Viagem ao país dos objetos com alma

É verdade que sempre pressenti que os objetos fossem muito mais do que apenas coisas burras e paradas que esperam ordens nossas.




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Porém nunca pensei ver o que vi. Falo da viagem ao país dos objetos com alma. Foi uma visita rápida mas marcante.


As surpresas começaram pouco tempo depois de ter chegado ao aeroporto. Sentado à mesa de um restaurante, começava a primeira refeição quando observei reações não comuns na faca que agarrava com a mão direita. O meu companheiro de viagem explicou-me:


- É uma faca vegetariana. Recusa-se a cortar carne.


E assim era de facto. Quando a aproximei da deliciosa carne de lombo que estava à minha frente, a faca contorceu-se, desviou-se como que a executar a curva de uma estrada, ficou mole e, por fim, transformou-se mesmo em colher. Depois manteve-se nessa forma teimosamente.


Com a ansiedade que a fome provoca perguntei:


- Então e agora? Como é que vou comer carne com uma colher?


O meu companheiro de viagem, habituado há muito a este país e ao que lá se passava, disse-me, calmamente:


- Talvez seja melhor pedires uma faca não vegetariana. E com delicadeza, para que o resto do edifício não se irrite contigo.


Estava dado o mote. Tudo neste país era assim: os objetos tinham mais funções e mais consciência do que aquela a que eu estava habituado.


Ainda nesse primeiro dia entrei curioso numa livraria, e se é verdade que alguns livros eram absolutamente normais, outros, quando se abriam, deitavam fumo como se fossem carros. Fumo que, além do mais, era tóxico, o que provocava de imediato reações na pele, alergias e tosse. Algumas páginas pareciam mesmo chaminés de fábricas, tal a intensidade do fumo.


- É para afastar os leitores – explicou o meu amigo - são livros fracos, não os leias. Os livros bons não deitam fumo, alguns não cheiram a nada, mas se queres um conselho – e puxou-me para ao pé dele para segredar ao ouvido – se queres mesmo um conselho escolhe os livros que cheiram misteriosamente. São os melhores.


Ainda na livraria uma pequena ventoinha estava colocada em cima das páginas abertas de um livro, como se o livro tivesse calor. Depois de o observar atentamente percebi a função deste objecto: era uma ventoinha que arrancava as letras da página do livro e depois as baralhava.


– Os livros difíceis são feitos assim. – disse o meu amigo – É por isso que só os grandes estudiosos os entendem. As letras estão todas trocadas.


Já na rua, depois de termos comprado dois pequenos livros – um com cheiro a pinheiro, outro com cheiro a erva depois da chuva – e quando nos dirigíamos para o hotel para finalmente repousar um pouco, passámos por operários que executavam arranjos num candeeiro alto. E o que faziam eles? É simples: acendiam as lâmpadas do candeeiro com fósforos, misturando, assim, duas técnicas de iluminar aparentemente não combináveis. Explicaram-me que eram lâmpadas velhas, conservadoras:


– Já não se habituaram aos botões e à eletricidade. Percebe-se, não é? A idade...


Outro objeto interessante que vimos, a poucos metros deste candeeiro, foi um escadote em forma de circunferência: o primeiro degrau era também o último. Dessa vez não me contive:


– Para que serve um escadote que se começa a subir até que se chega, depois de muitos degraus, exatamente ao sítio de onde se partiu? Parece ser completamente inútil. – É o escadote de um poeta – responderam-me – e parece que ele não anda preocupado com a utilidade. Diz que é um escadote bonito, e para ele isso é mais do que sufi ciente.


Não quis insistir. Estava num país estrangeiro. Não devia, pois, discutir hábitos nem opções. Seria indelicado. Subi, então, para cima desse escadote e dei a volta. Uma bela experiência!


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