Rubem Alves

 

Educação do olhar

Escrito por Rubem Alves Sábado, 15 Outubro 2011 | Visto - 10924

Já li  muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica - mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importÂncia do olhar na educação.

1 - Van Gogh tem uma delicada tela que representa esta cena: o pai, jardineiro, interrompeu seu trabalho, está ajoelhado no chão, com os braços estendidos para a criança que chega, conduzida pela mãe. O rosto do pai não pode ser visto. Mas é certo que ele está sorrindo. O rosto-olhar  do pai está dizendo para o filhinho: «Eu quero que você ande». É o desejo de que a criança ande, desejo que assume forma sensível no rosto da mãe ou do pai, que incita a criança à aprendizagem dessa coisa que não pode ser ensinada nem por exemplo e nem por palavras.

2 - Segundo Nietzsche  a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É através dos olhos que as crianças  tomam contacto com a beleza e o fascínio  do mundo. Os olhos têm de ser educados para que a nossa alegria aumente. As crianças não vêem « a fim de». O seu olhar não tem nenhum objectivo prático.  Vêem porque é divertido ver. Alberto Caeiro sabia tudo sobre o olhar das crianças...

3 - Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: «Veja!» - e ao falar, aponta. O aluno olha na direcção apontada e vê o que nunca viu. O seu mundo expande-se. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria - que é a razão pela qual vivemos.

4 - Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica - mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar  de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação, em qualquer um deles.

5 - «O sentido está guardado no rosto com que te miro» é um verso da poeta brasileira  Cecília Meireles.  Não te miro com os meus olhos. Te miro com o meu rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. E o rosto da criança revela à mãe o segredo do seu olhar. O rosto do professor revela ao aluno o segredo do seu olhar.

6 - «O meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir»: dito pela Adélia Prado. Lança? Falo erecto. Mas o lábio zombeteiro a altera.  A lança, humilhada,  se  encolhe, torna-se incapaz do acto do amor. Há uma relação metafórica entre a lança fálica e a inteligência.

7 - Como a lança fálica, a inteligência ou se alonga e se levanta confiante  para o acto de conhecer ou se encolhe, flácida e impotente. O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança ficar erecta ou flácida... O lábio zombeteiro do professor faz a inteligência do aluno refluir.

8 - Eu, menino, tinha grande prazer em ver figuras. Nos tempos da minha infância, livros de figura não se encontravam prontos para serem comprados nas livrarias. Eu mesmo fiz um álbum de figuras. Era um caderno grande no qual fui colando figuras de cachorros. Minha mãe não gostava de cachorros. Nunca pude ter um. Tinha inveja dos meninos que tinham. Fazendo o álbum de cachorros eu realizei, de alguma forma, o meu desejo.

9 - A criança de olhar vazio e distraído: ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Mas uma outra hipótese tem de ser levantada: a inteligência dessa criança foi enfeitiçada pelo olhar de um adulto que a intimidou. Uma criança intimidada e humilhada não aprende.

10 - «Formatura»: «formar» é colocar na forma, fechar. Um ser humano «formado» é um ser humano fechado, terminado. Educar é abrir,  «desformar». Uma festa de «desformatura...»

11 - Escrevo sobre educação porque amo as crianças e os jovens, seres ainda abertos, que enfrentam o perigo de serem «fechados». Joseph Knecht, o herói trágico do livro de Hesse «O jogo das contas de vidro»,  no final da vida desejava apenas educar uma criança ainda não deformada pela escola.

12 - Educação não é a transmissão de uma soma de conhecimentos. Conhecimentos podem ser mortos e inertes: uma carga que se carrega sem saber sua utilidade e sem que ela dê alegria. Educar é ensinar a pensar, isso é, a brincar com os conhecimentos, da mesma forma como se brinca com uma peteca.

