Eduardo Sá

 

10 mandamentos para o amor dos pais

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 06 Fevereiro 2012 | Visto - 6

Crónica de Eduardo Sá.

 

Educar para o invisível

Escrito por Eduardo Sá Quinta, 26 Janeiro 2012 | Visto - 2487

A escola nunca devia ser inclusiva! Incluir não é integrar. Incluir é, muitas vezes, amalgamar o que nos distingue numa ideia - totalitária - de pessoas normais. Integrar é acarinhar as diferenças: só as escolas plurais são… universidades. E só quando casam aprender e brincar são… jardins-de-infância.

   

Educação para totós

Escrito por Eduardo Sá Sexta, 20 Janeiro 2012 | Visto - 2083

Muitos pais enfeitiçam as crianças, tornando-as sapos, quando as transformam no seu precioso espelho mágico, ficando totós uns para os outros.


   

Todas as crianças são nossos filhos

Escrito por Eduardo Sá Segunda, 16 Janeiro 2012 | Visto - 2862

Não é por se diminuir o número de crianças em orfanatos  que Portugal se transforma num país amigo das crianças. E jamais seremos pais de verdade enquanto houver crianças de  primeira e bastardos.

   

Juramento dos amigos da escola

Escrito por Eduardo Sá Quinta, 05 Janeiro 2012 | Visto - 95

Eu, abaixo assinado, declaro, solenemente, que lutarei para que uma sociedade aberta ao conhecimento, não se construa à margem da pergunta e da diferença, nem das histórias, do brincar ou da conversa. Porque uma escola que fratura humanidade e conhecimento (ou que divide os alunos, distinguindo os diferentes dos iguais ou os que aprendem dos que têm necessidades educativas especiais) ouve mas não escuta, exige atenções mas é desatenta. E, sendo assim, reclama-se inclusiva mas não será acolhedora.

E, declaro ainda, que lutarei (até que vença) para que se reconheça - com respeito pela dignidade das pessoas e pelo futuro - que o melhor indicador de sucesso educativo não é, nem nunca foi, a empregabilidade, mas que será, para sempre, a sabedoria. Se a empregabilidade representa uma visão de mundo, onde os valores do dinheiro fazem com que a paixão seja pilhada e capitule, só quando sabedoria e trabalho se casam um com o outro, ligam a humanidade dos gestos, a ousadia de nunca se deixar de perguntar «porquê?», a lealdade de interpelar e de contrapor, o arrojo de pensar e a clarividência de empreender, que distinguem quem ama (a vida, as pessoas e o conhecimento) daqueles que, tenham os sonhos que tiverem, se resignam a ser, mansamente, adaptados.

Eu, abaixo assinado, comprometo-me solenemente a estar distraído sempre que um professor não tiver um jeitinho especial para me render aos encantos do que ensina. E que farei por exigir autoridade a quem, somente, exiba disciplina. E declaro, ainda, que, honrando isso, tudo farei para me insubordinar contra todos aqueles que confundem democracia de oportunidades com mediocridade e sucesso educativo com exigências minimalistas (que, ao adoçarem as notas, mentem sobre a forma como todos temos, premeditadamente, descuidado a educação). E declaro, por fim, que lutarei por demonstrar que aprender com gosto é e fácil e é bonito, mas que o rendimento sem alma é humilhante e um embuste.

E comprometo-me a reconhecer que a escola jamais será, unicamente, um local para desenvolver (algumas) competências mas que ela serve, sobretudo, para nos educarmos uns aos outros. E, só depois, para aprender. E que, sejam quais forem as circunstâncias em que o exijam, nunca irei pactuar com essa vertigem esquizofrénica que acarinha quem repete e que castiga quem copia.

Eu, abaixo assinado, declaro solenemente que a escola é um formidável complemento aos cuidados da família e reconheço que muitos professores, pela bondade e pela sabedoria com que nos iluminam, dão mais crédito ao desafio do crescimento que muitos tios e que muitos pais. E que, por isso mesmo, serei, para sempre, contra toda a educação que se dirija mais para a vaidade do que para a admiração, onde as pessoas, depois de aprenderem, sejam mais facilmente instigadas a reconhecerem os enganos dos outros do que a aprenderem com os seus, e a subtrair (qualidades) do que a fazer a diferença. Porque um mundo que acarinha as aparências em prejuízo da integridade (um mundo onde a demagogia inquina a política ou o populismo enviesa a justiça) mascara e mente mas não admira e não aprende. E um mundo assim terá na escola, para sempre e por amor à verdade, um adversário que jamais se deixará vencer.

E comprometo-me ainda a empenhar-me para que pontos de vista contraditórios nunca nos deixem de encaminhar para sínteses íntegras, simultaneamente mais complexas e mais simples, mais singulares e mais plurais, que não favoreçam a exibição do conhecimento mas que o desafiem para a clarividência diante das dúvidas (e que reconheçam, com humildade, que tem faltado fé ao conhecimento - fé nas pessoas e fé no futuro - e que conhecimento sem boa fé não é conhecimento mas, antes e só, obscurantismo).

