Os medos das crianças são uma invenção dos pais

Junta-se um pouco de pai ou de mãe, nada de perguntar ‘porquê’, acrescenta-se colo... e já está!




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Junta-se um pouco de pai ou de mãe, nada de perguntar ‘porquê’, acrescenta-se colo, condimenta-se com algum músculo... e já está!


1 - É verdade que o medo é tão natural como a sede. Mas, apesar disso, os medos das crianças são uma invenção dos pais.
Todas as crianças nascem equipadas para ter medo. E isso é bom. Têm medo de répteis e, regra geral, de todos os animais com uma pupila longitudinal, por exemplo, porque, por mais que o desconheçam, esse medo está muito bem guardado no seu código genético e faz parte duma herança que as torna um bocadinho sábias, desde sempre. Têm medo de animais de grandes dimensões porque, para os seus mais longínquos avós, eles terão sido, literalmente, quebra-cabeças. E têm medo de alguns sons mais agudos ou de cheiros muito exuberantes porque eles habitualmente foram surgindo, noutras vidas antes das suas, associados a experiências muito próximas de perigos graves. Todas as crianças nascem equipadas para ter medo porque, por mais que não pareça, ele as protege dos perigos.

Mas as crianças aprendem, atentamente, muitos mais medos, à medida que crescem. Se a mãe, quando estava grávida, dava – regularmente – grandes saltos de susto por isto ou por aquilo, é natural que um bebé tenha uma personalidade que o puxe para um lado medricas. Se teve, de início, uma experiência complicada de prematuridade, ou foi alvo de procedimentos cirúrgicos muito precoces, a mesma coisa. Se teve uma ama cujo rosto – mal-encarado – rivalizava com o da Cruela, mais ainda. E se – seja com as trovoadas, com os elevadores ou com os estranhos – um dos pais (entre aquilo que viveu, por acidente, ou através do que aprendeu com a sua família) foi, sem querer, uma enciclopédia de medos, eles parecem não dar descanso a ninguém. Vistos assim, todos os medos são tão naturais como a sede. Nunca são estúpidos (por mais que, por vezes, disfarcem bem). E são um autêntico seguro de vida (que, à imagem dum disjuntor num quadro elétrico, disparam primeiro e perguntam... depois).
Apesar disso, os medos são incomodativos. E percebe-se porquê. Imagine que, num momento do maior aperto, reagiu a um perigo mais com o estômago do que a cabeça... É natural que, numa circunstância levemente, semelhante aquela em que tremeu da cabeça aos pés, o seu estômago desvarie e, sem que conscientemente compreenda, o seu medo se arme em herói e... volte outra vez a fazer das suas. (Já agora, para complicar, imagine que a sua mãe ou o seu pai ficaram aflitos com a sua aflição... Pois é: o medo multiplica-se várias vezes).


2 - À escala das nossa capacidades, todos os medos nos deixam um bocadinho... burros. Quando temos medo, muito do sangue que alimenta de “combustível” o nosso cérebro foge para as massas musculares. Noutros tempos, isso ajudava ora a atacar ora a fugir (foi assim que, ao longo dos séculos, se pouparam algumas vidas...). Com menos oxigénio no cérebro ficamos mais perros das ideias e é por isso que, quando temos medo, não dizemos uma coisa esperta que nos orgulhe... Mas se a nossa aflição se multiplica com a dos nossos pais não só temos medo. Passamos a ter medo... de ter medo. (Nós gostamos de chamar a isso fobia... Que é uma forma de dizer que, se os medos fazem bem à saúde, o medo de ter medo dá cabo dos ‘nervos’...) É mesmo verdade que o medo é tão natural como a sede mas só a angústia dos pais, diante dos medos dos filhos, faz com que eles tenham medo de ter medo. E entende-se porquê.

