Mário Cordeiro

 

Lavar as Mãos

Escrito por Mário Cordeiro Segunda, 09 Janeiro 2012 | Visto - 170

Talvez seja a maior medida na prevenção das infeções. Mas para ser efetiva, uma correta lavagem das mãos deve ser ensinada com tempo e calma.


A lavagem das mãos por rotina, como gesto de prevenção das infecções, foi iniciada por um professor de medicina austríaco, Ignaz Semmelweis, em 1847. Este cientista observou que os estudantes de medicina não lavavam as mãos entre as aulas de anatomia, onde dissecavam cadáveres, e as aulas na maternidade, onde executavam exames vaginais e partos. A taxa de mortalidade na enfermaria onde os estudantes treinavam era consideravelmente mais alta do que noutra onde trabalhavam parteiras que não iam à sala de autópsias. Com a instituição da obrigatoriedade de lavagem de mãos antes de os estudantes observarem as puérperas, a taxa de mortalidade foi reduzida em aproximadamente 90 por cento. O exemplo do procedimento de Semmelweiss é fundamental e constituiu o primeiro marco no controlo das infecções, não apenas nos cuidados de saúde hospitalares, mas também na saúde pública em geral.

A lavagem de mãos é reconhecida na comunidade, escolas, jardins-de-infância e estabelecimentos alimentares como um dos mais eficientes métodos de prevenção de doenças. Entre elas destacam-se a diarreia infecciosa e outras perturbações gastrointestinais, hepatite A, infecções respiratórias, como a constipação, a gripe e a pneumonia, assim como conjuntivite e a meningite meningocócica.


AS MÃOS E AS BACTÉRIAS

Nas mãos há bactérias «residentes», que existem nas camadas profundas da pele e no interior dos folículos pilosos, e que têm funções importantes na prevenção da colonização com outras bactérias que podem causar danos. Estas bactérias residentes raramente causam doenças, a não ser que sejam introduzidas traumaticamente nos tecidos, ultrapassando as barreiras naturais. Não são removidas com a lavagem simples das mãos, sendo necessário recorrer à ação química de um antisséptico.

Os micróbios transitórios são adquiridos através do contacto da criança com o ambiente. Têm um tempo de sobrevivência curto mas um elevado potencial para causar doença, sendo facilmente transmitidos por contacto físico. Podem ser rapidamente removidos por lavagem das mãos com fricção mecânica e sabão ou ser destruídos por aplicação de um antisséptico. Portanto, a lavagem das mãos com água e sabão remove a flora transitória, mas não mata a flora residente, que é o que se deseja no dia-a-dia e em nossas casas e infantários. Uma lavagem das mãos bem-feita, e nos momentos em que deve ser, poderá impedir três dos principais modos de transmissão de doenças: fecal-oral, contato indireto com secreções respiratórias e contacto direto com fluidos corporais. Nestes tipos de transmissão englobam-se praticamente todas as doenças que os nossos filhos têm no dia-a-dia.


COMO LAVAR ADEQUADAMENTE AS MÃOS

Nem sempre é possível seguir todos os passos que abaixo indico. No entanto, há que fazer esforços para que a lavagem das mãos seja tendencialmente bem-feita. Estas são normas internacionais e uma coisa é certa: quanto mais nos aproximarmos deste padrão e o introduzirmos na prática dos nossos filhos, menos infeções eles terão.


Uma lavagem correta das mãos deve cumprir os seguintes passos:


1. verificar se existe papel de secagem das mãos;

2. colocar a água a uma temperatura confortável (≥ 15ºC e ≤ 45ºC);

3. molhar as mãos com água e aplicar sabão; 4. esfregar as mãos vigorosamente até aparecer espuma e continuar durante pelo menos 10 segundos. Esfregar as mãos entre os dedos, leitos das unhas, debaixo das unhas e na palma das mãos;

5. passar as mãos pela água corrente quente a uma temperatura confortável (mais de 15ºC e menor 45ºC), até estarem livres de sabão e sujidade. Deixar a água correr enquanto se vai secar as mãos;

6. secar as mãos com papel disponível ou toalha de uso único limpa;

7. se a torneira não fecha automaticamente ou se não tem mecanismo de fechar com o braço, fechar envolvendo as mãos com o papel ou toalha;

8. colocar o papel no contentor do lixo ou a toalha no cesto da roupa. Usar loção de mãos hidratante, se necessário, para prevenir a formação de fissuras na pele.


