«Encegonhei»

Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.

E vai daí que «encegonhei», primeira pessoa do singular do verbo «encegonhar», verbo inventado de fresco e que significa isso mesmo, acolher a cegonha, deixá-la pousar na nossa casa, receber a trouxa querida e, claro, agradecer a gentileza e desejar à ave uma boa viagem de regresso. Para quem abre a revista pela primeira vez, explicar que esta que agora escreve na primeira pessoa, depositou aqui durante seis meses a história da Ana e do Hugo Rodrigues, dois pais grávidos de primeira viagem que aceitaram ser acompanhados, perscrutados e perseguidos pela PAIS&Filhos (e pela Antena 1, em programa diário), dois grávidos agora feitos pais, e ao que se sabe dois belíssimos pais, que a Maria Leonor está gordinha e sorri e já tem três meses de uma vida sossegada e feliz.
Pois então, para quem não sabe, fica a notícia. A jornalista que acompanhou A Viagem da Cegonha – esta mesma que vos escreve – «encegonhou». E, assim «encegonhada», decidiu aceitar o amável convite da directora da PAIS&Filhos para vir aqui depositar a sua história. De modo que é isto. Estou grávida muito grávida. Tão grávida que a cada hora e meia, mais coisa menos coisa, há alguém que pergunta se são dois em vez de um, há alguém que vai mais longe e quer saber se são três ou até quatro, verdadeira ninhada de gata, a cada duas horas há quem pergunte se está quase, mesmo quase. A verdade é que está. A Madalena nasce lá para meios de Junho, resta saber se será gémeos ou caranguejo, se nasce de parto natural ou, como é mais certo, de cesariana, e se os dois irmãos vão ficar tão apaixonados por ela como já se estima que fiquem.
Os irmãos da Madalena, o Manel e o Martim, têm sete e quatro anos, respectivamente. E deixaram de me olhar como mãe, entidade única, para passarem a encarar-me como mãe-e-Madalena, uma espécie de dois em um em que a parte de mãe está claramente em desvantagem perante a fracção Madalena. Por isso, quando chego do trabalho, recebo um «Madalenaaa!» de cumprimento, beijos e abraços na barriga e, assim remetida para segundo plano, chego a ter de mendigar um beijo na cara, única forma de ter a certeza absoluta de que me beijam mesmo a mim, mãe.
Este amor pré-natal não caiu do céu aos trambolhões, como pozinho de perlimpimpim que a cegonha deixasse cair, mas tem antes sido minuciosamente cultivado por nós, pais, com a partilha de tudo e mais alguma coisa, desde os vestidinhos minúsculos às ecografias, sem esquecer os pontapés que os fazem delirar – creio que imaginando que, pela amostra, em vez de Barbies esta mana vai querer mesmo é jogar à bola como eles e como qualquer ser que se preze.
Esta gravidez, sendo a terceira, em nada se assemelha às outras. A primeira foi o espanto, o mistério, o milagre. E a ignorância, colmatada pela ávida leitura de todos os livros com barrigudas na capa.
A segunda gravidez foi o medo: e se eu não o amo tanto como amo o primeiro filho? Como será possível, de resto, igualar um amor assim? Um receio só ultrapassado quando, acabado de sair de mim, o Martim chorou, e eu também, e assim aprendi que o amor pelos filhos não se divide, antes se multiplica de cada vez que se repete.
Esta gravidez, a terceira, é diferente porque com a aprendizagem anterior o amor nasceu cedo e nasceu forte. E por ser uma menina, sexo muito desejado para o terceiro rebento, a descoberta e a invasão do rosa foi uma graça numa casa predominantemente azul, e uma desgraça num orçamento familiar que vivia em relativo sossego com as heranças de um mano para outro mano.
Certo é que os meses passaram muito mais velozes desta vez. Quando dei por ela, estava grávida, muito grávida. Tão grávida que deixei de responder pelo meu nome e passei a ser a «barrigorda», palavra ternurenta que se inventou cá em casa para me designar, e tão usada e abusada que se perdeu a noção de quem foi o seu brilhante autor, se o Martim, se o pai Ricardo.
Seja de quem for a autoria, é bom que esqueçam o vocábulo mal nasça a Madalena, porque só é giro ser «barrigorda» quando se tem gente dentro. Uma coisa é indiscutível: vou ter saudades do mimo todo que esta gente me dispensa. Mesmo que seja, sobretudo, por eu ser um dois em um.

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Filho na Capa 2011

SimpleViewer requires JavaScript and the Flash Player. Get Flash

Editorial

    Consultório

    News image

    «Quando me divorciei (há três anos) o meu filho ficou a meu cargo e o processo foi todo amigável. Agora o pai alega que já pode passar mais tempo com...

    Leia Mais

    Pais&Filhos Fórum