Diabetes gestacional



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É uma complicação frequente e implica um intenso braço de ferro com os hidratos de carbono. Mas com autodisciplina e determinação, é possível controlar a grande maioria dos casos. Para bem do bebé!


Tudo começa no prato: quando os níveis de açúcar no sangue obrigam a levantar a bandeira vermelha, cada refeição da grávida passa por um rigoroso escrutínio. É preciso selecionar alimentos, cortar quantidades, combinar ingredientes, desdobrar refeições… Tudo com conta, peso e medida, para garantir que a glicémia se mantém em níveis aceitáveis e inofensivos para a grávida e, sobretudo, para o bebé.

“As grávidas com diabetes gestacional precisam de um plano personalizado e de acompanhamento multidisciplinar: é um trabalho entre o obstetra, o nutricionista e o endocrinologista. É preciso analisar o que comem, o que acontece quando comem determinado alimento, as horas a que o comeram… É preciso analisar tudo caso a caso”, explica a nutricionista Daniela Seabra. Nesta equação entram diversas variáveis, desde o tipo de alimento ingerido, à quantidade ou ao intervalo entre refeições. Tudo conta. “É um jogo”, diz a nutricionista, sublinhando que “há grávidas cujos níveis são muito difíceis de controlar”. Por isso mesmo, apesar de não gostar da palavra proibir, Daniela Seabra não deixa margem para manobras: “Proíbo sim, tudo o que é açúcar, logo na primeira consulta! Porque para algumas grávidas basta ingerir um bocadinho de açúcar e os valores disparam.”

Para perceber a importância do controlo da diabetes gestacional é preciso primeiro compreender por que surge e que consequências pode ter quer para a grávida quer para o bebé.
“Na fase inicial da gravidez, o aumento das hormonas origina uma baixa de açúcar, promovendo a acumulação de gordura e aumento do apetite. À medida que a gestação progride, os níveis de açúcar no sangue após as refeições vão aumentando, enquanto a sensibilidade à insulina diminui. Para que se mantenha um bom controlo do nível de açúcar no sangue durante a gravidez, é preciso que haja um aumento suficiente da produção de insulina pela mãe para contrariar a queda na sensibilidade à insulina. A diabetes gestacional ocorre quando a secreção de insulina não é suficiente”, explica a obstetra Sofia Serrano.

As consequências deste desequilíbrio são conhecidas: “Valores persistentemente elevados de açúcar no sangue da grávida podem originar excessivo crescimento do feto (macrossomia) associado a problemas no parto (distócia de ombros, aumento da taxa de cesarianas, hipoxia perinatal, aumento dos partos instrumentados) e aumentam a probabilidade da grávida, no futuro, desenvolver uma diabetes”, adianta a especialista. Além disso, acrescenta, “a exposição à diabetes no meio intrauterino está associado a um risco acrescido do filho ter excesso ponderal e obesidade no início da infância, maior risco de diabetes tipo 2 e aumento do risco cardiovascular”.

Rastreio universal
A diabetes gestacional pode surgir em qualquer mulher, mas existem alguns fatores de risco que obrigam a olhar para a grávida ainda com maior atenção: “Idade igual ou superior a 30 anos, antecedentes familiares de diabetes tipo 2, obesidade, multiparidade (quatro ou mais partos), dois ou mais abortos espontâneos, morte perinatal anterior, macrossomia fetal, diabetes gestacional em gravidez prévia”, enumera Sofia Serrano, chamando a atenção também para as alterações do estilo de vida ocorridas nas últimas décadas. “A mulher engravida mais tarde e tem excesso de peso ou é obesa, situações muitas vezes associadas a défice de produção de insulina”.
Por tudo isto, é fundamental diagnosticar atempadamente e declarar guerra a esta complicação. As atuais normas de vigilância da gravidez emitidas pela Direção Geral da Saúde indicam que, numa situação de baixo risco, “deve ser feita pesquisa de glicémia em jejum na primeira consulta de vigilância pré-natal e prova de tolerância à glicose oral (PTGO) às 24-28 semanas de gestação”. “O rastreio universal é fundamental para tentar que gerações futuras não tenham as complicações decorrentes da diabetes”, sublinha a obstetra.

O poder das picadas
O tratamento da diabetes gestacional passa, essencialmente, pela alteração do plano alimentar e pela “autovigilância glicémica rigorosa (implica que a grávida faça picadas regulares para saber o seu nível de açúcar no sangue)”, refere Sofia Serrano, acrescentando que “a ingestão de água é recomendada, as bebidas alcoólicas desaconselhadas e o exercício regular estimulado, preferencialmente a marcha e sobretudo após as refeições.” Daniela Seabra sublinha o “poder das picadas”: “São importantíssimas, porque as grávidas assustam-se com os valores depois das refeições e mudam”. E mudar significa seguir o plano à risca, sem cair em tentações. Porque por mais pequenas que sejam, podem ter consequências. “Costumo dizer às minhas grávidas: ‘Pode comer o bolo de chocolate no dia em que o bebé nascer! Vingue-se nessa altura, mas agora estamos a tratar o bebé’”, conta a nutricionista, referindo, no entanto, que na maioria dos casos a motivação nas grávidas é “muito grande”.

Apesar das proibições, Daniela Seabra esclarece que há pequenos truques que facilitam na hora de escolher os alimentos: “Substituir pão branco por pão de mistura, sempre! Comer fruta (pouca) com algumas nozes ou avelãs. O truque é atrasar a absorção do açúcar, juntando gordura (fruta com nozes, pão com pasta de azeitonas…), para não criar picos.”
Se mesmo com as alterações alimentares definidas não se conseguir manter os níveis de glicémia controlados (“entre 60-90 mg/dl em jejum e entre 100-120 mg/dl uma hora após início das refeições”) então “será necessário iniciar terapêutica com insulina, que é o tratamento preferencial, apesar de já existirem diversos estudos com antidiabéticos orais”, esclarece Sofia Serrano, referindo que “a ecografia às 29-33 semanas, para avaliar o crescimento fetal, pode determinar o início e/ou intensificação da terapêutica com insulina”.

Com ou sem necessidade de insulina, as implicações decorrentes da diabetes gestacional nem sempre terminam com o parto. “Nas primeiras seis a oito semanas após o parto, a mulher deve fazer uma nova prova de ingestão de glicose (PTGO), para perceber se está ou não alterada e se tem diabetes ou diminuição da tolerância à glicose”, lembra Sofia Serrano, esclarecendo que mesmo as mulheres que apresentem uma prova normal no pós-parto “devem fazer determinações da glicemia em jejum anualmente, pois têm um risco aumentado para desenvolverem diabetes”.


Comer menos mais vezes

Fazer mais refeições por dia, para evitar estar mais de duas/três horas sem comer é uma regra fundamental no controlo da diabetes gestacional. A nutricionista Daniela Seabra deixa uma sugestão de ementa para um dia.
- Pequeno-almoço: iogurte natural com fruta (meia peça), flocos de aveia e quatro ou cinco nozes
- Lanche meio da manhã: uma fatia de pão de mistura com pasta de azeitona
- Almoço: sopa de legumes, carne ou peixe com muitos legumes e arroz ou massa (em pouca quantidade)
- Lanche da tarde: fruta com nozes ou avelãs
- Segundo lanche da tarde: uma fatia de pão com queijo magro ou um iogurte
- Jantar: sopa de legumes, carne ou peixe com muitos legumes e arroz ou massa (em pouca quantidade)
- Ceia: iogurte natural com duas ou três colheres de aveia.

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