Cada um destes passos é importante. A água corrente remove os detritos, incluindo os microorganismos que causam as infecções. Molhar as mãos antes de colocar sabão ajuda a criar uma espuma que destaca mais facilmente os detritos. Passar a espuma por água remove a sujidade das mãos que estava em solução. Usar água à temperatura referida, apesar de não ser essencial à remoção de microrganismos torna a lavagem mais fácil, pois é mais confortável do que água fria.


Os sabões mais suaves provocam menos secura mas também lavam pior. Digamos que, na maioria das situações, não será necessário um sabão mais forte. Contudo, quando a criança mexe em excrementos de animais, em terra ou em qualquer produto que possa estar infectado, a lavagem terá que ser feita com um sabonete mais agressivo, mesmo que a pele fi que mais seca – utilizar-se-á depois um creme hidratante, para compensar.


Nos infantários e jardins infantis (e até em casa) é desejável o uso de sabão líquido pois embora o sabão sólido, por si, não esteja implicado na transmissão de bactérias, ao ficar emerso em água – seja na saboneteira, seja no lavatório – pode ficar contaminado com pseudomonas e outras bactérias, para além de muitas crianças não terem destreza para o manusear.



SECAR AS MÃOS


É fundamental secar bem as mãos, por várias razões:

● ajuda a prevenir as fissuras das pele;

● reduz a contaminação das mãos (as mãos molhadas contaminam-se mais facilmente);

● remove algumas bactérias e vírus.

Vários estudos foram efectuados para verificar os graus de eficiência de diferentes agentes de secagem na redução de batérias e vírus. Por ordem decrescente de eficiência situam-se: secador eléctrico, rolo de papel e por último o rolo de toalha. Os secadores

elétricos das mãos não devem ser usados pelas seguintes razões: muitas pessoas não secam as mãos adequadamente, acabando de secar na roupa, onde apanham mais bactérias; os próprios secadores podem acumular bactérias e servir para as depositar nas mãos.



QUANDO SE DEVE LAVAR AS MÃOS

1. antes de preparar uma refeição ou de comer;

2. após ida à casa de banho;

3. após mudar as fraldas ou limpar uma criança que foi à casa

de banho;

4. depois e antes de estabelecer contacto directo com uma pessoa que esteja doente;

5. depois de assoar, tossir ou espirrar;

6. depois de mexer num animal ou detrito animal;

7. depois de mexer no lixo;

8. depois e antes de tratar de um corte ou ferida;

9. após a chegada ao trabalho/escola ou quando se muda de um grupo de pessoas para outro;

10. depois e antes de dar medicação e brincar na água usada por mais de uma pessoa;

11. depois de brincar em caixas de areia. É muito importante também lavar as mãos depois de comer, especialmente as crianças que comem com as mãos, de modo a diminuir a quantidade de saliva nas mãos, a qual pode conter microorganismos.


EXCEPÇÃO

Os toalhetes de limpeza não limpam eficientemente as mãos, não devendo pois ser usados como alternativa à lavagem, mas apenas quando forem mesmo necessários e de modo temporário.


COMO ENSINAR A LAVAR AS MÃOS E INCUTIR O HÁBITO?

A lavagem das mãos é um comportamento aprendido. Para ser efetiva, uma correta lavagem das mãos deve ser ensinada, com tempo e calma, tal como a escovagem dos dentes ou qualquer outro comportamento que necessite de aprendizagem de regras, passos, rigor e exercitação. É bom que, paralelamente a uma aprendizagem das regras de lavagem, por forma a que sejam instintivas, se faça também ver às crianças que não se trata de um «frete» a fazer aos pais, ou um bilhete para poder ir para a mesa, mas sim uma rotina diária que deverá manter ao longo da vida. É bom que os pais expliquem que há pele, unhas, bactérias que se escondem, bactérias «boazinhas» que sofrem se as «más» puderem crescer, e tantas outras brincadeiras do «Senhor Sabão» e da «Dona Água». As noções de «quando», «como» e «porquê» da lavagem das mãos devem ser ensinados desde cedo e fazer parte de uma educação continuada e responsável. O exemplo dos pais é muito importante, e pais que não lavam as mãos ou que as lavam a correr não conseguirão incutir esse hábito nas crianças. Os padrões de comportamento de lavagem de mãos começam a ser interiorizados com a educação para a utilização da sanita e consolidam-se por volta dos 9-10 anos. O comportamento ritualizado de  reação à  sensação de repugnância gerada pela sujidade das mãos é interpretado como um mecanismo de autodefesa contra a infecção. É, contudo, subjetivo e insuficiente para a manutenção de níveis óptimos de proteção contra os agentes microbianos. Desta forma, o comportamento de higiene das mãos revela-se em dois tipos: o inerente (em reação à sensação de sujidade) e o eletivo (não associado à sensação de sujidade). Este último, que pode ser exemplificado com a lavagem das mãos após o contacto com uma pessoa doente, encontra-se menos enraizado na população. Inicialmente, a aprendizagem deve ser feita pelos pais ou encarregados de educação. Numa fase posterior intervêm também os infantários e jardins infantis, os professores e os colegas.



