Menino ilha, rodeado de amor por todos os lados

Ser o filho mais novo de quatro deve ser bom. Só pode ser bom. Leia a crónica de Sónia Morais Santos.


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Ser o filho mais novo de quatro deve ser bom. Só pode ser bom. O Mateus acorda todos os dias, desde que nasceu, e é imediatamente abraçado e beijado e apaparicado por muita gente. Uma mãe, um pai, três irmãos e ainda um cão. O Mateus é um bebé de sorte porque acordar assim, com doses maciças de amor todos os dias, só pode fazer bem à saúde do corpo e da alma. O Mateus acorda todos os dias a sorrir porque já sabe que, de seguida, vai andar de colo em colo, de beijo em beijo, de ternura em ternura. Estamos todos apaixonados por ele. O Manel, que tem 13 anos, é uma espécie de mano-pai. Toma conta dele, pega-lhe enquanto preparo a sopa, segura nele ao mesmo tempo que joga Playstation, revira os olhos de paixão quando o cheira. O Martim, de dez anos, diz que ele é um fofo e tem vontade de o apertar, mas talvez seja, dos três, o que perde menos tempo com o irmãozinho, seja porque ainda não tem a maturidade suficiente para o ver como “irfilho”, seja porque a televisão ou o jogo da bola são aliciantes muito superiores a um bebé que pouco mais faz que babar-se e sorrir como um tolo. A Madalena, por sua vez, do alto dos seus seis anos acabados de fazer, é uma mãezinha em potência. Ralha com ele (adora ralhar), muda a fralda (é a única dos três que se oferece para o fazer), embala-o,  brinca, entretém-no, quer dar-lhe a papa. Quando nasceu o primeiro dente do Mateus, há dias, dei um passo atrás e fiquei a olhar para ele, com uma expressão triste. Meu bebé. Já tens um dente. Começas, devagarinho, a deixar de ser bebé. Pensei que era uma tolice minha, esta de querer perpetuar este estado larvar da minha cria. Afinal, bastou-me uma pequena reflexão para concluir o seguinte: quando temos um primeiro filho temos pressa. Queremos vê-lo sorrir, queremos o primeiro dentinho, a primeira papa, a primeira graça, os primeiros passos. Queremos assistir a tudo, depressa, porque temos sede da novidade e queremos mostrar ao mundo as conquistas daquele ser que é a sublimação de nós mesmos. Mas, ao quarto filho, o que queremos é vagar. Já sabemos como é dar uma papa, como pica o primeiro dente, já passámos pelos primeiros passos. Também gostamos das suas conquistas, é claro. Mas já não as ansiamos, já não queremos que venham depressa. Queremos que tudo chegue com vagar porque já vimos o mesmo filme várias vezes e agora só nos apetece desfrutar. Estava eu enredada nos meus pensamentos, dizendo de mim para mim que é típica de mãe de quatro esta vontade de querer que o meu bebé fique bebé por muito tempo, quando o Martim verbalizou justamente o mesmo sentimento:
- Ó Mateus... um dente? Estás a crescer... e eu não queria que tu crescesses. Não tão rápido...
De seguida, a Madalena chegou da escola e, confrontada com a informação do primeiro dente do irmão, exclamou o mesmo:
- Oh... ele vai deixar de ser bebé, mãe?
Foi então que percebi que não, este desejo não é exclusivo de uma mãe de quatro. É o que sentimos todos, nesta casa em que somos muitos. Todos queremos desfrutar mais tempo do caçula. Todos estamos profundamente enamorados por este bebé rechonchudo que nos faz transbordar de paixão. Por isso, Mateus, cresce. Mas cresce devagarinho, se faz favor. Até por ti, que és um menino--ilha, rodeado de amor por todos os lados.

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