A cobra que engoliu um segmento de recta
Escrito por Gonçalo Tavares Quinta, 02 Fevereiro 2012 | Visto - 1768
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A cobra que engoliu um segmento de recta
Era uma vez uma cobra tão gulosa que comia tudo o que lhe aparecia à frente. Um dia, sem o notar, engoliu um bocado de linha recta.
A cobra, mal engoliu esse tal segmento de recta, percebeu que alguma coisa lhe tinha acontecido ao corpo. É que a cobra não mastigou como deveria ter mastigado. Ao engolir de uma vez, ela não conseguiu fazer a digestão desse bocado de linha recta. O corpo da cobra ficou, assim, todo direitinho. Ela já não conseguia dobrar e enrolar o corpo como fazem as cobras habitualmente.
Assustada, a cobra tentou afastar-se dali, mas não conseguiu mexer-se. Como tinha engolido a linha recta, não conseguia dobrar-se como fazem as cobras para se movimentarem. Estava direita como uma tábua ou como um pedaço de ferro.
E, de repente, no bosque, começaram a ouvir-se gritos. Todos os animais fugiam, gritando: fogo, fogo!
Alguém tinha pegado fogo à mata.
A cobra também tentou fugir, mas continuava a não conseguir sair do sítio. Ainda sentia ao longo do corpo aquele bocado de linha recta - ainda não tinha feito a sua digestão.
Os animais em fuga, passavam pela cobra e diziam:
- Então, não foges? Tu que és tão rápida!?
- É que eu engoli uma linha recta – dizia a cobra aos gritos, mas os outros animais já nem a ouviam. Todos estavam com muita pressa, alvoraçados, a fugir do fogo.
De repente, quando a cobra começava já a pensar que não tinha nenhuma hipótese de fuga, vieram parar mesmo ali, ao pé da sua boca, duas bolas de ténis, que algum mau jogador atirara desastradamente para aquele sítio.
A cobra nem pensou um segundo: engoliu, de uma vez, as duas bolas de ténis. Por sorte, uma rolou mais para trás do corpo, e a outra ficou alojada logo a seguir à garganta. A cobra, quase sem saber como, tinha conseguido duas rodas para o corpo. E aproveitando assim as bolas de ténis como se fossem as rodas de um automóvel, a cobra começou a deslizar, afastando-se das chamas.
Claro que mesmo assim não era nada fácil a fuga da cobra. Ela ainda não tinha feito a digestão do pedaço de linha recta e portanto deslizava sobre as bolas de ténis, toda direitinha, sem conseguir dar curvas. Enquanto ela fugia lembrou-se com saudade dos seus antigos movimentos. Antes, ela conseguia rodear uma árvore e mudar constantemente de direcção, sempre a grande velocidade. Agora, não tinha alternativa: era sempre em frente, sem curvas.
- Porque fui eu comer aquela linha recta! – culpava-se a si própria, a cobra. A cobra gulosa.



