Um ano e ainda mama? Sim!

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Amamentar depois do primeiro ano de vida do bebé é ainda visto como algo estranho e, muitas vezes, alvo de comentários negativos. Mas não faltam provas de que é o mais saudável para a criança e até para a mãe.



Carla, mãe do Pedro, de 13 meses, teve de ultrapassar a resistência da entidade empregadora em aceitar a dispensa para amamentação. Nos recursos humanos da empresa «desconheciam que fosse possível prolongar a licença de amamentação e estranharam o facto de precisar de o fazer». Acabaram por conceder, desde que apresente um comprovativo médico mensal, conforme está descrito na lei. Mas, por parte da pediatra, Carla já foi avisada de que só deverá amamentar até o Pedro ter 15 meses.

Celina Teodoro, mãe do Daniel, de 22 meses, recorreu às urgências do centro de saúde devido a um problema de saúde e quando solicitou um antibiótico compatível com a amamentação, a médica ficou surpreendida: «Perguntou qual era a idade do meu filho – na altura tinha nove meses – e disse logo para lhe tirar a mama porque já não lhe estava a fazer nada. Sem me dar qualquer argumento válido. Ainda me disse que a mama ‘até aos seis meses é ouro, até ao ano é prata’. Só faltou dizer que depois do ano, mata».

Tânia Beato amamentou o filho Diogo até aos dois anos e dois meses e ainda amamenta a filha Diana, de dois anos. Continuou a gozar a dispensa de amamentação após o primeiro ano e deixou de ter direito a comissões e a prémios de produtividade, «porque as horas gozadas são consideradas absentismo». Apesar de o artigo 65º, da subsecção IV do Código de Trabalho dizer que a dispensa para amamentação «não determina a perda de quaisquer direitos e é considerada como prestação efetiva de trabalho».

Maria Silva (nome fictício), mãe da Joana, de dois anos e meio, cansou-se de tanta sugestão para deixar de dar de mamar. Já lhe “receitaram” pôr verniz, pimenta e vinagre como fórmula para o desmame, apesar de Maria nunca ter perguntado nada a ninguém. Desde a enfermeira do centro de saúde, à médica de família, passando por amigos e familiares, em todo o lado sentiu-se recriminada por ainda dar de mamar. De tal forma, que ganhou vergonha e, quando a filha fez 18 meses, decidiu dizer a toda a gente que tinha deixado de amamentar.

Estes são apenas alguns testemunhos das dezenas que nos chegaram após o apelo que fizemos através do Mamar ao Peito, site de promoção do aleitamento materno. Queríamos saber se as mães sentiam algum tipo de recriminação por darem de mamar após os filhos fazerem um ano de vida. Ficámos impressionadas com a quantidade e com as situações descritas.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Unicef recomendam a amamentação exclusiva até aos seis meses do bebé e, como complemento, até aos dois anos de idade ou mais. A recomendação é de 2001, mas chegou a Portugal apenas em 2005, altura em que foi criado o Comité Nacional para o Aleitamento Materno, explica Adriana Pereira, investigadora em aleitamento materno e membro fundador do Comité. «Ainda que estas recomendações sejam emanadas dos organismos mundiais mais credíveis para o fazerem, a sua implementação não tem sido fácil», analisa a investigadora. As razões apontadas para esta dificuldade em prolongar a amamentação são muitas: «Dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades; a crença errónea e não fundamentada de que o aleitamento materno para além do primeiro ano de vida prejudica a criança do ponto de vista psicológico e, sobretudo, devido à carga negativa e à pressão social exercida pelos amigos, marido, familiares, profissionais de saúde e, até, por pessoas quem nem conhecem». Além dos comentários pouco simpáticos de amigos e familiares - «o quê ainda mama?»; «vai mamar até ir para a tropa, não?»; «isso já é só vício!» - muitas mães são ainda confrontadas com a falta de informação ou com as palavras desagradáveis dos profissionais de saúde, como se viu pelos testemunhos acima.

Nem os médicos, nem os enfermeiros têm, durante os seus cursos, formação em aleitamento materno, o que faz com que, muitas vezes, transmitam informação errada às mulheres. Embora, aos interessados, não faltem oportunidades para estudarem o tema. Mónica Pina, médica especialista em medicina interna num hospital público, fez a formação de Conselheira de Amamentação da OMS/Unicef e dá consultas de Aleitamento Materno numa clínica privada. Que saiba é a única médica a fazê-lo. Diz que o mais importante – «e isso aprende-se nos cursos de formação em aleitamento materno» – é a comunicação com as mães. «A cultura do biberão está tão presente que as mães precisam muito de confiança. A maneira como se fala com elas é muito importante. Só o termo amamentação prolongada, que se usa para a amamentação depois do primeiro ano do bebé, acaba por ser um termo de julgamento. É um termo qualitativo e não quantitativo».

Para vencer tanta pressão contra o aleitamento materno, «o mais importante é as mães sentirem-se confiantes e estarem bem informadas». Em relação aos médicos, Mónica Pina explica que «também muito frequentemente têm uma história pessoal de amamentação que foi pobre, às vezes inexistente, e, como muita gente, partilham dos mitos da nossa sociedade». Esta justificação não é uma forma de desculpar os clínicos, mas antes uma tentativa de reforçar a confiança das mães. «Se a mulher estiver convicta do que quer, não vai ser seguramente o comentário do médico ou do enfermeiro que a vai desmotivar.» Em situações de insegurança, medo ou doença, a médica recomenda procurar apoio especializado com conselheiras de amamentação.




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