Pais & Mães

Comunicar com o coração

Terça, 14 Fevereiro 2017 | Visto - 4518

Mais do que trocar palavras e informações, comunicar em família é a troca sábia de emoções, sentimentos e preocupações.



Mais do que trocar palavras e informações, comunicar em família é a troca sábia de emoções, sentimentos e preocupações. No fundo, é partilharmo-nos a nós próprios como um todo e estarmos dispostos a receber o outro como ele é. Nessa troca, os corações encontram-se e as relações saem mais fortes.


Hoje, as crianças quase não brincam lá fora, em ambiente espontâneo, por isso estão muito mais em casa, com a família. Portanto, como estão todos juntos no mesmo espaço, comunicam mais e melhor, certo? Errado, diz-nos a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira: “Pode até falar-se muito, mas partilha-se pouco. A comunicação de muitas famílias é demasiado organizada; fala-se sobre a organização do tempo e das tarefas, o que vamos fazer, a que horas, quem vai buscar os miúdos à escola, qual a ementa do jantar… mas isto não são verdadeiros momentos de partilha. As famílias estão mais próximas – as casas são mais pequenas, os miúdos não passam tempo a brincar na rua, deitamo-nos todos mais tarde… –, mas essa aproximação não criou uma maior intimidade”.

A verdade é que comunicar de forma efetiva é muito mais do que falar e trocar informações. Aliás, se pensarmos bem, nunca se comunicou tanto como agora, com as pessoas constantemente agarradas aos telemóveis a enviar sms e a atualizar e comentar estados no Facebook ou no Twitter. No entanto, de acordo com a psicóloga, “tudo isto otimiza a não comunicação. Porque comunicar não é falar do quotidiano, dizer como correu o dia, o que comi ao almoço ou que filme fui ver ao cinema. Comunicar exige intimidade, exige que se fale dos sentimentos, que se exponha quem somos e não o que fazemos. A expectativas que criamos – e que nos são impostas de fora – de como a nossa vida devia ser, faz com que muitos de nós, ao comunicarmos, só transmitamos ao outro uma espécie de ego externo; só nos damos por fora, como nas fotografias que as pessoas estão constantemente a colocar no Facebook. ‘Olhem o meu jantar.’ ‘Olhem onde vim passar férias.’ ‘Olhem pra nós tão divertidos a brincar no parque com os miúdos.’ Mas não é à toa que as pessoas mais felizes são as que têm menos fotografias. Porque estão ocupadas a viver. Quem é que, se estiver a passar um bom bocado, se lembra – ou tem tempo de – estar a tirar fotografias e a publicá-las no Facebook a torto e a direito? Mas é nisso que as pessoas hoje se concentram. Querem mostrar aos outros que também estão apaixonados, também fazem programas nos sítios da moda, também têm um emprego que adoram”.

Atualmente, tudo é comunicação verbal, tudo é fotografia, tudo é conversa. Mas comunicar é muito mais do que isto. A comunicação passa por falar do que somos. Mas, refere Ana Cardoso de Oliveira, “eu só consigo fazer isso expondo as minhas fragilidades, as minhas dificuldades. É preciso acabar com a ideia de que temos que estar sempre bem para os outros, de que temos que ‘ficar sempre bem na fotografia’. Habituámos as nossas pessoas a essa ideia de força, e depois qualquer fragilidade é vista como uma derrota. Não há espaço de partilha nas famílias, momentos para ‘deitar conversa fora’; quando estamos juntos temos que estar a fazer alguma coisa”.

A culpa é do tempo?
Todos nos queixamos do pouco tempo que as famílias passam juntas. E, claro, não é o ideal, mas, ainda assim, ao nível da comunicação, esta é uma falsa questão, diz-nos a psicóloga. Segundo Ana Cardoso de Oliveira, o tempo que as famílias passam juntas chega para que os seus elementos estabeleçam uma comunicação eficaz, se as coisas forem feitas da forma certa: “Tem que haver um contínuo na comunicação. É preciso preparar a comunicação; não é de um momento para o outro que as pessoas se abrem sobre as suas questões, que baixam a guarda e mostram as suas fragilidades. Se perguntamos a alguém ‘como estás’, a resposta óbvia é ‘estou bem, obrigada’, porque é a única resposta possível no imediato. Depois, com a continuação da conversa, um conta como o dia correu, o outro também, a conversa torna-se mais íntima e estamos prontos para partilhar verdadeiramente. Por exemplo, se logo quando vamos buscar os miúdos à escola fazemos o caminho para casa a conversar sobre as coisas que aconteceram durante o dia, quando chegamos a casa já temos a comunicação instalada e tudo se torna mais fácil. Mas, na maioria das vezes, a mãe aproveita aqueles momentos no carro, em que finalmente parou de trabalhar, para ligar à avó, ou para ligar ao marido e pedir-lhe que passe no supermercado e compre arroz, ou mesmo para ligar para o escritório e terminar um assunto que ficou pendente. E, quando as crianças tentam falar, ouvem um ‘shiu, não vês que estou ao telefone?’. Depois, quando chegam a casa, os miúdos querem contar as coisas que lhes aconteceram, mas a mãe diz ‘vai tomar banho’, ‘tira os brinquedos do chão da sala’, ‘enxuga-me esse cabelo’, ‘veste o pijama’. O problema é que dar ordens não é comunicar”.
Para que a comunicação seja eficaz, há que colocar o recetor na posição de “ouvir”, pelo que aprender a comunicar passa por aprender a estar calado. E, claro, a comunicar apenas com as pessoas que estão presentes (sem telemóveis, sem Facebook, sem televisão…). Comunicar de forma eficaz passa por se estar, efetivamente, com o outro. Tem que haver um espaço e um tempo onde se possa conversar sem ser interrompido.