13 - Quando o conhecimento é vivo ele se torna parte do nosso corpo: a gente brinca com ele e se sente feliz ao brincar.  A educação acontece quando vemos o mundo como um brinquedo para os sentidos e o pensamento, e brincamos com ele como uma criança brinca com a sua  bola. O educador é um  mostrador de brinquedos...

14 - Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim não morre jamais.

 

Esquecer a gramática

Escrito por Rubem Alves Segunda, 03 Outubro 2011 | Visto - 8746

Gramática se faz com palavras mortas. Literatura se faz com palavras vivas. Para se fazer amor com os livros é preciso se esquecer da gramática e aprender a música das palavras.

   

Sobre cisternas e fontes

Escrito por Rubem Alves Quinta, 29 Setembro 2011 | Visto - 7876

A Educação-fonte não quer colocar água dentro do aluno. Quer é fazer brotar a fonte que mora dentro dele, escondida. Na educação-cisterna o aluno é um buraco vazio sem água.

   

O carrinho

Escrito por Rubem Alves Domingo, 25 Setembro 2011 | Visto - 7729

A riqueza, com frequência, não faz bem ao pensamento. Mas a pobreza faz sonhar e inventar. Carrinho de pobre tem de ser parido. O menino sabia pensar. Pensava bem, concentrado. É sempre assim. Quando o sonho é forte, o pensamento vem. O amor é o pai da inteligência.

   

Meditação de um poeta

Escrito por Rubem Alves Segunda, 30 Agosto 2010 | Visto - 7284

«Quando te vi amei-te já muito  antes.  Tornei a encontrar-te quando te achei.»  Esta é a mais bela declaração de amor que conheço. Ela indica o lugar obscuro onde o amor  brota.
* *  *

Ela estava assentada ligeiramente inclinada para frente, as mãos apoiadas sobre as coxas. Olhou-o com olhos  tranquilos e com voz baixa disse: «Meu nome é  Heloisa». Tinha maçãs salientes e um rosto de menina. Uma beleza singela e despida, sem nenhum adorno, irradiava do seu corpo.
Ao vê-la ele sentiu uma súbita alteração no seu peito, coisa que nunca havia sentido. Percebeu que estava perdido. Ele a amou para sempre desde o momento em que a viu.
* *  *

Faz muito que tento entender essa cena. Embora saiba que a razão lógica não conhece as razões do coração, embora Drummond tenha escrito  um poema com o título «As Sem Razões do Amor», embora o próprio Santo Agostinho não soubesse o que ele amava quando amava, sou fascinado pelo mistério desse súbito encantamento.    Qual é a origem desse sentimento que fisicamente comprime o lado esquerdo do seu peito?

*  *  *
O poeta  fala: «Quando te vi... Eu nunca a havia visto. Não havia antecedentes que tivessem preparado aquele momento. Nada sabia sobre ela. Dela, a única coisa que eu tinha era a sua imagem: eu a vi... Meus olhos pararam sobre o seu rosto e o tocaram imperceptivelmente com  dedos de luz.    Amei-a com os meus olhos.
Eu já havia visto muitas mulheres. Muitas delas mais bonitas. Não a amei por ser  mais bonita que as outras.  Não é a beleza que produz  o encantamento.  Se o amor fosse produzido pela beleza eu teria me apaixonado por muitas mulheres.

Então, o que foi que me enfeitiçou? Não sei. Amei sem saber por que. Faço a mesma pergunta que  Santo Agostinho fez: «O que é que amo quando te amo? O que foi que amei quando a vi?»

*  *  *

«Quando te vi amei-te já muito antes...»  - a  estranha forma sintática do verso  nos leva para a região onde se encontram as fontes da paixão: um outro mundo, um tempo anterior ao agora.
Os poetas têm intuições desse tempo. Talvez porque eles mesmos não saibam explicar os seus poemas cuja origem é tão misteriosa quanto a origem do amor. De onde eles vem?
Fernando Pessoa se perguntava: «Quem sabe, quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, de uma outra espécie de porto?» É possível que a imagem que encanta tenha nascido  no mesmo tempo e no mesmo lugar onde nascem  os poemas...
«Nasci para ti antes de haver o mundo. Não há cousa feliz ou hora alegre que eu tenha tido pela vida fora, que não fosse porque te previa... «Tornei a achar-te quando de encontrei...»
«Antes de nascer tu eras minha. Quando nasci, perdi-te. E agora, você à minha frente, sua imagem me levou para esse passado misterioso onde éramos um do outro num amor imperturbável.»
As razões do encantamento se encontram nesse tempo anterior. Era lá que ela vivia  adormecida  Eu não a via. Estava invisível nas brumas. Mas ouvi a sua respiração.  Antes que eu a houvesse visto naquele momento encantado  presente eu já a desde um passado imemorial.
A experiência do amor – quem sabe a palavra mais certa seria paixão  - existe dentro dessa bolha encantada, fechada sobre si mesma,  que subitamente nos extrai do presente. É uma emoção em estado bruto, irresistível  que se apossa da alma,  a domina e se basta. «O nosso amor vai ser assim, eu pra você, você pra mim.» Quem escreveu esses versos sabia que a bolha da paixão é feita por dois olhares  que se contemplam encantados e se fecham sobre si mesmos.

   

A árvore que floresce no Inverno

Escrito por Rubem Alves Quarta, 14 Julho 2010 | Visto - 10863

Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. Não queriam partir... É, estava chegando o inverno. Deveria nevar. Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo... Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava. Qualquer queixa seria inútil. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo. Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.

Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto... E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer. Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas pela alegria que contêm... E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir, porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão – pela pura alegria, um gozo de amor. E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Albert Camus: “No meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível”.

Agradeci àquele arbusto silencioso o seu gesto poético. Ah, sim! Quando os pássaros fugiam amedrontados, eles levavam no seu vôo as marcas do inverno que se aproximava. Quando as árvores pintavam suas folhas de amarelo e vermelho, como se fossem ipês ou flamboyants, era o seu último grito, um protesto contra o adeus, aquilo que de mais bonito tinham escondido lá dentro, para que todos chorassem quando elas lhes fossem arrancadas. Sim, eles sabiam o que os aguardava. E os seus gestos tinham aquele ar de tristeza inútil ante o inevitável. Mas aquele arbusto teimoso vivia em um outro mundo, num outro tempo. E, a despeito do inverno, ele saudava uma primavera que haveria de chegar e que naquele momento só existia como um desejo louco. As outras plantas, eu as encontrei como nós, realistas e precavidas, inteligentes e cuidadosas. Já o arbusto tinha aquele ar de criança sonhadora, uma pitada de loucura em cada botão, um poema em cada flor. As outras, se fossem gente, construiriam casas que as protegessem do frio. Já o meu arbusto faria liturgias que anunciam o retorno da vida. Porque liturgia é isto: florescer pela manhã mesmo se for nevar pela tarde.

E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei da canção do profeta Habacuque: «Muito embora não haja flores na figueira, nem frutos se vejam nos ramos da videira; nada se encontre nos galhos da oliveira e nos campos não exista o que comer; no aprisco não se vejam ovelhas e nos currais não haja gado: todavia eu me alegro».

Nos brotos do arbusto, as palavras do profeta: um gesto a despeito de tudo. Lembrei-me, então, de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas. E ali, neve por todas as partes, elas os faziam florescer, regando-os com água aquecida. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continuava escondida em alguma parte.

As primeiras liturgias cantaram este poema dizendo: “(...) nasceu da Virgem Maria”. Virgindade: caminho bloqueado, sementes inúteis, jardins interditados, nascimentos proibidos, vida impossível.

Um botão que floresce no inverno? Inverno é o frio, a neve, o silêncio, o torpor, a morte.

Herodes: cascos de cavalos, espadas de aço e queixos de ferro; a razão diz que a mansidão não pode triunfar contra a brutalidade.