Os pais são os verdadeiros mata-borrões dos medos dos filhos. Vamos a outro exemplo: todas as crianças nascem equipadas para terem medo das trovoadas. Sendo assim, quando são surpreendidas por um relâmpago que lhes entra pelo quarto dentro, pegam na almofada e, mais depressa que o som, enfiam-se na cama dos pais, bem no meio deles. Como, aparentemente, eles continuam com um doce ressonar, uma criança saudável põe as coisas assim: “Se isto fosse muito grave, eles estariam em alerta geral! Como continuam entregues aos seus sonhos então... é de desmobilizar...” Por outras palavras: é a segurança dos pais que sossega os medos das crianças. (É claro que a insegurança deles os atiça... Mesmo que, em milésimos de segundo, diante de uma tarefa nova, elas tirem as medidas aos olhos da mãe, por exemplo, para se certificarem se aquele precioso semáforo está no verde ou no vermelho.) Mas se a mãe fica aflita, mais aflita que uma criança, aquilo que seria um maldito karma (mais ou menos temporário) vira para uma sirene dos bombeiros. E não só uma criança passa a ter medo daquilo que a assustou como passa a sentir que os seus medos fazem mal aos pais. Não só eles não são um super mata-borrão para todos os medos como  parecem partir-se, um pouco mais, com cada medo dos filhos. Em resumo: temos medo do medo quando quem nos devia proteger dele o amplifica, sem querer. E é o medo de quem nos devia proteger do medo que nos torna mais amigos do pânico.


3 - Gosto dos pais que, em algumas circunstâncias, assustam as crianças. A brincar, é claro. Porque isso, segundo se diz, as cura do umbigo. Isto é, as torna mais afoitas e destemidas. E gosto, também, daqueles que (exceção feita à chantagem a que deitam a mão quando se trata de as convencer a comer a sopa) lhes falam do ‘homem do saco’ . Entre as bruxas, o homem do saco e os papões, é natural que as crianças temam, sobretudo, os papões. Porque, pior do que os fantasmas (que sem um lençol branco mal fazem pela vida) os papões não têm rosto, nem forma, nem movimento. São da família dos vultos. E todos estes medos – que se jogam nas histórias, no imaginário popular ou nas advertências dos pais – são uma forma de as vacinar, com um quanto baste de prudência, para os excessos de zelo com que a curiosidade das crianças, por vezes, faz das suas. Gosto, também, dos pais que, quando sentem um tremelique ligeiro de uma criança, fazem cara de maus e “rosnam” levemente. Na verdade, isso é uma forma afetuosa de, tecnicamente, acrescentarem um medo a outro. Mas, bem vistas as coisas, serve para lhes dizer que, entre a tremedeira e a ira dos pais, a escolha é dela...

Do que não gosto, mesmo, é dos pais que, diante de um medo, perguntam: “Porque é que tens medo?” (Como, entre os leitores da Pais&filhos nenhum é assim, fico mais descansado...) Porque ainda não entenderam que racionalizar um medo é meio caminho andado para ficar preso a ele. Nem perceberam que aquilo que uma criança procura não é de uma explicação para os medos: mas de alguém que lhos segure. Dos medos nunca se foge! “Eu tenho medo!” é 3 em 1: uma parte de mim, percebe que isto, cá dentro, está a virar para o azar; outra parte de mim, está numa tonteira fora de controle; e, em terceiro lugar: “dá-me colo e não perguntes porquê”. É claro que há sempre uma versão mais... hard, para lidar com os medos duma criança:
- Olha, meu filho, eu não sei o que é o papão mas, se ele, entretanto, chegar, chamas-me, eu aperto-lhe o pescoço e dou-lhe um chuto pelas escadas abaixo, que ele vai ver! (É uma boa fórmula para dizermos, por outras palavras: Se a melhor forma de ficar preso a um medo será fugir-lhe, unidos... vamo-nos a ele).

Basicamente, diante do medo das crianças, não há como inventar: junta-se um pouco de mãe ou de pai, nada de perguntar ‘porquê?’ (ou outras coisas), acrescenta-se colo (em doses cuidadosas), condimenta-se com algum músculo e... já está!

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