A cobra que engoliu um segmento de recta (2)

A verdade é que, com maior ou menor dificuldade, a tal cobra que havia engolido um segmento de recta, ou seja, a pequena parte de uma recta, lá conseguiu escapar do fogo – sempre seguindo na mesma direcção, toda direitinha até à beira de um rio. Aí parou. 


As duas bolas de ténis que tinha engolido serviam como rodas na terra, mas não se adaptavam ao rio. Para isso precisava de barbatanas, e não as tinha.
Novamente a cobra via o fogo a aproximar-se e, pela segunda vez, pensou já não ter hipóteses de sobreviver.
No entanto, sem perceber o que tinha acontecido a cobra, de repente viu-se acima do chão. Era um homem que tinha pegado nela e com ela subira para um pequeno bote. É que o homem também estava a fugir do fogo e quando viu no chão algo que lhe pareceu um pau enorme, todo direitinho, não hesitou: pegou na estaca (ou seja: na cobra) e começou a utilizá-la como se fosse um remo.
Porém, nem tudo eram boas notícias para a cobra que tinha engolido um segmento de recta. É que, por azar, o homem tinha pegado nela (julgando sempre que era um pau) com a cabeça para baixo. Por isso, quando o homem mergulhava na água esse remo adaptado, a cobra tinha de reter a respiração. Fechava assim os olhos para não entrar água e esperava, com paciência, o momento em que a sua cabeça viria acima. Nesses poucos segundos a cobra aproveitava para inspirar muito ar, porque logo a seguir zás: a cabeça ia de novo para debaixo da água. Exactamente como um remo.
Apesar deste sofrimento, a boa notícia é que o homem e a cobra que tinha engolido um bocado de recta chegaram à outra margem. Os dois tinham escapado ao fogo.
E havia ainda outra boa notícia. A água tinha amolecido o segmento de recta dentro do corpo da cobra e o susto do fogo tinha também acelerado a sua digestão. As duas bolas de ténis já não se viam e, aos poucos, a cobra sentia que o bocado de recta se estava a partir em bocados cada vez mais pequenos.
Quando o homem viu aquilo que ele pensava ser um remo, a fazer pequenos movimentos com o corpo, deu um grito e fugiu, assustado.
E assim a cobra lá ficou sozinha, com o seu longo estômago a partir em bocadinhos, cada vez mais pequenos, o segmento de linha recta que engolira. Em poucas horas a cobra já tinha recuperado a sua forma. O segmento de recta tinha sido totalmente digerido.
A cobra estava agora feliz. Dava voltas e voltas seguidas em redor dos troncos das árvores, como se estivesse de novo a aprender os movimentos.
Mas pensam que ela aprendeu com o susto? Nem pensar. No dia seguinte ela viu de novo uma linha recta (bem, era mais o que os matemáticos chamam de semi-recta). E como estava com fome, não resistiu. Levou de novo à boca aquele petisco. Mas agora era mais grave: aquilo não era um segmento de recta. Era uma linha infinita que a cobra começara a comer desde um ponto.

Quem vir agora a cobra nem a vai conhecer. Está gordíssima. E isto porque ela se encontra no mesmo sítio, perfeitamente imóvel, há mais de cinco anos. Durante os dias, agora, ela só faz duas coisas: dormir, e comer mais um bocado da linha recta infinita. Daí a razão de estar gordíssima.
Mas, apesar de tudo, a cobra está feliz. É que ela tem uma certeza: pelo menos, a comida nunca lhe vai faltar.

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