CRIANÇAS CONHECEM A TEORIA, MAS NÃO A PRATICAM

Um estudo de observação realizado numa escola de Lisboa, em 2007, revelou que cerca de 84 por cento dos alunos (do 5º, 6º e 7º ano) não lavaram as mãos antes do almoço e que depois de utilizarem os sanitários apenas 34 por cento as lavaram. Isto apesar de a escola em questão ter todas as condições para uma lavagem de mãos correta.

Curiosamente, verificou-se uma discordância entre a prática e o que os alunos, num questionário, responderam – os comportamentos fi cavam muito aquém da teoria. O estudo também registou uma identificação de melhores práticas para si próprio do que para os outros colegas. Este estudo mostrou que não bastam os conhecimentos teóricos corretos, sendo preciso uma interiorização dos hábitos através da prática diária – e isso tem que ser feito muito antes da idade escolar, em casa e nos infantários.


Fonte: Almeida M, Certal V, Klut C, Mota C, Picoto

M e Cordeiro M, 2007

Departamento de Saúde Pública – Faculdade de

Ciências Médicas de Lisboa

Lavar as Mãos



 

Vamos ter um bebé?

Escrito por Mário Cordeiro Quinta, 01 Dezembro 2011 | Visto - 1945

«Francamente, não percebo que raio de ideia lhes deu para terem outro filho! Imagina que o João e a Francisca resolveram ter mais um. Devem ser loucos. Já? Mas não acham que ano e meio de intervalo é pouco? Eu, se fosse a vocês...»  Eu se fosse a vocês...

   

Pilinhas e Pipis

Escrito por Mário Cordeiro Terça, 25 Outubro 2011 | Visto - 749

Mais do que os pais, as mães preocupam-se muito com os tamanhos, os estreitamentos, as infecções das pilinhas. Já as alterações anatómicas ou pequenas malformações do pipi geram menos questões. Todavia, a observação deverá fazer parte dos cuidados normais de saúde.



   

Irmãos: mesmo quarto ou quartos diferentes

Escrito por Mário Cordeiro Quinta, 15 Setembro 2011 | Visto - 3331

Mesmo sendo «cão e gato», o que é normal e saudável, a noite é um bom momento para sentirem a proximidade um do outro.
«O que é que acha?» – perguntou o pai do Rui e do Vasco, de 4 e 2 anos respectivamente – «vamos mudar de casa e agora temos um quarto para cada um. Estamos em dúvida se devemos pôr cada um no seu quarto ou deixá-los no mesmo».
«A minha opinião» – respondi – é que é muito saudável os irmãos estarem juntos, mesmo se não fossem do mesmo sexo, até mais tarde, quando eles próprios, de uma maneira já consistente, disserem que não querem. Estarem juntos aumenta a proximidade, a companhia e a cumplicidade da relação fraternal.»
«O pequenino às vezes ainda acorda» – disse a mãe.
«Vai ver que o Rui nem dá por isso. E provavelmente, isso vai acontecer menos».
«Acho que vamos fazer isso. E assim ganham um quarto de brincadeiras em vez de terem dois quartos de dormir e fazerem bagunça em dois lados» – rematou a mãe.


Regras não há...
Não há regras nem soluções à partida garantidas. Mas, pelo menos até ver, é melhor optar por ter as crianças no mesmo quarto. A relação fraternal tem diversas facetas e uma delas é a cumplicidade e a securização. Basta ver o ar desasado de um deles quando o outro vai passar o fim de semana com alguém. Mesmo sendo «cão e gato», o que é normal e saudável, a noite é um bom momento para sentirem a proximidade um do outro.
A menos que a diferença de idade seja muito grande (mais de dez anos), é bom estarem juntos até ao dia em que um deles, de forma consistente e não meramente episódica, declare que quer ter o seu quarto.
É claro que os pais, depois de os deitarem, terão que estar preparados para risos e gargalhadas que virão do quarto das crianças. É muito bom e talvez das coisas mais engraçadas, se bem que o nosso papel tenha que ser de lhe enviar um «Schiiiiiiiiu!» ou um «Durmam!». E eles continuam, mas acabam por adormecer em tranquilidade. Outras vezes podem respingar: «O Zé está na minha cama!». Mais uma vez, a intervenção dos pais impõe-se, mas sempre comedida e mais como uma «sirene de aviso».
Ganhar um quarto de brincadeiras é bom também porque permitirá organizar o espaço conforme a idade e a actividade (trabalho manual, brincadeira livre, casinhas, etc), poupando também a sala e o espaço dos pais às invasões de brinquedos e de barulho.

O quarto das crianças
O desafio principal para um quarto de crianças é criar um ambiente divertido durante o dia e favorecedor de um sono profundo e reparador durante a noite. Tenha em consideração os seguintes aspectos:
Localização: Devem receber a luz de nascente, de forma a absorver a energia ascendente do sol. Oeste (poente), é uma boa orientação para crianças muito activas;
Iluminação: As luzes devem ser focos virados para cima, com uma iluminação global e bem distribuída. Devem-se evitar candeeiros em metal, que conduzem de forma acentuada a energia electromagnética e a electricidade estática. A luz tem de ser suficiente para a criança ver os brinquedos, nomeadamente quando está a brincar no chão, mas que permita redução à hora do deitar. Uma luz de presença pode ser uma boa companhia, mais pela referência que representa do que pela iluminação que produz;
Soalho: Evitar alcatifas, dada a acumulação de pó e de ácaros, bolores, etc. O soalho em madeira é o mais saudável e o mais fácil de limpar. 
Cor das paredes: Os tons de azul (não demasiado escuros) são particularmente bons.
Mobília: Se possível devem ter cores vivas e os cantos arredondados, para diminuir o risco de acidente. Ambos ajudam a criar uma atmosfera harmoniosa;
Camas: Se houver mais do que uma criança no mesmo quarto, é importante que durmam com a cabeça virada para o mesmo lado – de preferência norte; a cabeceira deve estar encostada a uma parede e as camas devem ser em madeira. Não se devem deixar as camas por fazer durante o dia e, se possível, evitar arrumar coisas debaixo da cama porque só serve para acumular tralha, pó e sujidade;
Tecidos: Não utilizar lençóis ou fronhas de almofada em material sintético, apenas de algodão. Os cobertores devem também ser de materiais naturais. O colchão, se em algodão maciço, permite que o sono seja mais reparador e que a transpiração se dê uma forma adequada. 
Guarda-brinquedos: Colocar caixas (de madeira), de forma a que a criança aí guarde todos os brinquedos antes de dormir, de forma organizada.

A evitar
Tendo em conta toda a actividade electromagnética geodésica e as perturbações que a acção humana pode induzir, não será mau tomar precauções:
• Material eléctrico e electrónico - é essencial que a criança não durma perto duma aparelhagem; as colunas de som contêm um íman que altera e o campo electromagnético; se houver um computador, televisão ou aparelhagem o melhor é desligá-los na tomada;
• Cabeceiras - não se deve colocar a cabeceira da cama debaixo de uma janela, pois cria energia muito activa;
• Portas abertas - durante a noite, o ideal é fechar a porta do quarto, assim como as cortinas, acalmando o fluxo de energia e favorecendo um sono profundo, a menos que a criança reclame por sentir medo. .

O que fazer quando a criança acorda com um «sonho mau»?

Ao contrário de um terror nocturno, a criança acorda mesmo e está assustada. E muitas vezes até se consegue lembrar do sonho – se era uma cobra ou outro bicho que a perseguia, se imaginou que os pais tinham desaparecido.
É importante a presença dos pais para testemunhar que «tudo não passou de um pesadelo». E isso tem que ser dito mas, sobretudo, mostrado afectivamente, com abraços e colinho. Só assim, através do mimo, a criança consegue libertar-se do medo e perceber que, afinal, está em sua casa. A voz tranquila da mãe ou do pai ajudam muito, mas para isso não podem estar a pensar neles, na noite interrompida, no trabalho do dia seguinte ou que já não vão dormir essa noite. Para quem acorda com medo e se acha no meio de um filme de terror, ouvir vozes alteradas, culpabilizadoras e irritadas não ajuda muito.
Se nós, adultos, quando acordamos a meio da noite com um pesadelo, demoramos algum tempo a nos situarmos, e mesmo assim com o coração «aos pulos», que dizer então de uma criança pequena?
Às vezes é preciso fazer uma vistoria ao quarto, para ajudar o nosso filho a entender que não está lá nenhum monstro escondido debaixo da cama ou dentro das armários.
E finalmente, dizer-lhe taxativamente: tiveste um sonho mau, mas foi só um sonho. Agora vamos lá voltar a dormir e sonhar com coisas bonitas. Diz-me uma coisa bonita e vamos começar». E pegando em algo que a criança diga – e servindo-se também do objecto transicional e de heróis da sua vida (Noddy, Ruca, Bob e outros), começar a mostrar, através de uma história, que eles estão ali e que tudo a partir desse momento até vai ser bem divertido.
Tudo foi como um engano na projecção do filme: colocaram a bobina de um filme de terror, mas agora já mudaram para um filme romântico ou uma comédia.

   

As linhas de alta tensão e a saúde das crianças

Escrito por Mário Cordeiro Terça, 16 Março 2010 | Visto - 2078

Há alguns dias, uns pais pediram-me a opinião sobre a compra de uma casa, com excelentes condições, mas que estava debaixo de uma linha de alta tensão. Estavam em dúvida – gostavam da casa mas a linha gerava inquietação. Não existem certezas, mas há que pensar um pouco no problema. Aproveito para partilhar convosco algumas destas reflexões.

Desde há muito tempo que as linhas de alta tensão são objecto de preocupação em termos do seu impacto para a saúde das pessoas que passam um razoável tempo nas suas proximidades.
Aliás, o primeiro grande debate sobre o assunto teve lugar nos EUA, precisamente num mediático processo judicial relacionando a maior incidência de leucemia em crianças com as linhas de alta voltagem ou alta tensão.
Desde então centenas de estudos têm sido feitos, mas talvez devido à  dificuldade em estabelecer uma nítida e definitiva relação causa-efeito, os resultados são por vezes contraditórios. Ainda recentemente, o New England Medical Journal, uma das mais conceituadas revistas médicas do mundo, publicava um estudo em que se negavam efeitos negativos para a saúde, enquanto outra das grandes revistas médicas, o British Medical Journal, revelava um em que se afirmava o contrário.

O QUE SÃO
As linhas de alta tensão servem para conduzir a electricidade de um ponto ao outro, na rede de consumo eléctrico que começa nos pontos onde é gerada e termina, por exemplo, no computador onde estou a escrever este texto e no candeeiro que me ilumina o teclado... ou na voz de Katie Melua que sai do leitor de CDs.
Talvez por isso – por sermos ávidos consumidores de electricidade, no nosso trabalho, conforto e lazer -, não podemos simplificar o assunto e dizer que «temos de acabar com as linhas de alta tensão». As linhas de alta tensão, que vemos por exemplo ao logo da estrada, com aqueles dispositivos altos e elegantes, são a melhor forma de transmitir a electricidade. Nas cidades e vilas a transmissão eléctrica é feita debaixo do solo, porque é mais rentável e mais fácil.

A SAÚDE…OU A DOENÇA
Há ou não risco de se viver, ou estar muito tempo, perto dos circuitos de linhas de alta tensão? Como referi, a Ciência ainda não conseguiu dar uma resposta definitiva, o que não quer dizer que o risco não possa existir.
O maior factor de risco é representado pelos campos electromagnéticos gerados pelas linhas, os quais não podem ser blindados, ao contrário dos  meramente eléctricos.
Cientistas de vários sectores têm chamado a atenção para o perigo que estes campos podem criar – sobretudo nas cidades, em que estão no subsolo -, para a «estabilidade» do ser humano – não apenas no aparecimento de cancros, abortos espontâneos (há quem fale num aumento de 5% do total de grávidas), malformações congénitas e outras doenças, mas também no sono, humor, resistência ao cansaço e noutras valências que perturbam a qualidade de vida sem serem propriamente ‘doenças’.
Numa criança, o efeito pode traduzir-se por tristeza, perturbações do sono (certos estudos referem baixa da produção de melatonina, a hormona do sono), insucesso na aprendizagem, entre outras. Alguns estudos referem uma maior taxa de depressão, outros falam de irritabilidade e agressividade. Mas sendo situações que têm a ver com factores pessoais e ambientais, tantos e tão vastos, é sempre difícil, se não mesmo impossível, relacionar directamente as duas coisas em termos de causa-efeito. .

 

   

Filho na Capa 2011

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