TVer ou não TVer, não é a questão



Ao contrário do que se poderia pensar, a internet não veio substituir nem retirar tempo à televisão. Dados referentes a 2009 revelam que os mais novos (dos quatro aos 14 anos) aumentaram o tempo em frente ao televisor: em média, quase três horas diárias. O estudo «Miúdos e Media», realizado o ano passado pela empresa Zero a Oito, deu conta de uma realidade hiper-mediatizada: uma em cada quatro crianças de oito anos tem seis meios de comunicação no quarto, sendo que antes dos seis anos já têm pelo menos televisão. Em 61 por cento das casas, a TV está sempre ligada, mesmo quando não há ninguém a ver. E no passado mês de Fevereiro, a Deco revelou uma realidade preocupante: nas creches, mais de 70 por cento dos bebés vê televisão, percentagem que sobe para os 90 por cento nos jardins-de-infância.

Peso e medida

Aparentemente são poucos os sinais de preocupação e exigência. Sara Pereira, investigadora na área da educação para os media da Universidade do Minho, revela: «A maior parte dos pais não está motivada para debater questões ligadas à televisão. Consideram-na algo que não é preocupante, um mero meio de entretenimento e diversão. Não é vista como matéria para ser pensada, reflectida ou falada. Têm hábitos mediáticos muito enraizados e não conhecem a programação para a infância».

Mónica Pinto, pediatra do desenvolvimento do Hospital D. Estefânia, confirma: «Nas minhas consultas, infelizmente, os pais falam pouco do tempo passado pelos filhos à frente dos vários ecrãs. Muitas vezes, tenho de ser eu a trazer o assunto à discussão. É um tema incómodo porque muitos pais usam a televisão como forma de entreter a criança, porque nem sempre têm tempo ou disponibilidade para investir numa actividade conjunta. Por vezes a televisão é o escape. E também tem um papel importante na vida familiar, mas é necessário saber dosear e não deixar que ela domine», sublinha.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças até aos dois anos não vejam televisão e que, a partir dessa idade, o tempo máximo seja de duas horas. Mónica Pinto é da mesma opinião: «A televisão não deve ser usada como entretenimento em crianças abaixo dos dois anos, podendo estas ver televisão apenas de forma casual. A partir dos dois anos, a televisão desde que consumida com moderação pode ser útil. Uma a duas horas é mais do que suficiente, mas não esquecer que, quando falamos de televisão e de tempo máximo, incluímos no mesmo pacote o computador e as consolas». Mas porquê estes limites? Porque a exposição televisiva excessiva pode provocar efeitos negativos na criança. Mónica Pinto destaca: «Sendo uma actividade passiva, e não havendo interacção, provoca a redução de várias áreas cognitivas em idades muito jovens, onde a aprendizagem necessita de comunicação, partilha e interacção com o outro». Outras consequências apontadas são a redução da produção de linguagem, transtornos de atenção, obesidade, alteração dos padrões de sono e banalização da violência e da sexualidade.

Panorama nacional

E aspectos positivos? «A televisão é como tudo: em excesso não faz bem a ninguém, na medida certa é maravilhosa», defende Teresa Paixão, responsável pela programação infantil da RTP. E reforça: «Acho que se pode aprender imenso com a TV, desde que se vejam coisas boas». É inegável que a televisão é um excelente meio de entretenimento e aprendizagem, alargando horizontes e mostrando às crianças coisas às quais, sem ela, nunca teriam acesso. «Há uma frase do filósofo espanhol Savater que gosto muito: ‘Porque é que a televisão, sempre tão vista, é tão mal-vista?’. Há a ideia de que os programas para crianças têm má qualidade, mas é porque as pessoas não os vêem. É uma ideia totalmente errada. Há coisas absolutamente magníficas em todos os canais que emitem televisão para crianças em Portugal! Até aos dez anos de idade, é possível só ver coisas boas, bem-feitas e de variadíssimos estilos, escolhendo o melhor de cada canal», defende Teresa.

A oferta é imensa. Além dos quatro canais abertos, os canais por cabo multiplicam-se: Baby First, Baby TV, Boomerang, Cartoon Network, Disney Channel, Nickleodon, Panda, Panda Biggs, SIC K. O Canal Panda é, inclusivamente, dos canais por cabo, o segundo mais visto. As crianças só têm a ganhar com esta diversidade, podendo elas mesmas compor a sua grelha de programação.

Sara Pereira coordenou o estudo «Um ano de programação para crianças e jovens na RTP1, RTP2, SIC e TVI». Analisou, entre Setembro de 2007 e Outubro de 2008, a programação infanto-juvenil. Na sua opinião, as conclusões mantêm-se actuais: «O panorama que encontrámos é razoável. De uma forma geral, há bons programas para crianças em Portugal, alguns que eu encorajaria mesmo as crianças a ver, pelas ideias que transmitem, pelo conhecimento que proporcionam de outros mundos e de outras culturas, pela abertura de horizontes que podem significar». No entanto, destaca uma preocupação: «O excesso de oferta de telenovelas infanto-juvenis no horário televisivo que lhes é reservado. O que questiono é o excesso de horas de emissão de um mesmo produto, recorrendo os canais privados, com muita frequência, à repetição de episódios. Questiono também a forma, muitas vezes, desadequada e superficial como os temas são tratados». Esta questão torna-se ainda mais pertinente ao verificarmos que são as telenovelas os programas mais vistos por este segmento. Aliás, uma coisa é aquilo que as estações de televisão oferecem especialmente para as crianças e outra é aquilo que elas de facto vêem.

