Felicidade em estado puro

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Depois de um parto traumático, Sofia conseguiu ter o parto que desejava: sem surpresas, mas cheio de emoção.


Decidi que o parto seria por cesariana ainda antes da conceção. Foi uma decisão fácil. Era mesmo um pré-requisito. Depois de um parto anterior feio, a cesariana era o único caminho. O nascimento do Rodrigo, há seis anos, foi num dia de calor intenso, de horas intermináveis, de uma sede imensa e culminou num parto com ventosas. Desta vez, não queria surpresas. 


O Rodrigo, o meu primeiro filho, tem uma doença caracterizada por polimicrogiria e ensinou-me que a maternidade nem sempre é um conto de fadas. Muitas vezes é preciso escolher caminhos alternativos, procurar atalhos, contornar obstáculos. Eu sou pediatra, o meu marido é anestesiologista. Escolhemos o hospital privado onde ambos trabalhamos para o nascimento da Sofia.


A gravidez correu, caminhou, pedalou, acelerou… Correu bem, com uma pitada de tudo, recheada de uma felicidade intensa, de uma deliciosa vontade de conhecer a Sofia, de a ter nos braços e com as ânsias que fazem parte dos grandes feitos.


A obstetra sugeriu que marcássemos a cesariana para o dia 15 de junho e ficou decidido. Por coincidência, a Vovó Carmina faz anos neste dia. Ficámos felizes por ser mais um motivo de festa.
A véspera do nascimento da Sofia foi um dia muito tranquilo, mas com um nervoso miudinho que crescia à velocidade dos passos de relógio. Um parto programado permite-nos fazer planos: almoçar a dois, passear, ir ao cabeleireiro, alinhar os últimos detalhes, confirmar a mala da maternidade. Foi o que fizemos.
No dia marcado, passei para o lado de lá da medicina. O pensamento ficou como que em vácuo. Sentia-me um autómato, a fazer exatamente o que me mandavam: “veste a bata”, “deita na cama”, “vamos puncionar”… Não me lembro de pensar em mais nada que não fosse o desejo de ouvi-la gritar ao mundo a sua chegada.


No bloco de partos o ambiente era familiar, recheado de amigos que sorriam e esperavam a Sofia com toda a ciência dos livros. O meu nervoso miudinho foi abafado pelos balões cor-de-rosa na grinalda da sala, pelos sorrisos dos amigos médicos e enfermeiros, pela lente do Ricardo Silva e pela música que o enfermeiro Rui escolheu para o momento. Foi uma miscelânea de sentimentos bons. O pai também passou para o outro lado na medicina. Sempre a meu lado. Senti-lhe as mãos suadas e o sorriso nervoso. Quase não dissemos nada para além de um “amo-te”.
Pouco depois chegou o momento que todos ansiávamos: o grito de chegada da Sofia fazia adivinhar uma pequena grande guerreira. Foi imediato, forte e misturou-se com o rápido comentário da minha amiga pediatra: “É igualzinha ao pai”. Gargalhada geral! Encostaram-na a mim e, num ápice de lucidez pediátrica, pedi para a levarem para ser observada e não perder calor. Queria e precisava de saber que estava tudo bem. Seis mãos pediátricas esperavam por ela, confiáveis e nossas amigas. Sussurrei ao pai para ir espreitar.


Quando a trouxeram de volta, apareceu imaculadamente vestida de rosa ao colo do pai. Maravilhosa e rosada. Com todos os reflexos a que tem direito, 3280 gramas de perfeição. Apoderou-se da minha maternidade e mamou compulsivamente. Uma sensação deliciosa que nunca antes tinha sentido.


Foram momentos de felicidade em estado puro. Só esperava que a Sofia nascesse bem e nasceu. O resto não poderia ter sido melhor.


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