Madalena
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2636
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Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer.
E pronto. Hei-de morrer sem saber o que é isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito. Não fora eu uma mulher com muitos afazeres e pouco tempo livre para a depressão e juro que deprimia, mas deprimia mesmo à séria, que a ideia de haver experiências que me estão definitivamente vedadas para o resto da vida aborrece-me a valer. Adiante. A verdade é que a Madalena nasceu e é linda e eu estou perdidamente apaixonada por ela. E com tamanho amor dentro do peito é difícil uma pessoa dedicar-se à depressão, de modo que mais vale andar para a frente e apreciar a felicidade única de ter um bebé em casa do que ficar a remoer num momento que já passou e que não tem volta.
A Madalena nasceu no dia 28 de Junho. Era domingo e, apesar de ser o dia do Senhor, o meu querido obstetra, Dr. Fernando Cirurgião, abriu a porta do consultório de propósito para me fazer mais um toque (já tinha feito um na véspera e outro na antevéspera), tudo para ver se o colo do útero se resolvia a abrir, qual porta mágica, para dar passagem à minha miúda. Um parêntesis para dizer, de resto, que para aquele médico não há fins-de-semana ou feriados, dias santos ou dias não, o homem trabalha como nunca se viu, de dia, de noite e de madrugada, sempre com um sorriso, sempre fazendo-nos sentir que tem todo o tempo para nos aturar, que somos a única grávida que importa, que não houve mais nenhuma antes de nós e não vai haver mais nenhuma a seguir.
O estúpido do meu colo estava mole mas ainda fechado. E assim fui para casa, com ordem para dar corda aos sapatos, coisa que fiz de imediato e com tanto vigor que ainda hoje deve haver pessoas incrédulas por terem avistado, naquele domingo, uma grávida muito grávida a subir e a descer a escadaria do Pavilhão Atlântico vinte vezes, isso mesmo, vinte vezes vinte e sete degraus, o que perfaz 540 degraus, subidos e descidos com a destreza de uma atleta sem pança. Além dessas manobras, fiz vários quilómetros a pé, da zona sul do Parque das Nações até à zona norte, junto à Ponte Vasco da Gama, para depois regressar à zona sul outra vez, praticamente morta mas com a sensação de dever cumprido.
Chegada a casa, sentei-me a almoçar com a minha família e na última garfada tive a primeira contracção. Cinco minutos depois, outra. Cinco minutos depois, outra. Comecei a sorrir. Pensei: resultou! E outra. E outra. Durante uma hora foi assim. Liguei ao médico e ele mandou-me para a Cuf Descobertas, pedindo notícias em breve. Esse momento foi lindo. Inesquecível. Tal e qual os filmes, tal e qual como eu sonhava. Os miúdos de repente recambiados para a avó, o coração aos pulos, o pai apatetado (tão apatetado que, já eu estava a caminho do bloco, percebeu que se tinha esquecido da mala da Madalena), e a coisa estava tão embalada que, apesar de vivermos a um minuto de carro da Cuf Descobertas, sugeri ao Ricardo que buzinasse e pusesse os piscas: «É o nosso terceiro filho, nunca tivemos isto, toca a aproveitar!»
Mas o colo continuou fechado e as contracções estavam ferozes. O curioso é que não doíam quase nada. Até ao momento em que me disseram que ia mesmo ter de ser cesariana. Com o colo tão fechado e com contracções tão seguidas, o risco do meu útero rebentar na zona das cicatrizes anteriores era grande. Não dava para esperar que o colo se resolvesse a abrir. E, de imediato, as contracções começaram a doer. Nesse instante tive muita, mas mesmo muita vontade de chorar. Não de dor, mas de desilusão. Tinha acreditado que à terceira podia ser de vez. E afinal… afinal havia de morrer sem saber o que era isso de parir, com força e suor e sangue e talvez até gritos e tudo aquilo que se vê nos filmes e a que eu achava que também tinha direito.
Mas pronto. Passado pouco tempo o Dr. Fernando chegou e olhou-me com aquele olhar sereno que sossega, passado pouco tempo o pai Ricardo entrou no bloco (porque felizmente a Cuf Descobertas decidiu deixar os pais assistir às cesarianas), e passado mais um pouco o anestesista baixou o pano e nós vimos a nossa menina sair de mim para o mundo inteiro. Uma nova pessoa, uma nova vida, um livro em branco onde vamos sempre tentar escrever o melhor que podemos, o melhor que sabemos. Olhámos um para o outro e soubemos que nada mais importava. A Madalena nasceu dia 28 de Junho, às 19h39, de cesariana, linda de morrer, e nós estamos irremediavelmente apaixonados por ela. O resto? O resto são detalhes.



