O meu filho é hiperativo?

Indíce do artigo
O meu filho é hiperativo?
Prevalência não está a aumentar
Informação é essencial
Todas as páginas


alt

Ter uma energia inesgotável, ser irrequieto e desatento não é sinónimo de hiperatividade. Há que evitar rótulos supérfluos e apostar no diagnóstico criterioso. Uma criança hiperativa é muito mais do que um pequeno ser ligado à corrente: é como um carro sem travões.


Sempre que a professora do João precisava de identificá-lo no recreio, no meio dos outros meninos, já sabia que bastava procurar pela criança que, sem motivo aparente, passava o tempo a fazer rodas e pinos. Era uma criança “muito ativa e elétrica”, mas a agitação motora em si “não nos preocupou”, conta o pai. Aos 10 anos, por vias das dúvidas, decidiram fazer um primeiro despiste, consultando “um médico recomendado”, que lhes aliviou as dúvidas e o peso nos ombros: não havia motivos para preocupação, o João era “apenas uma criança feliz”. Mas no final do 5.º ano, após queixas da escola relacionadas com “falta de concentração, resultados escolares baixos devido à distração e impulsividade”, João voltou ao médico. Especialista diferente, diagnóstico contrário. “Ao fim de três perguntas”, receitou-lhe medicação. Só quase “um ano depois”, já com 12 anos, é que João foi “submetido a vários testes” que indicavam “distúrbio de défice de atenção com hiperatividade moderada”. A partir daí e durante um ano, além da medicação, João passou a contar com o apoio de um psicólogo, que acompanhava também os pais. Foi uma “experiência interessante”, mas na realidade os problemas do João “não foram resolvidos”.

O caso do João é apenas um entre muitos, com diagnósticos confusos, contraditórios e, por vezes, até errados. Começam com as suspeitas dos pais e dos professores, a procura de uma explicação para a agitação excessiva e as dificuldades na aprendizagem e a justificação para o rótulo de “miúdos problemáticos”.

Perceber se existe apenas uma energia fora do comum ou se a criança tem, de facto, Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) é essencial, mas nem sempre é simples. A dificuldade começa na procura de ajuda. “Os pais continuam a sentir o desespero sobre a quem devem recorrer”, afirma Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa (APDCH), que considera que a “escola tem que estar mais bem preparada para apoiar estas crianças com uma equipa multidisciplinar, em que há um psicólogo clínico, mas também um psicólogo educacional e um técnico de psicomotricidade.” No entanto, lamenta, “o Ministério da Educação ainda não acordou no sentido de ver a importância do psicólogo educacional, que é fundamental, já que trabalha não só a parte de casa e da família, como também a escola”.

Na opinião de Linda Serrão, que é hiperativa e mãe de três rapazes também eles hiperativos, “a falta deste apoio leva a que haja crianças mal avaliadas, mal medicadas, por vezes nem precisam de medicação e estão a fazê-la e vice-versa”. Nestes casos, explica, o que por vezes acontece é que “há um acontecimento no seio familiar, como um divórcio ou uma morte, que perturba a criança, mexe com o seu temperamento, mas isso não é hiperatividade”. No entanto, “são rotuladas como tal”. Erradamente.


A importância do diagnóstico correto


Como em qualquer doença, física ou psicológica, o diagnóstico “deve ser feito por um profissional de saúde específico e capacitado”, sublinha Mafalda Navarro, psicóloga clínica, na Clinica da Criança e do Adolescente. Neste caso, a criança “deverá ser avaliada por um neurologista ou psiquiatra, que irá exaustivamente reunir toda a informação necessária para chegar a um correto diagnóstico, sendo indispensável ao longo do processo falar com os pais e educadores, ou outras pessoas que se considere relevantes na vida da criança, assim como utilizar uma bateria completa de testes psicológicos ou neuropsicológicos que complementem a informação recolhida”.


Tal como a presidente da APDCH, também Mafalda Navarro sublinha que para que seja atribuído um diagnóstico correto de PHDA não “é suficiente que os pais da criança ou a própria escola denotem uma agitação excessiva”. Esse comportamento “pode ser apresentado de uma forma circunstancial e dever-se, por exemplo, a uma crise familiar momentânea ou a alguma alteração na rotina da criança”.


A rotulagem que é feita por professores, pais ou amigos “tem um peso negativo, uma conotação muito negativa”, lembra Carlos Filipe, psiquiatra e diretor científico do Cadin (Centro de Apoio ao desenvolvimento infantil). Por isso, são de evitar as rotulagens supérfluas e superficiais. O diagnóstico da PHDA é um “diagnóstico médico, segundo critérios rigorosos”, sublinha o especialista, ressalvando, contudo, que “não há nenhuma análise, nem nenhum exame para diagnosticar PHDA”. O diagnóstico é clínico, “com base na história da pessoa, que é fundamental, e pelo comportamento atual”. A PHDA é uma perturbação do desenvolvimento, portanto, “não pode ser uma coisa que apareceu no mês passado, quando o menino mudou de escola”. Uma PHDA mal diagnosticada “trata-se de um rótulo muito perigoso que irá acompanhar a criança durante todo o seu desenvolvimento, podendo condicioná-lo”, assegura Mafalda Navarro.



Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais