Esperança no terceiro parto

Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e  me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia.

A  culpa é dos filmes. Uma pessoa acostuma-se a ver senhoras de repente aflitas, de repente a dizerem que chegou a hora, de repente a deixarem os maridos em transe com as águas que as inundaram, a zarparem muito depressa para a maternidade, uma pessoa acostuma-se a isto e não imagina para si outra cena, de modo que quando o guião é outro fica-se com a sensação de que o nosso filme não presta e que, se fosse visionado por um qualquer crítico da sétima arte, não levava mais do que uma desprezível bola preta.
Quando tive o primeiro filho, o dia do parto foi marcado mas a indução ainda permitiu algum suspense. O obstetra a dizer que, em princípio, a criatura não ia descer para a porta de saída, eu a insistir que queria pagar para ver (estava num hospital privado, de maneira que a expressão não é de todo descabida), e assim permaneci algumas horas, arfando e gemendo, capaz de espetar um bofardo no nariz do Ricardo sempre que ele me chamava a atenção para o modo correcto de respirar, e pedindo a Deus e aos anjos uma epidural fresquinha. No final, o esforço não foi retribuído pelo Manel que, do alto dos seus quatro quilos, se escusou aproximar-se da luz ao fundo do túnel e assim fui aberta e depois cosida, acabando em águas de bacalhau qualquer ideia de um parto natural.
Se o primeiro parto já deixou algum amargo de boca, o segundo foi pior. O obstetra resolveu informar-me que depois de uma cesariana a única opção era outra cesariana, e esta parva comeu a teoria sem sequer fazer uma mísera pesquisa no Google, de maneira que no dia marcado chamei um táxi, enquanto o Ricardo foi levar o mais velho ao colégio. O motorista, coitadito, ainda há-de ter sentido um tremor percorrer-lhe a espinha, quando viu aquele barril com pernas abeirar-se da sua viatura com duas malinhas na mão e a dizer «É para a Cuf Descobertas, se faz favor». Fosse por ser boa alma, fosse por não querer ver o seu táxi invadido por líquidos maternais, o homem abriu muito os olhos e perguntou: «Chegou a horinha, foi?», e pisou a fundo o acelerador. Foi preciso explicar-lhe que não havia pressa, que escusava de nos matar aos três, e a boa alma – que também há-de ter visto muitos filmes  – lá seguiu entristecida, esvaziada de emoção. Daí a nada já eu estava com o bucho aberto e de novo fechado, como se tivesse ido remover um quisto ou outra nascida desinteressante, sem ais nem uis, sem a mínima participação na cena, sem esforço, dor ou cansaço.
É por isso que todos os sonhos de um parto inesperado, daqueles que os filmes nos espetam pelos olhos dentro desde que o cinema se dedicou à maternidade, todos esses sonhos – dizia – estão agora depositados na pequena Madalena, ela que já se revelou tão diferente dos irmãos, não só porque se mexe na minha barriga muito mais do que qualquer um dos rapazes, como pelos parcos quilos que me fez engordar, nove ao todo, num bestial contraste com os 25 que ganhei na primeira gravidez e os 20 que somei na segunda.
O novo obstetra vai pondo alguma água na minha fervura, explica que não poderemos esperar até às 40 semanas, que o meu útero corre o risco de romper na zona das anteriores cicatrizes, que nunca poderemos induzir porque as contracções com a indução são demasiado intensas para um útero tão costurado, que é pouco provável que ela decida nascer espontaneamente antes de ele lá ir pescá-la. Mas a verdade é que eu ainda deposito alguma fé e imagino todos os dias que, de repente, vai desabar um mar morninho nas minhas pernas, que a barriga se me vai pôr dura como uma pedra a cada cinco minutos, e que vou acordar o Ricardo com um: «Querido, chegou a hora», para de seguida o ver desgovernado pela casa, a pôr pasta dos dentes na barba, seguindo no carro com os quatro piscas ligados e a buzinar que nem um demente, apesar do hospital ficar a 200 metros da nossa casa.
Sei que é pedir muito a um feto, sei que ela não tem culpa dos filmes todos que eu vi e que me formataram os sonhos, sei que o mais certo é marcarmos a cirurgia e pronto, mais um que nasce sem a emoção do nascer. Resta-me o consolo de ter o pai ao meu lado, coisa inédita nesta aventura da maternidade. A Cuf Descobertas acaba de decidir tornar-se um hospital  amigo dos bebés e dos progenitores, permitindo que os pais (que o desejem) assistam às cesarianas, estando ao lado das mulheres nessa hora mágica em que uma nova vida sai de uma barriga para o mundo. Esta atitude não vai fazer o meu filme uma obra-prima mas já vai dar uma grande ajuda a que não seja um fracasso de bilheteira.

Comentários  

 
#1 Visitante 11-10-2011 13:03
Quero felicitá-la pela magia da palavras que expressa e o realismo que permite com facilidade acompanhar com imagens e sorrisos cada frase.

este comentário é válido igualmente para artigo "Encolhe a barriga e estica o peito
por Sónia Morais Santos. Fotografia Pedro Rocha/Global Imagens"

Obrigada pelos bons momentos que os seus, hà sua maneira, servem de escape à dureza/cinzentismo da vida.
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