Nascer protegido

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Nascer protegido
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Dentro do útero, o bebé passa nove meses protegido pelo saco amniótico. Esta bolsa de água protege-o dos órgãos e ossos da mãe, de algum eventual embate, de infecções exteriores. É a casa perfeita para um corpo frágil em desenvolvimento. Mas não é só durante a gravidez que o saco amniótico exerce a sua função. No parto, continua a sua tarefa e protege o bebé dos músculos e das irregularidades da pélvis da mãe, amaciando a descida pelo apertado canal do útero. Às vezes, as membranas rompem-se pelo caminho, no meio do trabalho de parto, outras vezes acompanham o bebé até à saída da cabeça, festejando o acontecimento com uma cascata de água, e em raras ocasiões o saco amniótico mantém-se intacto até à expulsão total do bebé. Foi o que aconteceu com o Vicente, nascido a 27 de Dezembro de 2008.

Rita e Duarte, pais de Vicente, desejaram e planearam um parto em casa, para terem «mais conforto e privacidade». Acompanharam-nos uma parteira e uma doula. A primeira contracção, ainda leve, surgiu logo de manhã, mas o Vicente apenas nasceu à meia-noite. Foi um parto longo, mas que só deixou boas memórias aos pais. Quase perto do final, Rita lembra-se de a parteira dizer-lhe que o bebé vinha dentro da bolsa e que isso o iria ajudar a escorregar pelo canal vaginal. E assim foi. O Vicente «saiu disparado, como um foguete», nas palavras da mãe. «Não houve aquele momento de sair a cabeça e depois os ombros.» Após a expulsão, a parteira rasgou a bolsa de águas e o resto dos procedimentos foram todos normais. O pai ainda assistiu a esta espécie de desembrulhar do filho, mas quando chegou aos braços da mãe, Vicente já ia sem vestígios do saco amniótico. Rita confessa que não sabia que nascer dentro da bolsa era um fenómeno tão raro. A doula disse-lhe, na altura, que os bebés que nasciam dentro do saco amniótico eram considerados bebés especiais, mas Rita nunca aprofundou o tema e considera o filho especial, «como qualquer mãe babada».

Carla Silveira, a doula presente no nascimento do Vicente, confirma que segundo tradições antigas, pensava-se que estes bebés eram abençoados, sortudos, que estariam protegidos contra os afogamentos, havia até quem lhes atribuísse capacidades videntes. Não há dados que confirmem tais poderes, mas sabe-se, isso sim, que a bolsa de águas ajuda o bebé durante o parto. «Funciona como uma cama de água que o protege no caminho pelo canal vaginal», explica. O Vicente foi o único bebé que viu nascer dentro do saco amniótico: «Foi um parto mais lento, mas o bebé nasceu bem, cheio de vitalidade», descreve. Embora seja uma situação muito rara. Nos partos que acompanhou, sempre em casa, a bolsa rebentou, regra geral, no período expulsivo.

 

Muita paciência

«Numa situação normal e natural, a bolsa rompe a partir da dilatação completa e, muitas vezes, fica intacta até a cabeça do bebé coroar na vulva», explica Radmila Jovanovic, obstetra que introduziu o parto na água em Portugal. Em muitos dos nascimentos que assiste, os bebés nascem ainda envoltos nas membranas amnióticas, como se tivessem um carapuço transparente: «Os meus bebés, quando nascem, parecem que vão roubar bancos», ri-se. Mais raros são os partos em que o bebé é expulso integralmente dentro da bolsa. «Geralmente quando a cabeça sai, as membranas rompem e o líquido amniótico é expelido.»

A obstetra explica que «a bolsa serve de protecção durante o parto. Por exemplo, se o bebé tiver o cordão umbilical à volta do pescoço, não sente tanta pressão, pois dentro de água qualquer força é mais leve. Quando existe distócia [parto difícil], a bolsa também ajuda a proteger o bebé». No entanto, não é isso que acontece em todos os partos nos hospitais portugueses. Em muitos casos, no decorrer do trabalho de parto, o médico rebenta a bolsa de águas artificialmente – uma técnica chamada amniotomia – com o intuito de acelerar o nascimento. «Não vejo nenhum benefício em romper a bolsa por rotina», critica. «Não há nenhum estudo que recomende a amniotomia precoce nem a rotineira. É um acto invasivo e, como tal, deve ser utilizado apenas com indicação restrita, quando existe necessidade de acelerar o parto, por exemplo, em casos de prolongamento do trabalho de parto causando stresse fetal», lembra a obstetra, acrescentado que «a técnica é, muitas vezes, usada de forma inapropriada». Na opinião de Radmila Jovanovic, em vários casos, é possível perceber porque razão o parto não avança e experimentar outras formas menos invasivas que favoreçam o progresso da dilatação. «Quando as águas rebentam, as contracções ficam mais fortes, mais intensas, a mulher sente mais vontade de fazer força. É bom que isso aconteça no final do trabalho de parto, porque é exactamente a última força que a mãe precisa para o bebé sair», afirma. Conhecida por ser defensora do parto natural, Radmila Jovanovic tem uma abordagem ao nascimento muito paciente: «Num parto com desenvolvimento normal não se deve tocar em nada, deve-se respeitar o processo. Fixar os braços no corpo e deixar a mulher em paz.»

 


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