Um pai de verdade nunca será terceiro. nem é ausente. é precioso nos mais pequenos gestos. é firme e sereno. é sóbrio. é justo e arrojado. terno e bondoso. e nem mesmo quando se afasta fica  ausente.

1 - Ao longo da hist√≥ria, as fam√≠lias foram sendo machistas e matriarcais. A m√£e seria, formalmente, o n√ļmero dois da hierarquia familiar, embora fosse o elemento preponderante na educa√ß√£o dos filhos. O pai respondia pelos recursos econ√≥micos e pela lei da fam√≠lia, embora fosse um n√ļmero um, realmente ausente nos momentos preponderantes da vida das crian√ßas. Em rigor, as crian√ßas tinham dois pais mas nunca usufru√≠am de ambos em simult√Ęneo e por inteiro. Apesar disso, o pai sempre se acomodou a essa fun√ß√£o de elemento de segunda necessidade para o desenvolvimento das crian√ßas: √†s vezes, porque era colocado, pela m√£e, longe da rela√ß√£o com os filhos; √†s vezes, porque se exclu√≠a dela, tornando-se ausente.

O século XX transformou, profundamente, o lugar do pai. As crianças foram morrendo menos no primeiro ano de vida e, por isso, as gravidezes diminuíram. Os métodos contraceptivos tornaram-se mais eficazes As mães passaram a ter uma vida profissional e muitos pais passaram a reclamar mais vida familiar.

2 - O pai √© importante para o crescimento das crian√ßas? √Č. E se muitas mulheres incentivam a ¬ęmaternaliza√ß√£o¬Ľ do pai (repartindo com ele a educa√ß√£o dos filhos), outras continuam a exigir para si um protagonismo exclusivo que o coloca, invariavelmente, como terceiro na rela√ß√£o m√£e/filho.

Ora, o pai ‚Äď um pai de verdade ‚Äď nunca ser√° terceiro. Nem √© ausente. √Č precioso nos mais pequenos gestos. √Č firme e sereno. √Č s√≥brio. √Č justo e arrojado. Terno, empreendedor e bondoso. E nem mesmo quando se afasta fica ausente. √Č pai. Para sempre.

3 - Mas h√° pais que se ausentam e, com isso, magoam um filho. Haver√° ‚Äď de forma simplista ‚Äď tr√™s formas de um pai se tornar ausente para os seus filhos: quando morre, logo que se demite e sempre que se afasta.

H√° pais que morrem em vida, devagarinho. Ser√£o, entre todos, os mais dolorosamente ausentes. Acompanham a vida dos filhos, desde sempre. Mas desconhecem-nos. Demitem-se de lhes ler o cora√ß√£o ou de se colocar, por instantes que seja, no lugar deles. Imaginam valer pelos bens que transmitem e nunca pelos sonhos que conquistam (esquecendo que os pais mostram um caminho sempre que o percorrem, nunca se o indicam). Mas morrem um bocadinho se n√£o abra√ßam. Morrem quando n√£o brincam. Morrem sempre que decepcionam. E s√£o tantas as decep√ß√Ķes que os seus gestos acumulam que, quando morrem de facto, os filhos atestam um √≥bito (mais que desmoronam num choque). E, ao morrerem, deixam a pior de todas as saudades: a saudade pelo que n√£o se viveu. N√£o s√£o pais pelos gestos que d√£o mas por tudo o que os filhos desejavam que dessem.

4 - Outros pais tornam-se ausentes quando se separam. Ao contrário do que se diz, não são, por isso, piores pais (embora alguns destes só despertem para os seus deveres de pais com o divórcio). E, se bem que muitos sejam, escandalosamente, descriminados pelo género sexual, quando se trata da atribuição do poder paternal dos seus filhos, muitos divórcios são amigos doutros pais: atribuem-lhe os filhos pelo tempo que, de modo próprio, nunca reivindicariam (tornando-os mais presentes, por dentro, depois de se tornarem, realmente, ausentes, por fora).

O grande problema dos pais de fim-de-semana é que se sentem tão pouco pais que imaginam valer mais pela benevolência de Pai Natal do que por eles próprios. Daí que desde o circuito das pizzarias, nos centros comerciais, até à forma como competem pelo amor dos filhos, em troca de uma t-shrt ou de outros ténis, tudo vale. E, pior, sempre que não são telepais, o exíguo espaço de tempo que compartilham com os filhos, empurra-os para a função de amigos mais velhos, mais ou menos demissionários (quando se trata de definir regras ou limites) que é tudo o que um pai não deve ser.

Alguns destes pais tornam-se ausentes por fora e por dentro. A sua aus√™ncia parece legitim√°-los nas omiss√Ķes em rela√ß√£o a momentos fundamentais da vida dos filhos. Falham nas alturas em que a sua presen√ßa seria imprescind√≠vel. Exigem e intimidam, como se todos os direitos que reclamam n√£o se devessem iniciar em id√™nticos deveres. Na verdade, n√£o s√£o pais. S√£o, simplesmente, progenitores.

5 - Ora, o pai ‚Äď um pai de verdade ‚Äď nunca ser√° terceiro. N√£o √© ausente. Nem amigo ou progenitor. √Č precioso nos mais pequenos gestos. √Č firme e sereno. √Č s√≥brio. √Č justo e arrojado. Terno, empreendedor e bondoso. E nem mesmo quando se afasta fica ausente. √Č pai. Para sempre.

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Uma dor irrepar√°vel

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