Crianças?... Faça um test drive!


Educar exige dedicação, determinação e perseverança. E, claro, alma, coração e cabeça. Mas exige, sobretudo, muita humildade.






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Educar nunca é fácil, dá trabalho e é imprevisível. Exige dedicação, determinação e perseverança. E, claro, alma,
coração e cabeça. Mas exige, sobretudo, muita humildade


Há muitos pais que usam e abusam da ilusão de que a sua vida seria, seguramente, muito mais fácil se os filhos já nascessem equipados com um manual de instruções. Esta versão “chave na mão” que os une, se bem que seja bondosa, tem o seu quê de “batoteiro”. Sobretudo porque – quando reclamam contra “o fabricante” que não lhes disponibilizou um manual de instruções detalhado sobre os seus filhos estarão a delegar responsabilidades no “Espírito Santo” ou, por um défice de atenção, não terão reparado que “o fabricante”... são eles próprios.

Mas, ironia à parte, vamos aos malfadados manuais, por uma última vez... Esse permanente desabafo pressupõe que existe uma “fórmula”, tecnicamente infalível, de educar sem dor, sem erros, sem dúvidas e sem enganos. O que não é possível! Educar nunca é fácil, dá trabalho e é imprevisível. Exige dedicação, determinação e perseverança. E – claro! – alma, coração e cabeça. Mas exige, sobretudo, muita humildade (porque ninguém educa à margem dos erros com que se aprende). O que, para mais, nem sequer será um drama porque é da genica e do engenho com que aproveitamos os erros que todos nós nos tornamos sábios.

Por isso mesmo, a mim preocupam-me os pais que querem aprender sem enganos nem erros. Aqueles pais que, sem darem por isso, parecem querer sucesso sem trabalho, ou que anseiam vencer sem arriscar. Como se procurassem quem lhes prescrevesse a felicidade sem dor. O que não é possível! Ser-se mãe ou pai não é um exercício técnico nem um desempenho científico. Não se esgota numa demonstração estatística nem se ancora em normas, rankings ou desvios.
E se temos, hoje, mais conhecimentos sobre as crianças, isso não significa que elas não precisem, como sempre aconteceu, de dois pais que se entregam, igualmente com amor, à educação dum filho. Apesar das contradições, dos conflitos, dos arrufos, das birras e dos amuos que só dois pais saudáveis conseguem ter entre si quando sentem dificuldade em conciliar num mesmo gesto sensato, coerente e constante, histórias de vida diferentes, sonhos distintos e pontos de vista que, em muitos momentos, parecem não estar ligados entre si.

Sendo assim, reconheço que tenho medo dos pais quando me repetem: “É muito difícil educar!”. Porque isso significa, por outras palavras: “Tenho medo de não conseguir!” ou “É melhor nem tentar!”. Que nos fará, a todos, lembrar das crianças que, antes de qualquer exercício, dizem: “Eu não sou capaz!”. E que fogem do medo dando a entender que se não fazem melhor não é porque não queiram aprender; mas porque não nasceram ensinadas...
Por outro lado, tenho (ainda) medo dos pais que repetem que as crianças serão, hoje, muito mais espertas, muito mais expeditas, muito mais engenhosas e muito mais “senhoras de si” do que elas seriam, dantes . O que, não sendo verdade, parece dar a entender que as crianças são tão mais sofisticadas que, por mais sensatos que os pais se sintam e por mais que façam para aprender, parece nunca estarem atualizados ao nível daquilo que elas exigem. Como se os pais fizessem lembrar os telemóveis que, em cada seis meses, vão de “topos de gama” à “arqueologia das comunicações”. E como se todos andássemos a confundir software com sabedoria.

Ora – que fique claro – independentemente da idade dos pais e dos filhos, mal estaríamos se os pais não são fossem sempre mais sábios que os filhos! E mal iria o mundo se os filhos se educassem com as instruções no lugar da sabedoria! Isto é, os pais estão autorizados a não saber tudo sobre os novos heróis de animação dos filhos. E a não dominarem os novos conhecimentos que as crianças trazem para a vida da família, todos os dias. Nem a estarem ao nível do modo como a miudagem parece ter nascido com um “chip” que faz com que os pais desconfiem que as novas tecnologias vêm integradas no código genético da criançada.

O que não podem é refugiar-se numa ideia do género: eu não quero repetir a educação jurássica dos meus pais mas, à conta do medo de repetir as asneiras deles, vou ficando neste limbo que me leva a supor que, por mim, eu sinta que sou melhor; mas, ao mesmo tempo, se não concretizo isso todos os dias é porque o “diabo das instruções” não me deixam ser aquilo que eu acho que sou. Por outras palavras: é como se os pais não parassem de reclamar com um argumento que ficariam muito bem em todos as alturas de aflição duma criança: as dificuldades de quem aprende têm tudo a ver com os obstáculos de quem ensina. E – desculpem o tom! – já chega de se supor que educar com ciência é muito melhor do que educar com amor, com paixão ou fazendo com que a educação se mova por convicções. Como se todos tivéssemos de pagar um imposto de valor acrescentado por termos coração, por termos fé, por termos alma ou, mesmo, por pensarmos! As crianças são, afinal quem melhor contraria uma ideia dum admirável mundo novo que é obscurantista, vaidosa e batoteira.

E, por último, tenho medo que estejamos a passar dum período, em que tudo seria culpa das mães – desde a má educação dos filhos às doenças mentais mais graves – para um outro em que os pais não podem ser responsabilizados por coisa nenhuma. E onde só parecem sossegar-se quando alguém remete as dificuldades das crianças para “defeitos de fabrico” (há sempre uma alegação dessas resguardada no genoma, à espera deles), como se os pais fossem mais vítimas que responsáveis de quem possa ter programado as crianças de forma razoavelmente irrefletida. Falemos claro: regra geral, se as crianças estão mal educadas isso talvez não se fique tanto a dever ao facto de não nascerem viradas para quem as ensine ou porque não tenham um gosto por aí além para se darem à educação. Mas, muito mais, porque lhes estará a faltar quem as eduque. E isso não é trágico! Acontece a todos os pais. Afinal, se as crianças – por vezes, em circunstâncias tão adversas – até já se “arrumam sozinhas”, o que é os pais querem mais? O que não é razoável é que, sempre que elas decidam guinchar num restaurante ou, que depois de entrarem numa birra, e vão dos “0 aos 100” em meia dúzia de segundos, os pais reajam como se não tivessem nada a ver com o que está a acontecer, e não as pudessem contrariar nem repreender... sem a ajuda de um manual de instruções. Devem! E estão, até, autorizados a não ter paciência. Do mesmo que modo que as crianças não a têm, muitas vezes, para com eles.

Sendo assim, aceitem um conselho: sejam pais modernos! Se pensam que têm de saber tudo acerca do vosso filho, e se para lidar com ele acham que têm de “dominar” todos os aspetos das suas performances, parem! Nunca se esqueçam que os bons pais são aqueles que, apesar do que supõem saber, fazem (com cada uma das crianças lá de casa) um test drive. Todos os dias!

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