (horas de ir para a escola e para voltar da escola) para que ele sinta que há a segurança da chegada da mãe a uma hora determinada.
Maria João Santos
Insucesso escolar
«O meu filho entrou na creche com sete meses, só na parte da tarde. Desde que entrou (hoje está com um ano e três meses) chora sempre na hora que vou deixá-lo, agarrado ao meu pescoço... Mas após deixá-lo fico a observar de longe e após alguns minutos ele pára de chorar. Segundo as professoras fica bem o resto do dia. O pediatra dele disse que a forma de adaptá-lo foi errada, pois apesar ter sido aos poucos, cada dia uma hora a mais, eu não podia ficar na sala com ele, ficava na secretaria.»
Por vezes, a incapacidade supera a vontade. Não estou a falar de capacidades cognitivas, mas em questões que estão a bloquear o sucesso na escola. E essas podem ser as mais variadas (relacionadas com processos sociais, psicológicos, neuropsicológicos…). Parece-me muito importante que ele continue a frequentar a escola. A par disso deverá fazer uma avaliação na área da neuropsicologia para perceber como estão as suas funções executivas (concentração, dispersão…). Seguidamente o encaminhamento adequado será feito de acordo com o processo que esteja a «bloquear» o seu filho.
Maria João Santos
Voluntarismo
A minha filha de três anos é muito voluntariosa! Quer ser ela a fazer tudo, o que de manhã é muito complicado, pois estamos com pressa para o trabalho e ela não nos deixa vesti-la, se a obrigamos é birra na certa, o que nos faz demorar ainda mais tempo! Além disso é muito refilona, está sempre a responder-nos, fala-nos com autoridade e apesar de estar sempre a corrigi-la, não tenho tido resultados. A minha questão é: quando passar ao castigo?
Coloca várias questões que vou tentar separar. Em primeiro lugar, o facto de referir que a sua filha é voluntariosa aos três anos é fantástico. Ela está a lutar pela sua autonomia. Está a lutar para poder fazer as coisas sozinha e isso é muito importante. Assim, deverá ser olhado de forma positiva. Tem uma filha lutadora! A birra faz parte da luta dela.
Em segundo lugar, o tempo dos adultos simplesmente não existe para as crianças. Ao compreender este aspecto, poderá adoptar estratégias que evitem o conflito que já sabe que vai surgir. Por exemplo preparar a roupa de véspera, levantar-se um pouco mais cedo, ou outras estratégias que entenda como adequadas. A questão de falar com autoridade aos pais será uma questão que deverá ser corrigida. No entanto, é importante perceber que as crianças tendem a reproduzir os comportamentos dos adultos. Assim, o exemplo que vê à frente será o que saberá imitar. Ao surpreendê-la com uma conversa calma, não entrando nunca numa conversa ao nível dela, a sua filha perceberá com o tempo que o comportamento a ter é de diálogo e não de confronto. Nas «guerras» todos ficam a perder! Por fim os castigos. Esta é uma questão complexa e longa. No entanto o que deverá estar por base será que o objectivo é que as crianças aprendam a controlar-se (controlo interno) e não a ser controladas (controlo externo). O objectivo será levá-la a pensar no que está a fazer ou fez. Ouvi-la e explicar-lhe como deveria fazer as coisas até ser ela a criar uma estrutura para resolver as questões de forma positiva.
Maria João Santos
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