Movimentos legais e movimentos tristes (lições de dança)

Começou a segunda lição de dança da senhora Ba.

Acredito – disse a senhora Ba – que há danças para a alegria e há danças para a tristeza, e eu não percebo por que razão as pessoas só dançam na alegria.

Acredito que se deviam ensinar nas escolas danças para dançar nos momentos tristes.


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E a senhora Ba disse ainda:

Uma coisa boa deve servir-nos tanto para a alegria como para a tristeza, e a dança é uma coisa boa.

Pegaram na dança de um só lado como se pega num objeto – disse a senhora Ba. Por exemplo: um copo só funciona se o pegarmos com a parte aberta e oca para cima, no entanto a dança não é um copo: podes pegar a dança de uma maneira ou da maneira oposta, e ela funciona sempre. A dança é uma máquina que funciona para os dois lados. É como uma folha branca.

Vejam, por exemplo, esta folha branca (e a senhora Ba mostra uma folha branca). Eu posso escrever deste lado ou deste outro lado (e a senhora Ba vai rodando a folha para um lado e para outro). A dança é exatamente a mesma coisa, mas nós só aprendemos a escrever de um lado. Só aprendemos a dançar quando estamos alegres.

Na minha opinião – disse a senhora Ba tentando animar-se – isto é um grande desperdício de material.

Aqui vai um bocadinho de tristeza, só um bocadinho.

(e a senhora Ba dança)

Muito obrigado – diz a senhora Ba – muitíssimo obrigado pela atenção.

– O meu corpo – continuou a Senhora Ba – tem músculos destinados à tristeza e músculos destinados à alegria. Se eu só danço para um único lado, há músculos meus que se atrofiam, ficam magros e fracos, até que desaparecem, evaporam-se do meu organismo. E eu, por mim, não quero que nenhum músculo se evapore do meu corpo. Gosto deles todos. São como filhos. São máquinas produtoras de movimentos.

– Os meus músculos são uma mistura bem grande de produtos químicos e biológicos: como o magnésio, o cobalto, o ácido ribonucleico, o oxigénio por todo o lado (estou a brincar) e ainda outras coisas mais que andam por dentro do corpo e que, por não lhes conhecermos ainda a fórmula química exata, lhes chamamos  – a essas coisas estranhas, no seu conjunto – alma.

– Porque a alma, no fundo, é a parte do corpo a que os químicos ainda não atribuíram um número perfeito de eletrões, protões e outras miniaturas. Esta, pelo menos, é a minha opinião.

– Eu não vos quero dar uma aula sobre o corpo, nem vos quero aborrecer com os 13 642 nomes de pedaços da anatomia que um dançarino tem. O que me aborrece é perceber que uma pessoa idiota tem exatamente os mesmos 13 mil 642 nomes a que correspondem 13 mil 642 bocados de anatomia. E eu considero, desde já, uma grande injustiça para os dançarinos e para as pessoas de bem e para o universo em geral, uma grande injustiça, os idiotas terem o mesmo número de ossos, músculos, tendões, e circunvalações, que as pessoas sensatas.

A senhora Ba depois de uma pequena pausa disse: eu estou a brincar. E depois disse: será possível dançarmos leis?

– Vou agora fazer uma dança dedicada à legislação específica de um certo país. É como se fosse a dança da lei nº 5342. Alínea a). Não é fácil transformar uma lei numa dança, mas vou tentar.

(A senhora Ba dança.)

Mas de repente interrompe:

– Desculpem, enganei-me. Estava a dançar a dança referente à lei nº 5122 e não à lei nº 5342. Baralhei os números. Peço desculpa. Vou concentrar-me um pouco, a ver se agora acerto na lei. Esperem um bocadinho.

Aqui vai.

(A senhora Ba dança agora a dança correta referente à lei nº 5342.

A senhora Ba para e agradece.)

Claro que isto da dança não é matemática e não sei se dancei a alínea a) da lei, se dancei a alínea b). Mas era mais ou menos isto.

– Se as leis se pudessem compreender através da dança, tudo seria mais belo e mais claro – disse a senhora Ba. – Mas não, mas não.

De qualquer forma muito obrigado – disse a senhora Ba – muitíssimo obrigado pela vossa atenção.


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