Segundo o terceiro estudo Fórum da Criança, divulgado em Março de 2009, os mais novos – dos quatro aos seis anos – preferem o Noddy, o Ruca e as Winx. Dos sete aos dez anos, as meninas gostam dos Morangos com Açúcar, Hannah Montana e telenovelas. Os meninos das mesmas idades, além dos Morangos com Açúcar, escolhem o wrestling e filmes. Os mais crescidos, com 11 e 12 anos, preferem também os Morangos com Açúcar – os meninos juntam- -lhes filmes e as meninas acrescentam outras telenovelas e Hannah Montana.

Os investigadores têm pintado o cenário da televisão para crianças com as mesmas tonalidades: maior oferta de programas e alargamento das horas de emissão, devido sobretudo aos canais por cabo; aumento das repetições de programas; diversidade ao nível dos géneros, formatos, conteúdos e públicos-alvo; predomínio da animação; grande desproporção entre a oferta de programas de produção nacional e programas importados; tendência para a emissão de programas associados a um forte merchandising.

O papel dos pais

Cada vez mais assediadas, ninguém tem dúvidas que as crianças são uma audiência especial. Possuem um mundo incompleto de conhecimentos que afecta a compreensão dos conteúdos televisivos e têm processos de aprendizagem próprios, que passam por capacidades que ao longo da infância se vão desenvolvendo, nomeadamente as de distinguir a realidade da ficção, o essencial do acessório. Por isso, também aqui o papel dos pais é insubstituível. Devem ver televisão com elas, estimular a discussão, clarificar dúvidas, ajudar a interpretar determinadas situações, orientando activamente as suas escolhas. Os pais podem e devem influenciar as experiências televisivas das crianças, controlando o impacto da televisão nas suas vidas, contribuindo para torná-la num meio facilitador e promotor da aprendizagem.

Isabel Mimoso, directora dos canais Panda: «É importante que os pais não se preocupem só com os conteúdos e o consumo mas que intervenham. É essencial fomentar a educação para os media. E pertence aos pais (e educadores) serem os filtros entre a televisão e os filhos. Controlar os hábitos televisivos e limitar o tempo, propor alternativas, acompanhar os filhos e explicar o conteúdo faz com que as crianças sejam mais críticas e absorvam, de forma mais efectiva, os aspectos positivos da televisão».

Sara Pereira destaca as vantagens desta educação para os media: «Permite às crianças aprender as diferenças entre a realidade e a ficção, a questionar os conteúdos e as mensagens mediáticas e a compreender o trabalho dos media como uma construção. Proporciona-lhes também mapas e bússolas para a navegação, ensinando-as a gerir a informação. Possibilita-lhes reflectir sobre as suas próprias experiências com os media – o tempo que eles ocupam nas suas vidas, a qualidade dessa experiência, os usos que fazem na sua vida quotidiana e das informações que retiram dos media. Um dos grandes propósitos é proporcionar às crianças o desenvolvimento do pensamento e de atitudes críticas, não apenas enquanto telespectadores mas como cidadãos».

Neste âmbito, Bruno Pereira Gomes, psicólogo, não apresenta uma realidade muito positiva: «Os pais estão a ter muitas dificuldades em impor limites aos seus filhos e a televisão é mais um desses aspectos. Não conseguem controlar a quantidade de horas que as crianças vêem TV, nem a que horas o fazem. Hoje em dia, quase todas as divisões da casa têm uma televisão, inclusivamente no próprio quarto das crianças. Às vezes até são estimuladas pelos pais a adormecerem a ver televisão! Se as crianças só vêem televisão e não estão com os pais estamos a roubar-lhes uma parte fundamental do seu desenvolvimento». E deixa alguns conselhos: «TV no quarto das crianças tem mais contras do que aspectos positivos – uma criança sozinha no quarto, com um comando na mão, torna-se incontrolável, especialmente quando os pais estão a dormir. Dar-lhes alternativas: brincar, tentar sair para a rua, correr, fazer desporto. Não ter a televisão ligada às refeições e nunca usá-la como prémio ou castigo, pois dessa forma estamos a dar-lhe uma importância que não deve ter».



Tele-conselhos

A Academia Americana de Pediatria faz as seguintes recomendações aos pais:
- evitar o uso da televisão como babysitter electrónica;
- não colocar aparelhos televisivos nos quartos dos filhos;
- evitar que crianças menores de dois anos vejam televisão;
- limitar o tempo despendido a ver televisão para o máximo de uma a duas horas por dia;
- encorajar à selecção criteriosa dos programas a ver;
- ensinar a capacidade de selecção, de modo a habilitá-los a ver o que lhes é mais apropriado.
- co-visionar os programas com os seus filhos e discutir os conteúdos vistos;
- servirem como modelos para os seus filhos, escolhendo criteriosamente os programas que vêem;
- proporcionar actividades alternativas, nomeadamente a leitura, as actividades físicas, os hobbies instrutivos e permitir tempo para brincadeiras livres e criativas.

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

Três notas

alt

Setembro é mês de regressar às aulas, mas também de retomar rotinas, reorganizar horários, cortar o cabelo, destralhar a casa, trocar...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais