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Vamos para a rua!

O recado ficou na porta do quarto: “Não me acordem. Deitei-me tarde e gosto de dormir de manhã”. Assinado: “L. uma adolescente normal”. Era a primeira semana de férias, a amiga ficara a dormir lá em casa e, naturalmente, a hora de ir para a cama arrastara-se pela noite dentro. O problema é que (e digo-o de fonte segura) as duas adolescentes “normais” não estiveram fechadas no quarto a trocar confidências ou a cochichar disparates. O mais certo (e há provas!) é terem estado uma em frente à outra, em longos “monólogos” com os seus telemóveis: a postar e a comentar os posts dos amigos, a espreitar as últimas dos youtubers, a distribuir likes e corações, a ensaiar (e fotografar) poses e caretas… Até aqui, nada de mal – a tecnologia é incontornável e permite coisas maravilhosas e divertidas –, não fossem estes “diálogos” ocuparem, ou mesmo dominarem, a maior parte do tempo livre que os adolescentes têm (e não têm). Na noite em casa da amiga, na tarde com os primos ou nas férias com os avós.

A par disto, sabe-se que as crianças portuguesas passam cada vez menos tempo ao ar livre. E que, muitas delas, também (já) preferem passar uma tarde em casa frente a um ecrã do que a brincar na rua. E mesmo as que ousam (e têm condições para) sair, brincam pouco. Que o mesmo é dizer, correm pouco, arriscam pouco, inventam pouco. Nas palavras do professor Carlos Neto, são “pouco selvagens”.

Nada disto é novo, mas nunca é demais lembrar. É que, as consequências deste déficit de brincadeira e desta inatividade já se começam a fazer sentir (há estudos que o comprovam!), seja na mobilidade física ou na interação social. E ameaçam agravar-se, com desfechos imprevisíveis. Como avisa Eduardo Sá, “estamos a criar os adolescentes mais autistas que a humanidade já viu!”.

Não tenho poções mágicas nem receitas imediatas. Admito, aliás, alguma impotência e confesso uma certa desilusão perante tudo isto. Mas assusta-me (e não me canso de o dizer) ver crianças e adolescentes fechados no quarto frente a um ecrã em vez de estarem a jogar à bola, a subir às árvores, a conversar ou a namorar. 

Quero acreditar que ainda vamos a tempo de devolver a infância e recriar a adolescência. Como? Para já, cabe a todos, pais e educadores, parar, refletir e agir. E, com pequenos gestos e atitudes, começar a contrariar hábitos, sugerir a diferença… e dar o exemplo. Porque estamos em tempo de férias, voto numa caminhada diária (em que o grau de dificuldade aumenta todos os dias), numa Hora da Brincadeira (aceitam-se concursos, jogos, puzzles, ou quizzes) e, melhor ainda, num destino sem “rede”! E vocês?


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