No entanto, em algum lugar, um arbusto floresce no inverno e uma Virgem fica grávida. E quem a engravidou? O Vento, esperança, nostalgia. E o Vento se fez Evento. O afeto se fez feto...

 Quando as plantas florescem na primavera, ali os homens escrevem os seus nomes. Mas quando as plantas florescem no inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério...

   

Os três Reis

Escrito por Rubem Alves Terça, 16 Março 2010 | Visto - 9027

A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.

Eram  três reis, cada um vindo de um reino diferente, um nada sabendo sobre os outros, numa viagem absurda com que jamais haviam sonhado, caminhando na direcção de uma estrela que só eles viam. Era certo que eles estavam loucos...
Gaspar  navegara do norte em seu navio, velas enfunadas por uma brisa fresca e constante e agora, pés na terra, caminhava... Balt-hazar viera do sul em seu cavalo, por caminhos que cortavam matas verdejantes. Mélek-hor viera do oeste, em seu camelo, atravessando desertos com areias escaldantes.
Viajaram por muito tempo. E depois de muito viajar chegaram a uma encruzilhada. Nela  se cruzavam os quatro caminhos do mundo: o caminho do norte, o caminho do sul, o caminho do oeste e um quarto caminho... Olhando na direcção do quarto caminho podia-se ver, no horizonte, uma estrela brilhante...
Havia ali, no meio da encruzilhada, uma estalagem chamada «Os quatro caminhos do mundo». Foi nela que os três reis se encontraram. À noite sentaram-se à volta de uma mesa para comer: pão, queijo, frutas secas, vinho. E começaram a contar suas estórias. À medida que cada um deles falava os outros se enchiam de espanto.
Que absurda coincidência! Como era isso possível? Que sendo três desconhecidos, vindos de três cantos do mundo, as suas estórias fossem a mesma estória! Todos haviam sofrido a mesma nostalgia. Todos haviam visto a estrela que ninguém mais vira. Todos haviam ouvido uma estranha melodia que os chamava... Descobriram, então, que eram companheiros. E resolveram que dali para frente viajariam juntos.
E assim foi. Por vários dias caminharam... Aconteceu então que, noite já escura,  chegaram a um minúsculo vilarejo. «Que vilarejo será esse?», perguntaram. Gravado numa pedra estava o seu nome: «Beth-léhem». «Estranho», disse o erudito Gaspar: «Aprendi tudo o que há para ser aprendido sobre reinos, províncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em qualquer um dos livros que li».
Mélek-hor acendeu sua lâmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o chão. «Aqui está ela», ele disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. «Beth-léhem. Fica precisamente na divisa entre dois grandes reinos. À esquerda está o Reino da Fantasia. À direita está o Reino da Realidade.»
«Já li sobre esses dois reinos nos livros sagrados», disse Balt-hazar. São reinos perigosos. Aqueles que vivem no Reino da Fantasia ficam loucos.  E aqueles que vivem no Reino da Realidade ficam loucos também, loucos de outra espécie: eles perdem a capacidade de sentir a beleza... Somente se salvam da loucura aqueles que vivem na fronteira entre os dois reinos. Esses ficam sábios e se tornam artistas. Pois Beth-léhem está precisamente na divisa entre o Reino da Fantasia e o Reino da Realidade...»
No vilarejo todos dormiam. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnólia. E havia um brilho no ar – milhares, milhões de vaga-lumes pousados nas árvores. Ovelhas baliam ao longe, enquanto o seu pastor tocava uma flauta... Era uma noite de paz.
A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.
Perceberam, então, que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem puderam ver  nela reflectido como num espelho, o rosto da criancinha.
Aí entenderam. Deixaram de ser reis e se transformaram em sábios. Compreenderam o grande segredo:  «O universo é um berço onde uma criança dorme!»
Notaram, então, que uma coisa estranha acontecia quando olhavam para o nenezinho: eles perdiam a sua compostura real e eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava numa criatura alada...
Os reis, meio aos risos e em vôos, olharam cada um para o outro e disseram: «Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...»
Acto contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – pesadas coisas de adulto – e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
«Vou mudar de vida», disse Gaspar. «É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo, como fiz até agora. Vou me transformar em poeta...»
«Eu também vou mudar de vida», disse Balt-hazar. «Rezar o tempo todo, como tenho feito, é muito cansativo. Vou ser palhaço. O riso é também é  oração…»
Ao que Mélek-hor acrescentou: «E eu descobri o prazer supremo de brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta ao Paraíso.»
E assim partiram, cada um por um caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis.