Por tudo aquilo que acabei de ler, que será objeto de juramento e que irei assinar, declaro estar unicamente disponível para o regresso às aulas (porque a escola são todos os lugares onde há quem nos ensine que quem aprende com os erros nunca foge às responsabilidades. E que só assim se admira, se é íntegro, se aprende e se educa).








   

Ninguém se despede quando diz adeus

Escrito por Eduardo Sá Quarta, 28 Dezembro 2011 | Visto - 206

Eu sei que me enganaram por amor, mas o céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus.

Ensinaram-me que, sempre que se morre, se vai para o Céu. Construí, por isso, a ideia dum lugar longínquo. Talvez porque um sítio tão longe assim precisasse da sensação dum imenso espaço a separá-lo de mim, que só podia ser muito para lá das nuvens, por trás de todos os planetas e das estrelas. Terá sido por isso que eu aceitei que, sempre que se morria, se ia para o Céu.

Nunca imaginei o Céu como um planeta num outro sistema solar. Talvez porque isso o tornasse pequeno. Nem como um buraco negro, por exemplo. Sobretudo porque me custava aceitar que num lugar acolhedor se vivesse às escuras. Para mim, o Céu seria um lugar-comum, embora nunca o conseguisse como se fosse acidentado. Não sei porquê. Estimava-o com algum sol, reconheço. Mas nunca com cores intensas, com o bulício duma cidade, com os aromas fortes dum passeio pelo campo. Ou de voz grossa, como se fosse o mar.

Apesar de tudo o que me foram dizendo, o meu Céu não era um lugar grande. Nem bonito ou ameno. No meu Céu não havia ruas fervilhantes, com caravanas de automóveis e com pessoas, ruidosas e astutas, festejando. Nem um homem estátua a rir às gargalhadas com cada espirro, ou sempre que escorregassem, por entre a sua pose, todos os movimentos que se têm quando se faz de conta que se morreu. Ao meu Céu falta-lhe o cheiro das castanhas e da chuva. E as zaragatas. E não via que nele as pessoas chorassem no cinema ou rissem sem parar. Às pessoas do meu Céu faltavam respostas na ponta da língua. E não as imaginava, logo que entrassem num livro, galgando todas as páginas, até ao último capítulo. No meu Céu nunca imaginei ninguém que lesse, reparo agora. E deixa-me sem jeito que no Céu não se distingam os livros que nós lemos daqueles que nos leem. Da mesma forma que escutar um texto e lê-lo não são a mesma coisa, também o som das lágrimas e aquilo que nos dizem se separa. Mas como não imagino que se chore no Céu, sinto até que lhe falta algum sofrimento para ser… Céu.

Eu gostava que no meu Céu, quando se chora por muitas razões ao mesmo tempo, para simplificar se explicasse que se chora «por nada!» que é assim uma forma de, numa espécie de sussurro, se disser: «sente-me em ti e deixa-me estar»).

E gostava que, se se chora à partida, ao meu Céu nunca faltasse o burburinho de todas as chegadas. A corrida por um abraço. Um beijo com lágrimas. E os olhos nos olhos, à distância da respiração que se mistura, quente e ofegante. E, claro, um ramo de rosas. Pelo menos. Se se morre para coisas destas, pequenas e indelicadas, como pode o Céu ser um lugar melhor?

Não me parece que o Céu seja um longo fim de semana, com pessoas sentadas à beira do rio, a namorar, e com crianças esparramadas pela relva, a decifrar o nariz que sempre se destaca de entre todas as formas que há nas nuvens. Às vezes, ouso imaginar a cor do Céu. Não sei porquê, mas acho que ele não é azul. Imagino o Céu em palidez. Bucólico. Opaco, até. E silencioso. E custa-me supor que, no Céu, o silêncio não seja, unicamente, como aqui, aquilo que fi ca quando não somos capazes de sentir o som de alguém, com quem estejamos, a ressoar em nós. Arrelia-me que, por lá, as pessoas não tropecem umas nas outras, nunca se enfureçam, não gesticulem, nem praguejem. Por quase nada. E que não se engasguem quando querem ser ternas. E que nunca digam: «és a mulher da minha vida!» (como se nunca fosse preciso que um grande amor as guiasse para o Céu). Eu já achava que as pessoas só deviam morrer quando não precisássemos delas. Mas se o Céu for assim – como imagino - prefiro, ainda mais, que se cheguem para mim. E que fiquem cá.

Eu sei que me enganaram por amor, mas o Céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus. Nem que ninguém se afasta quando se despede. Sempre que mente acerca do que sente, o coração retira-se, sem sequer se despedir. Não se separa de quem nos afasta. Despede-se de quem não o sente. E talvez só assim seja morrer.

   

Uma questão de tempo

Escrito por Eduardo Sá Quarta, 07 Dezembro 2011 | Visto - 639

Não é verdade que tenhamos hoje menos tempo. Temos, isso sim, tantos apelos tão vibrantes que cada escolha se torna sempre um pouco mais inadiável.