O que importa são as pessoas
A família é o local onde não se aplicam regras restritas e inflexíveis, e onde os benefícios são sempre mais importantes que os princípios. Focar a comunicação nos benefícios significa, simplesmente, dar mais importância às pessoas, às suas preferências e métodos, do que às normas e regulamentos. Isto implica um grau elevado de flexibilidade: não há um tempo certo, uma forma certa ou um lugar certo para a comunicação na família. Criar regras para a comunicação torna o processo oficial e mecânico, em vez de emocional e afetivo.
Outro aspeto importante é que, embora a comunicação seja essencialmente conteúdo, este é muito influenciado pela forma. Portanto, não devemos assumir uma postura demasiado negativa ou sarcástica, sob pena de destruir o “calor” e entusiasmo das conversas em família. Isto não quer dizer que a comunicação em família não pode criticar ou corrigir. Claro que pode. Mas, ainda assim, há formas de o fazer mais positivas do que outras, e são essas que interessam. Foquemo-nos numa forma de comunicação que valorize, incentive, apoie e tranquilize.

Nesta questão da forma, nunca é demais lembrar para deixarmos que a comunicação em família seja muito mais do que a expressão verbal. Em determinados momentos, a simples presença de outros membros da família pode comunicar muita coisa. Para as crianças, por exemplo, a presença dos pais transmite mensagens de segurança, amor e interesse. E, nos adultos, a presença do marido ou da mulher comunica um sentimento de tranquilidade e calor.
Os gestos de afeto querem-se em abundância na comunicação. Mesmo quando estamos a repreender o filho ou o esposo. Um beijo, um abraço, um acenar de cabeça em apreciação, o gesto de um polegar para cima, tudo isto diz muito mais do que as palavras.
Há também que ser claro e preciso na comunicação, sem deixar espaços em branco para os outros elementos da família assumirem ou interpretarem o que queremos dizer. Falemos sem rodeios, mas com calma e gentileza, pois assim é mais fácil que a mensagem seja recebida.

Por último, convém lembrar que a comunicação em família não tem um horário pré-estabelecido e não obedece a uma ordem do dia. Pelo contrário, ela é o que acontece enquanto achamos que estamos a fazer outras coisas: nas conversas casuais e espontâneas, na mão que procura a outra quando se cruzam no corredor, nos abraços molhados na hora do banho, nas guerras de almofadas no sofá, no beijo roubado na cozinha enquanto os miúdos estão entretidos com a televisão, no puzzle que não há maneira de conseguirmos terminar, na loiça que aparece por magia na máquina de lavar enquanto a mãe e o pai estão ocupados a estender a roupa, na história e nos mimos na hora da cama, no olhar cúmplice de “finalmente sós” quando se cai exausto no sofá para ver a série preferida ou se fecha a porta do quarto com cuidado.
Porque comunicar é ser capaz de olhar para a realidade pelos olhos dos outros, e aprender algo com isso.

Comunicar com crianças

Comunicar com crianças pequenas é uma arte. O que elas querem dizer nem sempre lhes sai pela boca, mesmo nos casos em que já conseguem falar e exprimir-se verbalmente. As crianças comunicam com todo o corpo. Gestos, movimentos corporais, olhares, choro… e tudo isso nos transmite alguma coisa.
A parte fundamental da comunicação com as crianças é “ouvi-las com olhos de ver”. Escutar com atenção e observar com cuidado ajuda os pais a perceber como é que os seus filhos transmitem o que sentem e que gesto ou ação utilizam para cada emoção. Porque só conhecendo a forma como as crianças se expressam é que os pais podem aprender o que é que elas querem dizer-lhes.

