Férias?

Três dias que pareceram três meses e o último foi pior porque me enchi de 40º de febre e pontos brancos na garganta. quando o Ricardo chegou tivemos de passar a tarde num centro de despistagem da Gripe A, para se concluir que tinha uma amigdalite.


«Ómãeee ele bateu-me! Isso foi porque ele me deu um empurrão primeiro! Não dei nada. Deste, deste. Estúpido! Estúpido és tu. Ó mãeee ele chamou-me estúpido! Isso foi porque tu chamaste primeiro!
– Uééééé-uééééé-uééééé-uééééé!
Viram bem o que fizeram? Viram? Acordaram a Madalena! Só fazem asneiras, caramba! Mãe, quero água… Agora não há água. Mas eu quero água, estou a morrer de sede. Até à praia é um instante, não morres até lá. Morro, morro. Vou morrer, ai, ai que eu morro, tenho tanta sede, mamã, dá-me aguinha. Já disse que não tenho água aqui, está lá atrás no porta-bagagens. Mas mamã eu não aguento mais, cof, cof, cof, vês mamã eu vou morrer de sedinha, cof, cof, cof. Já me estás a enervar, Martim, vês aqui alguma torneira no carro? Hã? Vês, vês? Espera que já bebes quando chegarmos. Se me chateias muito volto para trás e não vamos à praia.
– Uéééééé-uéééééé-uéééééé-uéééééé!
E a miúda que não se cala, hein? Manel, estás a abanar a cadeirinha dela? Estou, mas não adianta. Ainda falta muito para chegarmos à praia? Tenho tanta sede. Mãe, pões o CD do Panda? Mãe, logo vamos aos carrosséis? Vá lá, por favor, vá lá, vá lá, vá lá…
– Uééééé-uéééééé-uééééééé-uéééééé!
Vá. Chegámos. Tirem o cinto. Não consigo tirar o meu! Manel, ajuda por favor o teu irmão a tirar o cinto. Não me ajudes! Não quero que o Manel me ajude. Cala-te, Martim, e deixa o Manel ajudar, que a mãe tem de tirar a Madalena da cadeira e metê-la no sling. E ainda tenho de ir tirar as toalhas, as mochilas e o chapéu. Sai daqui, Manel, não me ajudes que eu consigo sozinho! Ó mãe, ele bateu-me e não me deixa tirar-lhe o cinto! Martim, se eu for aí levas mesmo a sério! Está bem, tira-me lá o cinto, Manel….Mãe, dá-me água. Aguinha, tenho tanta sede…
– Uéééééé-uéééééé-uéééééé-uéééééé!»
E assim foram as nossas férias, mais coisa menos coisa (ia a escrever mais grito menos grito mas, na verdade, no que toca a gritos foi sempre mais do que menos). As duas primeiras semanas foram para esquecer e houve vários momentos em que ponderei se voltar ao trabalho não era mais compensador. Quando as coisas começavam a compor-se (ou a gente principiava a acostumar-se), o Ricardo recebeu um telefonema da empresa. Ah, e tal, temos boas e más notícias, as boas é que foste promovido, parabéns, sim senhor, já merecias, as más notícias é que tens mesmo de voltar mais cedo das férias. O meu homem que não, nem pensar, as férias são sagradas e coiso e tal, a minha mulher é bem capaz de atirar com o carro de um penhasco, coitada, com três crianças uma das quais só com um mês e muito grito preso nos pulmões, não façam isso, vá lá, e entre um choradinho de um lado e muita pressão do outro, lá se estipulou que o promovido havia de ir três dias a Lisboa para depois voltar para as férias. Aqui a valente encheu o peito de ar e fez-se toda sorrisos, armada em mulherzinha compreensiva e delicodoces, incentivando o seu homem a ir, claro que sim, então o que se há-de fazer e afinal de contas o que são três dias, hum?, passam num instante, e para além de tudo vai ser bom para nós, a longo prazo e não sei o quê. A verdade verdadeira é que ainda o fulano não tinha aquecido o lugar em Lisboa e já eu rogava pragas à empresa, a quem o tinha mandado ir e a ele próprio, que por muito trabalho que tivesse, não podia ter mais que uma mãe de três, um dos quais rebelde sem causa e a mais pequena empenhada em seguir a carreira de soprano.  Foram três dias que pareceram três meses e o último foi pior porque me enchi de 40º de febre e pontos brancos na garganta, o corpo a doer como se tivesse levado pancada (e não tinha???), de maneira que quando o Ricardo chegou teve de passar a tarde num centro de despistagem da Gripe A, para se concluir rapidamente que não, esta desgraçada tinha uma amigdalite e assim fiquei o resto das férias a antibiótico e antipiréticos sendo que, infelizmente, nenhum teve o efeito secundário de me deixar temporariamente mouca, de modo a não escutar os berros da minha Madalena, muito pouco arrependida de me fazer a cabeça em água. Como diriam alguns: pensam que é só fazê-los? Pois. Não é, não senhor.

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