   

A nossa pátria são todas as crianças.

Escrito por Eduardo Sá Quinta, 24 Novembro 2011 | Visto - 564

Todas as crianças têm o direito a ser crianças. E têm o direito a crescer livres, mas com regras, num país amigo das crianças.

   

Ir à Lua aprender

Escrito por Eduardo Sá, psicólogo Sexta, 11 Novembro 2011 | Visto - 997

A escola magoou-me, quase todos os dias. E foi por isso que só muito tarde descobri que ela podia ser a minha casa. Nunca percebi porque é que a gramática tinha de se aprender com lágrimas...




1. A escola magoou-me, quase todos os dias. E foi por isso que só muito tarde descobri que ela podia ser a minha casa. Nunca percebi porque é que a gramática tinha de se aprender com lágrimas. E porque é que, se tínhamos de ser amigos uns dos outros, a Irmã Camila nos batia para aprendermos a escrever sem erros, no ditado. Para mim, o melhor das aulas era estar na Lua. Mentia, fazendo de conta que estudava os verbos ou a tabuada e, debruçando a cabeça sobre a mesa, fazia de cada pensamento um foguetão. Reconheço que ainda hoje não entendo porque é que pensar é estar na Lua. Mas, sempre que podia, fugia para lá. Eu nem gostava por aí além de andar na Lua. Mas gostava muito menos de estar nas aulas. Olhando para trás, acho que mentíamos todos um bocadinho uns aos outros: a Irmã Camila achava que se nos lembrávamos das coisas era porque talvez as soubéssemos; e nós, ao repeti-las sem as percebermos, fazíamos de conta que ela tinha razão. Foi por isso que quando entoei, a meio do exame da terceira classe, o nome de todos os astronautas da Apolo IX, e escutei um zurzir de pasmo atrás de mim, fiquei preocupado. Na verdade, nunca tinha imaginado que uns senhores vestidos de branco, aos saltinhos pela Lua, fossem uma festa para tanta gente. E, ao ver os olhos humedecidos dos meus pais, compreendi que os adultos são demasiado imprevisíveis (porque supunha que os faria mais felizes com a matemática, por exemplo). Foi então que comecei a achar que o grande problema de me perder na Lua não passava tanto por fugir para lá. Mas, ao contrário dos astronautas da Apolo IX, por andar – Lua-a-baixo, Lua-a-cima – sozinho, em silêncio e às escondidas. Mais tarde, ao jogar futebol com a Irmã, rasteirei-a. Sem querer, suponho. Mas ainda a tempo de perceber que a desculpava. (Apesar de todas as vezes em que foi injusta e batia ao Gaspar, como se ele só pudesse aprender com muitas dores e quase nunca a brincar e sem dar por isso.) E a tempo de gostar dela. Quando ela me estimava eu ia à Lua. Agora, mais às claras. De mão dada na dela. E foi assim que, aos poucos, a escola passou a ser também a minha casa. Hoje, não sei se o primeiro passo na Lua representou um salto para a Humanidade mas, para mim, transformou o exame da terceira classe no meu primeiro dia de escola.

2. É importante falarmos da escola com justeza. Porque são de menos as pessoas que, na escola, se surpreendem com magia. São de menos as histórias que as comovem. E são de menos os conhecimentos que as divertem, as remexem e as arrumam. É por isso que deve-
-mos dizer que não é verdade que a escola seja um lugar ameno e divertido onde caiba toda a gente: os cobardes e os audazes; os atinados e os rebeldes; os preguiçosos e os tenazes. E que não é verdade que, à parte do cheiro dos livros quando são novos, eles se tornem apetitosos e que apeteça folheá-los. E que seja gostoso acordar para a escola todos os dias, a não ser quando se tem uma visita de estudo, um torneio seja do que for ou no último dia das aulas. E que não é verdade que os professores sejam, todos eles, amigos do conhecimento e que o acarinhem. E que percebam das crianças: imaginem como elas pensam, que sintam o seu olhar e o interpretem e que as ajudem a descobrir que somos sábios sempre que descobrimos, dum jeito mais simples, para que serve tudo aquilo que sabemos. Não é verdade que a escola acarinhe a curiosidade e aconchegue os pensamentos, os vista com palavras e ensine que falar ajuda a conhecer. E que seja amiga das conversas. Que acarinhe as contradições e as ligue umas nas outras, e desafie para compreender (que é o contrário de condescender). E que impeça de se repetir a mesma solução enquanto não se descubram novos problemas. E que não permita que se deslinde, porque conhecer é alindar. E não deixe que ninguém caia em si, só por acaso, porque quem não aprende de dentro para fora não desvenda: só se enfeitiça. Não é verdade que as crianças fiquem mais sábias com a escola. E que se tornem mais transparentes, mais verdadeiras e mais bonitas. E que, depois de cada descoberta, só lhes apeteça correr para o futuro. Em resumo, as crianças não gostam da escola quando a escola não gosta das crianças. Isto é: se eu mandasse, só devia aprender quem fosse à Lua!

   

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