Nesta relação de comunicação entre pais e filhos, há que definir papéis e deixá-los bem claros. Evidentemente que os pais devem ouvir atentamente os filhos, mas, em última análise, o “eu é que mando” é muito importante. Segundo a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira, “os pais que, no fim de uma conversa, acabam a compreender sempre os filhos, numa relação muito ‘comunicativa’, estão a ser amigos e não pais, e não é esse o seu papel”. Ou seja, é importante que os pais discordem e que imponham, de forma a que os filhos possam queixar-se aos amigos de como eles são injustos e castradores. Comunicar efetivamente com crianças não é chegar sempre a um consenso; há alturas em que, por mais debate que se promova, é preciso fazer, simplesmente, o que os pais mandam.
A comunicação tem a ver com o podermos ser como somos, na relação. Isso não quer dizer que tenha que se saber tudo o que o outro fez, mas sim tudo o que o outro é. “Nas relações entre pais e filhos, é muito importante que os filhos tenham segredos, que os pais não saibam tudo o que eles fazem”, diz a psicóloga. Mas, claro, convém que saibam tudo o que eles são.

A mente das crianças é quase uma folha em branco, pelo que aprendem tudo com muita facilidade. E aprendem com a família, claro, pelo que é muito importante que, além de tudo o resto, as ensinemos a comunicar. E uma das melhores formas que temos de o fazer é ouvindo-as. As crianças gostam muito mais de ouvintes do que de tagarelas (para isso bastam elas!). Por isso devemos responder sempre a todas as suas perguntas, por mais tolas que nos pareçam – a curiosidade natural das crianças faz com que estejam constantemente a fazer perguntas. Ouvi-las com atenção ajuda-as a desenvolver as suas capacidades verbais e a confiar em nós como recetores da sua comunicação, pelo que não se inibirão de nos procurar e falar connosco sempre que necessário.


A comunicação no casal

A qualidade da comunicação entre o casal afeta o funcionamento da família das mais variadas formas. Influencia a estabilidade da relação conjugal romântica, claro, mas também as capacidades das crianças na resolução de problemas, a habilidade para se relacionarem com os seus pares e o seu nível de angústia emocional.
John Gottman, reputado psicólogo americano, reconhecido como um dos dez terapeutas mais influentes dos últimos 25 anos, dedicou quatro décadas de investigação à estabilidade conjugal e à previsão do divórcio e identificou quatro padrões negativos de comunicação entre o casal, particularmente danosos para as relações. Chamou-lhes “Os Quatro Cavaleiros”, numa alusão aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, uma vez que, quando os quatro se encontram presentes na comunicação do casal, as probabilidades de divórcio são enormes. (Gottman e a sua equipa de investigação conseguiram prever com 94 por cento de rigor que casais se iriam divorciar, depois de observarem apenas os primeiros minutos de um conflito.) Os Quatro Cavaleiros são:

- Crítica: inclui ataques ao caráter (“És tão preguiçoso!”) e queixas globais (“Tu fazes sempre…” ou “Tu nunca fazes…”) - é diferente de uma queixa simples, que se refere a uma situação ou comportamento específicos (“Estou chateado porque não quiseste ir sair com os meus amigos”).
- Desdém: transmitir repúdio e desrespeito através do sarcasmo, gozo, insultos, revirar de olhos, expressão carrancuda e/ou humor hostil. Este é considerado o mais perigoso dos Quatro Cavaleiros.
- Jogar à defesa: culpar o parceiro em vez de assumir responsabilidade pelo próprio comportamento. Por exemplo, “Eu limpava o pó mais vezes se não estivesses sempre a dizer-me que está mal feito”. Uma resposta defensiva está, normalmente, carregada de negatividade.
-Entrincheiramento: inclui desconexão, olhar para outro lado ou para baixo, não reconhecendo a presença do parceiro. Os maridos entrincheiram-se mais vezes do que as mulheres. Quem reage desta forma sente-se, normalmente, sobrecarregado pelo conflito, e desliga-se como forma de autoproteção. No entanto, esta desconexão torna a resolução construtiva do problema muito difícil.

Parte da razão para os Quatro Cavaleiros serem tão prejudiciais é que costumam conduzir a um sentimento de opressão tal, que um ou os dois parceiros acabam por experimentar sintomas físicos, como as palmas das mãos a suar, o coração a bater muito depressa e a respiração fraca. Isto torna difícil que se consiga pensar claramente, ouvir com atenção e tentar resolver o problema. A autopreservação torna-se no foco principal. Fazer uma pausa e envolver-se em atividades tranquilizadoras é o melhor antídoto. Tudo o que acalmar a pessoa é válido; o importante é evitar remoer a discussão. Depois, é crucial voltar à questão quando os dois parceiros se sentirem calmos, para que esta pausa não se transforme numa forma de entrincheiramento.

Para além destas pausas, a equipa de investigação de John Gottman constatou que os casais felizes, com maior probabilidade de a sua relação vingar, utilizam tentativas de reparação no meio das discussões. As tentativas de reparação são comportamentos que têm como objetivo reduzir a tensão e “amaciar” o conflito. Alguns casais combinam fazer um intervalo e voltar à discussão depois, outros têm um sinal especial, como, por exemplo, fazer uma careta, ou utilizam uma palavra-código para “acionar os travões”. Não importa como, o que importa é que nunca se chegue ao ponto de não retorno.


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