Vinculação: hora mágica

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A forma como o bebé é acolhido, quando nasce, pode fazer toda a diferença no seu futuro. O segredo da chamada “hora de ouro” afinal é muito simples: o contacto pele com pele com o peito da mãe.


Graça Gonçalves é pediatra, neonatologista e consultora de lactação. Dedica os seus dias aos bebés, grávidas e recém-mães (e pais). Proporcionar aos bebés o melhor começo de vida possível é um dos seus grandes desafios, por isso a conhecida “hora mágica” é um tema que a apaixona. “Esta hora tem ganho muitos nomes… Hora de ouro, hora mágica, hora sagrada, apenas primeira hora… Independentemente do nome, é importantíssima no que toca ao futuro da criança”. No entanto, já havendo vários estudos e tanto conhecimento sobre o tema, muitas vezes esta questão ainda passa despercebida. “Não lhe é dada a verdadeira importância!”, defende a pediatra.

O dia a dia das maternidades funciona de acordo com várias rotinas, o que é compreensível e necessário. Mas será que essas rotinas poderiam ser reorganizadas para que se pudesse potenciar essa hora inicial? Graça Gonçalves considera que é possível: “As pessoas habituaram-se a levar logo o bebé, vesti-lo, pesá-lo… fazer todo um conjunto de coisas que, na esmagadora maioria das vezes, não tem interesse nenhum, não respeitando o acolhimento do bebé. Se o bebé nascer bem, não é preciso fazer nada… é só pô-lo em cima da mãe, ainda com o cordão a pulsar”.

A Organização Mundial de Saúde há muito que abandonou a recomendação de cortar o cordão umbilical imediatamente a seguir ao nascimento e a pediatra explica porquê: “Esse sangue extra é muito importante, pois vai permitir ao bebé ter reservas para não ter anemia mais tarde e, assim, não o estamos a privar de células estaminais que são dele e que ele pode utilizar em proveito próprio logo a partir dali”.


No peito da mãe
A primeira hora ideal seria, assim, passada na pele da mãe. Nesses momentos após o parto, mãe e bebé sentem um pico de ocitocina, que vai permitir que a história de amor entre eles se inicie logo ali. Ao contrário do que se possa pensar, o bebé está muito acordado, de olhos bem abertos, com energia para se movimentar e fazer o caminho até à mama da mãe. “Quando o bebé nasce e dá aquele primeiro choro, se for colocado em cima da mãe, acalma-se e rapidamente deixa de chorar. Reconhece que está de volta a casa”, explica Graça Gonçalves. Depois, o recém-nascido passa por várias fases: desde cheirar a mão (o líquido amniótico tem o mesmo cheiro que a mama da mãe), até rastejar até à mãe (não de uma forma contínua, mas fazendo pausas), chegando ao pé do mamilo (que ficou escuro para ser um farol e o bebé conseguir ver esse contraste), inclinando-se, fazendo a pega, para finalmente mamar e adormecer.

“O bebé faz isso tudo sozinho, só nos braços e no calor do peito da mãe. É irresistível! E a ideia é essa: é ser irresistível, para que a mãe se apaixone definitivamente e o vínculo se inicie ali de uma forma indelével para toda a vida”. E isto pode ser possível na maior parte dos partos, inclusivamente em caso de cesariana. “Enquanto estão a terminar a intervenção, o bebé pode estar pele com pele no peito da mãe”, defende a neonatologista. E lembra o importante papel do pai: “Atualmente o pai já pode estar nas cesarianas, por isso pode ajudar a amparar a mãe que está mais frágil e ficarem ali, os três, na hora mágica. Só não é possível quando o bebé ou a mãe não estão em boas condições para o fazer”.


Fácil e sem custos
Este contacto pele com pele pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida do bebé. Está provado que os níveis de açúcar no sangue do bebé e a sua temperatura estabilizam, o ritmo cardíaco regulariza-se, o choro diminui, gastando menos energias, além dos benefícios em termos da colonização com micro-organismos que recebe da flora da mãe.
“O que é antinatural para o bebé é ter roupa. A roupa é um estorvo, não lhe permite os movimentos certos, nem ter o contacto que vai despoletar nele os reflexos que são importantes. Manter o bebé pele com pele é tão fácil e… não custa dinheiro!”, realça Graça Gonçalves. Simplificando, defende que a mãe, nesta fase, só precisa de uma camisa de dormir que seja fácil de abrir para poder pôr o seu peito nu e talvez uma mantinha para se taparem os dois. “Mas as mãos da mãe não podem estar por cima da manta; devem estar por cima do bebé, para ser verdadeiramente pele com pele”.
E se a mãe teve algum problema e não puder fazer esse tipo de contacto? Não há problema: está lá o pai. “É eventualmente um peito mais peludo, mas isso não importa”, brinca a pediatra, reforçando: “A flora do pai é muito a flora da mãe. É a flora benéfica da família que vai colonizar o bebé. O pai não tem as mesmas hormonas que a mãe, mas, como está a cuidar do seu filho, também tem picos de ocitocina e os seus níveis de testosterona ficam mais baixos. Está tudo muito bem pensado. São muitos milhões de anos a programar esta experiência para sermos uma espécie de sucesso!”.


Multiplicar a magia
O tempo passado na maternidade deve ser aproveitado para manter o contacto pele com pele o mais possível. Dessa forma, o bebé vai sentir-se recebido pelo mundo da melhor forma. Além de todas as vantagens já referidas, é marcante em termos do sucesso da amamentação. Mas, para que seja uma prática generalizada, ainda há que mudar as mentalidades.
“Um dia chegaremos lá!”, acredita Graça Gonçalves. E terão que ser as mulheres, bem informadas, a fazer a diferença. A pediatra está otimista: “Há cada vez mais mulheres a saberem o que querem e, como consequência, acaba por haver maior abertura por parte dos profissionais de saúde. Primeiro as pessoas gozam, depois antagonizam e por fim não têm outro remédio se não aceitar. Depois até passam a ser defensores, porque quando se percebe que uma coisa é realmente vantajosa, o profissional de saúde não quer fazer menos bem”.
Entretanto, sempre que esta hora de ouro não seja possível, não há que desanimar. Graça Gonçalves deixa uma mensagem de incentivo para todos esses pais: “Criem outras horas mágicas a partir daí! Muitas. Há tantas horas de ouro, que se podem viver e que as pessoas podem eventualmente perder… Pais, aproveitem e desfrutem do vosso bebé. Em paz e sem preconceitos”.


Oficial, mas nem tanto

A própria Organização Mundial de Saúde recomenda colocar os bebés em contacto com a pele da mãe imediatamente após o nascimento por, no mínimo, uma hora. Nessa fase, alerta para o facto de ser muito importante que os profissionais de saúde ou os familiares presentes auxiliem a mãe a reconhecer quando o bebé está pronto para a amamentação, iniciando-a o mais precocemente possível. Estudos evidenciam que o aleitamento materno na primeira hora de vida protege os bebés contra doenças, evita muitas mortes neonatais e aumenta em 50 por cento as hipóteses da mãe conseguir amamentar até aos seis meses de vida. O contacto pele com pele é uma das diretrizes dos Hospitais Amigos do Bebé e, como Graça Gonçalves lembra: “Até está incluída no Boletim de Saúde da criança. ‘Fez pele com pele na primeira hora?’, ‘Se não fez, porquê?’, pergunta-se”. No entanto, não é uma prática tão comum como seria desejável. A pediatra defende que “deveria ser incentivada, para o bem das nossas famílias. Podemos mesmo dizer que mudar esta primeira hora é quase mudar o mundo”.


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