Uma questão de tempo
Escrito por Eduardo Sá Quarta, 07 Dezembro 2011 | Visto - 1022
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| Uma questão de tempo |
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Não é verdade que tenhamos hoje menos tempo. Temos, isso sim, tantos apelos tão vibrantes que cada escolha se torna sempre um pouco mais inadiável.

1.
Não é verdade que tenhamos hoje menos tempo. Temos, isso sim, tantos apelos tão vibrantes que cada escolha se torna sempre um pouco mais inadiável. Mas, antes como hoje, talvez o tempo seja, realmente, «uma ilusão obstinadamente persistente». Falamos dele como se fosse palpável. E, de tão supostamente real, medimo-lo dando a entender que não há nada que os números não transformem em qualquer coisa de sossegado e irrefutável. Mas só descobrimos o tempo à medida que o perdemos. E, sendo assim, como se pode agarrar uma ilusão (que é bem aquilo que o tempo, sobretudo quando nos foge, mais parece)?
Embora o tempo seja uma metáfora que casa os ritmos da Natureza com a subjectividade humana, o tempo começa, para quase todos, na eternidade. Porque só os olhos nos olhos (entre um bebé e a sua mãe) dão tempo ao tempo. (Porque quando sentimos com os olhos isso é namoro. E só namorando se ganha tempo.)
2.
Se a infância, hoje, (considerando que só a autonomia com que ela nos habilita para «patrões de costa» do tempo) é maior, e vai dos 0 aos 30, nem sempre uma infância maior significa mais tempo para ser criança. Porque se hoje fazemos por poupar às crianças os ressentimentos com que se roubava tempo ao tempo, a maior parte delas, por exigência dos pais, troca o tempo livre pela urgência de crescer. E, quando dá por isso, fica empanturrada de «não tenho tempo» (que é tudo aquilo com que, sempre que evitamos escolher, mais nos desculpamos). Mas, apesar do maltrato que damos ao tempo, crescemos tão articulados com a eternidade que, seja quando for, ela nos alimenta a ilusão de termos, em muitas idades, todo o tempo do mundo.
3.
Não sei bem até quando imaginei que podia ter todo o tempo do mundo. Suponho que terá sido até ter descoberto que há saudades daquilo que deixámos por viver. Não são saudades boas, reconheço. São obras que morrem antes ainda de saírem do projecto. (Aliás – acho eu, agora – ou temos memória ou temos saudade. A memória é um estado de espírito amigo do futuro. A saudade um «oh tempo, volta para trás», vizinho dos remorsos, sem a aragem, guerreira, com que só a memória nos consegue aconchegar. Às vezes complicamos, não é? Na verdade, talvez não haja memória sem esperança. E vice-versa. Ou, melhor: memória é esperança. E nada mais.) E foi então que, com um leve sentimento de traição, me dei conta que «todo o tempo do mundo» (aquilo que, como muitos, algumas vezes, tanto quis) não seria das descobertas mais deslumbrantes que se tenham. Tirando as pessoas que são mais zombies por dentro do que parecem e que vivem definhando no ressentimento (que não é nem memória nem saudade, mas um purgatório etéreo, aquém dos dois) não ter um pé nem no passado nem no futuro faz de nós, quanto muito, homens-estátua. Será, ao contrário do que sempre supus, um inferno cor-de-rosa. (Há dias que começam por se descobrir - tenho esperança de ir a tempo... - que não temos sido inteligentes por aí além...) Ainda assim, eu quero ter tempo. Por outras palavras: mandar mais no tempo do que eu acho que ele acaba (um ror de vezes) por conseguir ficar a rir-se de mim. Mas, chegado aqui, pergunto eu, como se faz?




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