«Encegonhei»
Escrito por Sónia Morais Santos Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2628
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Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.
E vai daí que «encegonhei», primeira pessoa do singular do verbo «encegonhar», verbo inventado de fresco e que significa isso mesmo, acolher a cegonha, deixá-la pousar na nossa casa, receber a trouxa querida e, claro, agradecer a gentileza e desejar à ave uma boa viagem de regresso. Para quem abre a revista pela primeira vez, explicar que esta que agora escreve na primeira pessoa, depositou aqui durante seis meses a história da Ana e do Hugo Rodrigues, dois pais grávidos de primeira viagem que aceitaram ser acompanhados, perscrutados e perseguidos pela PAIS&Filhos (e pela Antena 1, em programa diário), dois grávidos agora feitos pais, e ao que se sabe dois belíssimos pais, que a Maria Leonor está gordinha e sorri e já tem três meses de uma vida sossegada e feliz.
Pois então, para quem não sabe, fica a notícia. A jornalista que acompanhou A Viagem da Cegonha – esta mesma que vos escreve – «encegonhou». E, assim «encegonhada», decidiu aceitar o amável convite da directora da PAIS&Filhos para vir aqui depositar a sua história. De modo que é isto. Estou grávida muito grávida. Tão grávida que a cada hora e meia, mais coisa menos coisa, há alguém que pergunta se são dois em vez de um, há alguém que vai mais longe e quer saber se são três ou até quatro, verdadeira ninhada de gata, a cada duas horas há quem pergunte se está quase, mesmo quase. A verdade é que está. A Madalena nasce lá para meios de Junho, resta saber se será gémeos ou caranguejo, se nasce de parto natural ou, como é mais certo, de cesariana, e se os dois irmãos vão ficar tão apaixonados por ela como já se estima que fiquem.
Os irmãos da Madalena, o Manel e o Martim, têm sete e quatro anos, respectivamente. E deixaram de me olhar como mãe, entidade única, para passarem a encarar-me como mãe-e-Madalena, uma espécie de dois em um em que a parte de mãe está claramente em desvantagem perante a fracção Madalena. Por isso, quando chego do trabalho, recebo um «Madalenaaa!» de cumprimento, beijos e abraços na barriga e, assim remetida para segundo plano, chego a ter de mendigar um beijo na cara, única forma de ter a certeza absoluta de que me beijam mesmo a mim, mãe.
Este amor pré-natal não caiu do céu aos trambolhões, como pozinho de perlimpimpim que a cegonha deixasse cair, mas tem antes sido minuciosamente cultivado por nós, pais, com a partilha de tudo e mais alguma coisa, desde os vestidinhos minúsculos às ecografias, sem esquecer os pontapés que os fazem delirar – creio que imaginando que, pela amostra, em vez de Barbies esta mana vai querer mesmo é jogar à bola como eles e como qualquer ser que se preze.
Esta gravidez, sendo a terceira, em nada se assemelha às outras. A primeira foi o espanto, o mistério, o milagre. E a ignorância, colmatada pela ávida leitura de todos os livros com barrigudas na capa.
A segunda gravidez foi o medo: e se eu não o amo tanto como amo o primeiro filho? Como será possível, de resto, igualar um amor assim? Um receio só ultrapassado quando, acabado de sair de mim, o Martim chorou, e eu também, e assim aprendi que o amor pelos filhos não se divide, antes se multiplica de cada vez que se repete.
Esta gravidez, a terceira, é diferente porque com a aprendizagem anterior o amor nasceu cedo e nasceu forte. E por ser uma menina, sexo muito desejado para o terceiro rebento, a descoberta e a invasão do rosa foi uma graça numa casa predominantemente azul, e uma desgraça num orçamento familiar que vivia em relativo sossego com as heranças de um mano para outro mano.
Certo é que os meses passaram muito mais velozes desta vez. Quando dei por ela, estava grávida, muito grávida. Tão grávida que deixei de responder pelo meu nome e passei a ser a «barrigorda», palavra ternurenta que se inventou cá em casa para me designar, e tão usada e abusada que se perdeu a noção de quem foi o seu brilhante autor, se o Martim, se o pai Ricardo.
Seja de quem for a autoria, é bom que esqueçam o vocábulo mal nasça a Madalena, porque só é giro ser «barrigorda» quando se tem gente dentro. Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.