   

A árvore que floresce no Inverno

Escrito por Rubem Alves Terça, 16 Março 2010 | Visto - 11463

E ele me falou que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele.


Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. Não queriam partir... É, estava chegando o inverno. Deveria nevar. Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo... Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava. Qualquer queixa seria inútil. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo. Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto... E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer. Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas pela alegria que contêm... E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir, porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão – pela pura alegria, um gozo de amor. E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Albert Camus: “No meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível”.
Agradeci àquele arbusto silencioso o seu gesto poético. Ah, sim! Quando os pássaros fugiam amedrontados, eles levavam no seu vôo as marcas do inverno que se aproximava. Quando as árvores pintavam suas folhas de amarelo e vermelho, como se fossem ipês ou flamboyants, era o seu último grito, um protesto contra o adeus, aquilo que de mais bonito tinham escondido lá dentro, para que todos chorassem quando elas lhes fossem arrancadas. Sim, eles sabiam o que os aguardava. E os seus gestos tinham aquele ar de tristeza inútil ante o inevitável. Mas aquele arbusto teimoso vivia em um outro mundo, num outro tempo. E, a despeito do inverno, ele saudava uma primavera que haveria de chegar e que naquele momento só existia como um desejo louco. As outras plantas, eu as encontrei como nós, realistas e precavidas, inteligentes e cuidadosas. Já o arbusto tinha aquele ar de criança sonhadora, uma pitada de loucura em cada botão, um poema em cada flor. As outras, se fossem gente, construiriam casas que as protegessem do frio. Já o meu arbusto faria liturgias que anunciam o retorno da vida. Porque liturgia é isto: florescer pela manhã mesmo se for nevar pela tarde.
E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei da canção do profeta Habacuque:

Muito embora não haja flores na figueira, nem frutos se vejam    nos ramos da videira; nada se encontre nos galhos da oliveira
e nos campos não exista o que comer; no aprisco não se vejam ovelhas e nos currais não haja gado: todavia eu me alegro.

Nos brotos do arbusto, as palavras do profeta: um gesto a despeito de tudo.
Lembrei-me, então, de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas. E ali, neve por todas as partes, elas os faziam florescer, regando-os com água aquecida. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continuava escondida em alguma parte.
As primeiras liturgias cantaram este poema dizendo: “(...) nasceu da Virgem Maria”. Virgindade: caminho bloqueado, sementes inúteis, jardins interditados, nascimentos proibidos, vida impossível.
Um botão que floresce no inverno?
Inverno é o frio, a neve, o silêncio, o torpor, a morte.
Herodes: cascos de cavalos, espadas de aço e queixos de ferro; a razão diz que a mansidão não pode triunfar contra a brutalidade.
No entanto, em algum lugar, um arbusto floresce no inverno e uma Virgem fica grávida. E quem a engravidou? O Vento, esperança, nostalgia. E o Vento se fez Evento. O afeto se fez feto...
Quando as plantas florescem na primavera, ali os homens escrevem os seus nomes. Mas quando as plantas florescem no inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério.

   

Editorial.

editorial-319

alt

Vamos para a rua!

O recado ficou na porta do quarto: “Não me acordem. Deitei-me tarde e gosto de dormir de...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais