A dificuldade de oferecer movimentos
Escrito por Gonçalo M. Tavares Sexta, 27 Abril 2012 | Visto - 482
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A senhora Ba tinha uma cadeira à sua frente. E a senhora Ba disse isto é uma cadeira.
A senhora Ba disse: há dois tipos de acções: as que são usadas para descansar e as que são usadas para trabalhar. Entre as duas existe a dança, que é uma arte antiga usada para descansar e para trabalhar ao mesmo tempo. Ou melhor: é usada para que, quem vê ao longe, pense que estamos a trabalhar. Porque a dança, em princípio, mexe o corpo de um lado para o outro, e assim fica evidente que não estamos numa cadeira a descansar. Mas é certo: também não estamos a trabalhar. Estamos a dançar.
- Se os patrões vivessem muito longe dos empregados estes não precisavam de trabalhar. Isto é a minha opinião – disse a senhora Ba. - Para fingirem muito esforço dançavam de um lado para o outro com cara de esforço. Porque o fundamental é mesmo a cara de esforço. Cara de esforço significa trabalho. Cara de satisfação significa descanso e boa-vida. Vejam por exemplo – disse a senhora Ba – vejam a minha cara de esforço. Estão a ver? Agora, vejam a minha cara de descanso. Vêem?
Uma cara de esforço, uma cara de descanso, e a terceira cara é a cara de quem dança. Que é uma cara intermédia. É a cara do meio. Aqui vai a minha cara intermédia.
(E a senhora Ba começou a dançar. E, enquanto dança, faz um rosto de quem dança.)
Depois a senhora Ba parou de repente e disse:
- Não pensem que é fácil fazer uma cara de quem dança no momento em que se dança. Há muito boa gente que no momento em que dança faz uma das outras duas caras: ou a cara de esforço, o que é uma canseira para quem vê a dança - ou então cara de descanso, o que faz adormecer os espectadores. Portanto, caros amigos, vou tentar fazer de novo algo extremamente difícil: dançar e ao mesmo tempo ter no rosto um rosto de dançarina. Preparem-se, é muito difícil. É como aquela mulher que não conseguia assobiar e andar ao mesmo tempo. Aqui vai. É muito difícil.
E a senhora Ba, divertida, começa a andar e a tentar assobiar ao mesmo tempo.
- Não pensem que é fácil.
E de novo a senhora Ba faz tentativas para andar e assobiar ao mesmo tempo, até que finalmente consegue e fica toda contente.
E AGORA, de novo, A SENHORA BA DANÇA.
Depois de dar dois passos de dança a senhora Ba perguntou: mas como é que se dão dois passos de dança? Um bombom e duas flores, eu sei como dar a alguém. É bonito e as pessoas gostam. O bombom come-se e as flores cheiram-se; as pessoas olham para elas, para as flores, e passando com a mão no estômago, consoladas, como se tivessem acabado de almoçar muito bem, as pessoas dizem: ai, que flores tão lindas! Dar rosas eu sei, dar bombons eu sei, mas como é que se dão dois passos? –perguntava a senhora Ba. Por exemplo, se eu te quiser dar dois passos em que recipiente os entrego? Não há uma bandeja suficientemente grande para lá colocar os meus dois passos de dança para te oferecer, e não há caixas para guardar os passos de dança porque é assim – explicou a senhora Ba – os passos de dança; desaparecem no momento em que tu os ofereces aos outros, o que é muito aborrecido, disse a senhora Ba. Podem até ficar ofendidos contigo: é que ofereces e tiras no mesmo instante, e isso é quase pecado, não se faz, menina Ba - disse a senhora Ba para si própria.
Mas mesmo que fiquem ofendidos – disse a senhora Ba – vou oferecer-vos mais uns tantos passos de dança; vejamos: 33.
É isso. 33 passos de dança. Aqui vão.
E a senhora Ba começou a dançar exactamente 33 passos de dança, acompanhados da contagem respectiva: 1, 2, 3, 4, 5, até ao 33.
No fim a senhora Ba baixou-se e agradeceu ao público.
Muito obrigada - disse a senhora Ba –, muitíssimo obrigada. Dei-vos 33 passos de dança. Espero que os tenham recebido. E guardado. Não sei aonde.




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