Obrigado Pai Natal!

"Estou triste", "tenho medo" ou "quero colo" - como todas as palavras que nunca nos dizemos - são as renas do país do Natal!




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1.

Não sei se devia ser eu a dizer-vos mas, na verdade, as crianças não acreditam no Pai Natal. E não imaginam que cento e muitos quilos de ternura, uns pares de renas, algumas toneladas de presentes e o trenó voem, assim, sem uma ventoinha estridente e colorida, ou uma qualquer coisa ruidosa que anuncie, desde muito longe, que a bondade das pessoas está, outra vez, mais ou menos para chegar. Já agora, as crianças também condescendem a propósito das chaminés. E percebem que, mesmo com os exaustores deste país de braços caídos, se (de esgalgarão) tombassem por elas abaixo todos os presentes do Pai Natal acordariam até os mais rebeldes dorminhocos. Há, portanto, qualquer coisa de muito emaranhado nisto tudo. E eu não entendo que haja quem deixe que se misturem histórias batoteiras no espírito do Natal.

 

2.

Imagino que só alguém assustadiço - por nos sentir capazes de acreditar que a bondade das pessoas estaria, outra vez, mais ou menos para chegar - vos tenha dito, um dia, que o pai Natal, afinal, era mentira. Pois bem: chegou a altura de falarmos verdade. O Pai Natal… existe! É assim como um avó do céu. Um pai de todos pais. Um pirata - dos bons! – que resgata os tesouros que os pais escondem, todos os dias, dentro de si, como se fossem tolices de criança. «Estou triste», «tenho medo» ou «quero colo» são as verdadeiras renas do país do Natal. Mal balbuciam, mesmo de forma trapalhona, estas palavras com o seu quê de “abracadabra, e logo os pais são erguidos (não se sabe por quem) e, em silêncio, o seu olhar pesadão sobrevoa cordilheiras, longos prados, lagos, bosques e outros lugares onde o silêncio os torna mais pensativos e mais bonitos. E, sem nunca saírem do lugar, são levados, até a um mimo farfalhudo que os aninha e aconchega. As palavras que nunca nos dizemos são as verdadeiras renas do país do Natal!


Não, quem gosta de nós não surge sempre que precisamos. Na verdade, as pessoas que nos tornam especiais aparecem quando menos as esperamos. E sempre que nos sentem e nos imaginam, enfeitam-nos de luz e são… o Pai Natal. Parece mentira mas é verdade: é o mimo que faz com que seja Natal mais ou menos todos os dias.


3.

Não sei se devia ser eu a dizer-vos mas, na verdade, as crianças só acreditam no Pai Natal porque, sempre que dão mimo a essa história batoteira, os pais ganham a luz misteriosa que só as pessoas que confiam nas suas mentiras parecem acarinhar. E é só porque ficam enternecidas ao roçarem o seu olhar no deles - quando, de língua de fora, fazem as melhores das suas letras, sempre que escrevem ao Pai Natal – que os desculpam, mesmo que alguém lhes tenha já dito, uma e outra e outras vezes, que é feio que se minta. Mas os pais ficam presentes tão coloridos quando, um bocadinho atabalhoados, se atropelam nas suas histórias, que o coração duma criança vacila, de ternura. Então quando mentem sobre renas e chaminés parecem mais pais, quando menos os esperamos, e deixam de ser os mais rebeldes dos dorminhocos! Se nos faltam as fotografias que podíamos ter deles quando nos fitam como se fossemos o seu presente, é porque tudo o que é mágico (e nos faz sentir especiais) nos enche de enfeites que, mesmo que se arme em atrevida, qualquer película que ouse apanhar-nos de surpresa, se atrapalha com a luz e se comove. E, logo que se compenetra, já só apanha o rasto que todas as pessoas que se sentem amadas deixam no céu, sempre que sobrevoam as outras que vivem - pesadonas – invejosas por não conseguirem acreditar que cento e muitos quilos de ternura, uns pares de renas, algumas toneladas de presentes e o trenó voam, assim, sem uma ventoinha estridente e colorida.


4.

Obrigado Pai Natal!

Obrigado por ajudares tantas pessoas – que parecem rezingonas, sorumbáticas, feias, hostis ou enfadonhas – a descobrirem, por um bocadinho, que podem brincar, outra vez. Sem uma qualquer coisa ruidosa que anuncie, desde muito longe, que a bondade está, outra vez, mais ou menos para chegar – obrigado por deixares que, mesmo sem nunca saírem do lugar, elas sejam levadas até a um mimo farfalhudo que as aninhe e aconchegue. Se, ainda assim, neste enorme faz-de-conta, existires (como acredito…), gostava de te pedir que, como um pirata dos bons, resgatasses os tesouros que os pais escondem, todos os dias, dentro de si, como se fossem tolices de criança. E lhes dissesses que «estou triste», «tenho medo» ou «quero colo» - como todas as palavras que nunca nos dizemos - são as verdadeiras renas do país do Natal.

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Editorial.

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