A vida inteira por este momento

alt


Chorava, como choro hoje quando recordo esse dia. Não há palavras que descrevam o que senti quando
te segurei pela primeira vez. Fez com que toda a minha vida valesse a pena somente por aquele momento, aquele instante em que te ouvi, te vi e te senti.


Dia 25 agosto, 40 semanas certas. Cansada, inchada, pesada, um calor insuportável, e eu tentava focar-me no dia 31 de agosto, dia em que o parto seria induzido, uma vez que não parecias estar com vontade de sair. Não fiquei radiante com a ideia da indução, porque sempre imaginei que as águas rebentariam, como via nos filmes.
Perto das 22h vou dormir. Ou melhor, arrasto-me até à cama na esperança de conseguir adormecer rapidamente, o que com uma barriga de 40 semanas, 16 quilos depois e mais de 25 graus lá fora seria um milagre.
Depois de colocar uma almofada por baixo das pernas, outra atrás das costas e outra de lado, digo-te “Boa noite Vicente” – como sempre disse desde o dia em que decidimos o teu nome – e fecho os olhos. Estou quase a adormecer e sinto água. “Xinapá, isto está mesmo mal, fiz xixi na cama, já nem controlo a bexiga”. Levantei-me para ir à casa de banho e mais umas pingas… Vou até à sala e digo ao papá: “Ou fiz xixi na cama, ou rebentaram-me as águas”. Ele olha para mim, sereno: “Não podem ser as águas, se não tinha sido um dilúvio. Vai descansar.”
Vou novamente para o quarto. Repito a rotina das almofadas. Fecho os olhos.
Outra vez água. Levanto-me e vou até à sala novamente. Pesquisamos na internet sobre o “romper das águas” e vemos que pode ser desde o tal dilúvio a apenas umas gotinhas. (Pergunto-me porque não pesquisei sobre isto antes…) Com uma calma inesperada, ligo para o hospital onde estava a ser seguida e sou aconselhada a ir para lá quando puder.
Tomámos um banho, verificámos que estava tudo pronto e saímos. Chegámos ao hospital perto da uma da manhã. Continuava calma.
Fomos atendidos pelo médico de serviço em obstetrícia, que nos indicou que o nosso obstetra estava de serviço em Santa Maria mas que seria avisado que estávamos em trabalho de parto.
Pediu que colocasse uma bata e disse que iria rebentar o resto das águas. Não estava à espera do desconforto que aquilo causou. Lembro-me de olhar para o médico e ter pensado “Oh batinhas, podias ter avisado que isto doía não?”.
De seguida fomos para o quarto. Tinha duas camas. Deitei-me, pois o médico disse que muito provavelmente ainda ia demorar. Nada de contrações, desconforto, nada. “Porreiro, isto assim vai ser canja”.


“Tive medo”
Tento adormecer, mas começo a aperceber-me que estou quase a conhecer-te, e ponho-me a imaginar pela enésima vez como será a tua cara, o cabelo, as mãozinhas. Apercebo-me que provavelmente não vou conseguir dormir, mas tento relaxar e fechar os olhos.
Na cama ao lado da minha o teu pai dorme como se tivesse corrido uma maratona, tomado um Atarax e acabado de sair de um jogo do Benfica. Estava ferrado.
Tau! Uma dor desde o dedo do pé até ao pescoço veio tão inesperadamente que gritei.
Pensei: “Bom, então isto é que é uma contração. Vou ter calma, respirar fundo e tentar abstrair-me da dor. Qualquer coisa peço a epidural como o médico disse-me para fazer e pronto, no problem, está tudo bem.”
Meia hora depois já me agarro às barras da cama e não consigo pensar em mais nada sem ser aquilo.  Nova definição de pesadelo: não saber quando vem a próxima contração.
Carrego no botão para chamar a enfermeira. Tentei armar-me em forte mas já não dava mais. Para meu desespero calhou-me uma daquelas enfermeiras zen, que prontamente me diz: “É normal ter dores, é o corpo a preparar-se para o parto. Tente descansar.”
Só pensava quando o turno dela acabaria para obter a misericórdia de outra enfermeira que percebesse que aquilo já não estava a ser divertido para mim, que A SÉRIO que tinham que me ajudar e dar-me qualquer coisa que me abstraísse daquele mau estar.
No meio de respirações fundas, rezas, divagações, enfermeira a entrar e a sair, o pai continuava a dormir.
Por volta das 9h, já a avó Lena tinha chegado ao quarto, entra uma médica que veio a pedido do nosso obstetra, para ver como tudo tinha evoluído. Viu que já ia adiantada e disse-me que iria chamar o médico para administrar a primeira dose da epidural.
Alívio. Quinze minutos passados e dormia. Acho que foi o melhor sono da minha vida.
Por volta das 11h15 avisam-me que iria para a sala.
Lembro-me de estar na maca a sair do quarto, da avó Lena me dar um beijo e dizer que ia tudo correr bem, de dar a mão ao teu pai, que me disse: “Já vou ter contigo. Está tudo bem”.
Foi aí pela primeira vez que tive medo. Medo que alguma coisa te acontecesse, nos acontecesse. Percebi que era agora, e tive medo.
Passei por corredores, elevadores, sempre com a mão por cima de ti. Chorei, acho que porque estava assustada mas também ansiosa por te conhecer.
Cheguei à sala e foi-me explicado que ia ser administrada a ocitocina. Pensei comigo mesma “Mas porque não tive aulas de preparação para o parto? Como é que se respira? O que é que eu faço?”
Chega o nosso médico e os medos vão todos embora. Confiei nele desde a primeira consulta e tinha a certeza que ele iria fazer com que tudo corresse bem. Mesmo quando o vi colocar inúmeros instrumentos brilhantes, mais parecidos com objetos de tortura, sabia que estava tudo bem.


“Está quase!”
Perto do meio-dia o papá chegou à sala, de bata vestida, máquina pronta e agarrou-me a mão. Deu-me um beijo e disse-me que ia correr tudo bem.
O médico ia-me dizendo que estava a portar-me bem, para fazer mais um bocadinho de força que estava quase: “Não acredita? Quer ver?”. Corta-te um bocado de cabelo e diz: “Vê? Isto é cabelo do seu filho, está quase. Força mais uma vez”. Sem dores, determinada a conhecer-te, fiz novamente força.
26 agosto de 2015,12h54. Segundos depois oiço-te, pela primeira vez. Choravas alto, tão alto que parecia que querias que todo o mundo soubesse que tinhas chegado. As enfermeiras limparam-te, rapidamente, e colocaram-te em cima de mim. Foi aí que te disse: “Bem-vindo, Vicente, sou a tua mamã”.
Chorava, como choro hoje quando recordo esse dia. Não há palavras que descrevam o que senti quando te segurei pela primeira vez. Fez com que toda a minha vida valesse a pena somente por aquele momento, aquele instante em que te ouvi, te vi e te senti. Soube desde esse momento que por ti faria qualquer coisa, e que o Amor tinha um nome: o teu.


Leia outras histórias de parto:

Parto: sem máquinas nem agulhas!

Felicidade em estado puro 

O nascimento da Laura


Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

Três notas

alt

Setembro é mês de regressar às aulas, mas também de retomar rotinas, reorganizar horários, cortar o cabelo, destralhar a casa, trocar...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais