Este país não é para anjos

Se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Pelo psicólogo Eduardo Sá.



alt

Se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Os compromissos do trabalho assumem o protagonismo, a que se seguem as preocupações com os filhos e, finalmente, as respetivas relações amorosas.


Durante o século XX as famílias mudaram profundamente. Tornaram-se menos machistas e menos matriarcais. Tornaram-se menos tradicionais e mais nucleares. Tornaram-se mais monoparentais e mais reconstruídas. Relativizaram o poder paternal e elegeram a paridade parental. Do ponto de vista dos interesses das crianças, estas serão as melhores e as mais democráticas famílias que existiram, desde sempre, para elas.


A famílias cada vez mais democráticas têm correspondido crianças mais interpelantes que – ao serem objeto de exigências escolares mais expansionistas, tempos de brincadeira e de recreio mais microscópicos, espaços residenciais e públicos mais espartilhados – vão ficando menos imaginativas e com maior iliteracia emocional.


Mais escola não é, regra geral, para as crianças, melhor escola. Espaços de dez minutos de intervalo (a que correspondem três minutos e alguns segundos para irem à casa de banho, três minutos e alguns segundos para ir ao bar e três minutos e alguns segundos para brincar) entre blocos de noventa minutos de aulas e uma formação extracurricular empanturrante trazem stresse crónico à vida das crianças, que não encontram na atividade física e no brincar espaços de metabolismo da agressividade que as acompanham. É por isso que o stresse crónico é o melhor amigo dos défices de atenção e da hiperatividade


Sempre que há stresse há agressividade. Isto é, sempre que a vida anda muito depressa e não é acompanhada pela nossa capacidade de entendimento do que estamos a viver ou a aprender ficamos assustados. À cautela, a agressividade dispara, automaticamente, e o nosso corpo fica num estado de alerta que nos prepara para agredir ou para fugir. A agressividade faz, portanto, muito bem à saúde. É o melhor ansiolítico e o melhor antidepressivo do mundo! Porque nos protege. Sempre que a utilizamos numa competição desportiva, num espaço lúdico ou rivalizando por um conhecimento, por exemplo, aprendemos a ser agressivos com maneiras. Sem ela não podemos ser ambiciosos, aventureiros ou conquistadores. Não se pode ser vivo, sensível e imaginativo sem se ser agressivo! Mas se geramos agressividade – funciona como uma correia de transmissão do motor que temos cá dentro – e se espartilhamos as crianças, não lhes dando tempo para brincar e para se engalfinharem fisicamente umas nas outras (até que descubram como podem agredir de forma mais leal e menos física) estamos a criar uma geração de anjos. Quanto mais contidas, menos íntegras, mais impulsivas e mais estúpidas as crianças se tornam. Quanto mais se guarda, mais a agressividade se converte em violência, que ora tende a expressar-se de forma impulsiva (como se fôssemos uma panela de pressão) ora se encapsula em sintomatologia depressiva. Isto é: se continuarmos a exigir o que exigimos das crianças estamos a criar uma geração de adolescentes imberbes, violentos ou deprimidos. Como alternativas de crescimento, convenhamos, qualquer uma delas não será do melhor.


Mas se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Os compromissos do trabalho assumem, para eles, o protagonismo mais significativo, a que se seguem as suas preocupações com os filhos e, finalmente, as respetivas relações amorosas. Esta hierarquia estará invertida: em primeiro lugar, deveria estar a relação dos pais; em segundo, os filhos; em terceiro, os compromissos de trabalho. O quotidiano dos pais acaba por não ser generoso para os valores da família, favorecendo os ressentimentos, o enfado e a hostilidade, o lado hipnótico das rotinas, o desconhecimento mútuo e a solidão. Como se não bastasse, pais assustados desligam o «piloto automático» e ligam um atrapalhador que os deixa, invariavelmente, em falta.


Já num plano social, a revolução francesa trouxe um mundo melhor e mais humano. Trouxe a noção de Estado e criou condições para que a ciência e o conhecimento ocupassem o lugar do obscurantismo que muitos confundiam, unicamente, com a fé. O mundo tornou-se mais racional e melhor. Mas foi favorecendo a tecnocracia e a burocracia. E todas as manifestações da subjetividade humana – a paixão a esperança, o espanto ou a paixão – são, ainda hoje, tomadas como regresso ao mundo de anjos e de demónios que éramos antes do século XVIII.


Nós não queremos crianças: criamos acrobatas. Damos-lhes famílias que as educam melhor que nunca, mesmo que lhes deem maus exemplos quando se trata de definirem prioridades aos carinhos que dão. Damos-lhes mais e melhor escola, menos quando se trata de dar ao brincar a importância fundamental que ele merece. Damos-lhes mais humanidade e mais justiça, menos quando se trata de nos escutarmos uns aos outros. Estamos errados. E os custos de tamanha insensatez serão longos e incalculáveis. Afinal, o mundo das crianças vai aos pulos e avança quando este país não for para anjos.


Leia outras crónicas de Eduardo Sá:

Manual de instruções para uma criança feliz

Para que serve reprovar?

Porque é que crianças inteligentes têm más notas?

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

Três notas

alt

Setembro é mês de regressar às aulas, mas também de retomar rotinas, reorganizar horários, cortar o cabelo, destralhar a casa, trocar...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais