Só gosto de ti

altÉ normal que as crianças tenham, em determinados momentos, preferência por um dos pais.



É normal que as crianças tenham, em determinados momentos, preferência por um dos pais. Mas isso não deve ser levado a peito por quem é preterido, pois não significa que seja menos amado.


Receita para cair nas boas graças de um bebé que ainda não tenha completado dois anos: seja o seu cuidador principal, isto é, a pessoa que está sempre lá quando é tempo de comer, de acalmar ansiedades e mal-estar, de brincar, de dar e receber mimo. Na grande maioria das situações, este papel é assumido pela mãe e, por isso mesmo, é ela a preferida da criança, com todos os outros familiares próximos – a começar pelo pai – remetidos a papéis secundários. Mas à medida que ela vai descobrindo o mundo tudo pode mudar e, um belo dia, as afinidades dão uma volta de 180 graus. É o tempo das preferências.

«Parecia um íman. O pai chegava a casa e eu deixava de existir. Era o Manuel que lhe tinha de dar banho, vestir o pijama, dar o jantar, ler a história na cama, adormecê-la. E se eu tentava ajudar, levava logo com um: ‘o pai é que faz, eu quero o pai sozinho!». Rita, com três anos, nem sequer sonhava que as atitudes do final do dia causavam um nó na garganta da mãe. «Entristecia-me ver que ela parecia preferir o pai», recorda Isabel, que acabou por partilhar a mágoa com o pediatra da filha. «Ele, às tantas, perguntou-me quantas horas nós passávamos juntas e era o dia todo porque na altura eu não trabalhava. ‘E com o pai?‘ Pois, com ele era das seis e meia da tarde às oito e meia. Aí percebi que não se tratava de preferir o pai em meu prejuízo. A Rita estava era cheia de saudades dele!»

Pode ser muito duro para quem é preterido ver um filho preferir sistematicamente um dos pais. No entanto, não só esta é uma situação habitualmente passageira como faz parte das etapas do desenvolvimento infantil. À medida que as crianças criam a noção de si mesmas, fazem-no através da observação e imitação de quem as rodeia. Baseado nesta teoria, o pediatra Berry Brazelton, n’ «O Grande Livro da Criança», defende que para absorver totalmente a informação transmitida por cada pai – a linguagem, expressões faciais e escolhas – as crianças focam nele a sua atenção quase exclusiva, deixando de lado outros estímulos de relacionamento pessoal, pelo menos temporariamente.

É resultado do sentido que a criança tem da sua própria pessoa e do seu poder crescente. Parte é preferência e parte é controlo», defende Tovah Klein, directora do Barnard College Center for Toddler Development, instituição universitária norte-americana que se dedica ao estudo do desenvolvimento das crianças até aos três anos. «Os pais podem ficar magoados, mas esta é a forma de ela dizer que está a aprender a fazer as suas escolhas», adianta.


Papéis e afinidades

Mas o que pode levar uma criança a escolher, mesmo que seja de forma transitória, um dos pais? A pergunta é mais facilmente feita do que respondida. Há quem defenda que na base estão os papéis que os adultos desempenham no seio da família. Um dos pais pode ser visto como o impositor de regras e o disciplinador e o outro como o companheiro de aventuras e de diversão.

Anda hoje, passada mais de uma década, Margarida acredita que foi precisamente isso que originou uma «fase difícil» em que o filho, então com dois anos, a afastava aos gritos e chamava pelo pai, especialmente entre a hora em que acordava e a saída de casa. «Nem sequer podia entrar no quarto, onde ele dormia connosco, para me vestir. Ao contrário de mim, que stressava de manhã para nos despacharmos a tempo, o meu marido fartava-se de brincar com o Henrique quando lhe mudava a fralda e o vestia e acredito que ele associava o pai a esses momentos. Curiosamente, quando o deixávamos na creche, se fosse eu ficava a chorar, mas se fosse pai estava tudo bem», recorda.

A psicóloga clínica Ana Durão admite não gostar muito da palavra «preferência», preferindo substituí-la por «afinidade». Em primeiro lugar porque os laços que unem uma criança a um dos progenitores, por mais fortes que sejam, não significam que seque a ligação afectiva com o outro. Em segundo lugar trata-se de um processo e não de uma escolha: «Os vínculos estabelecem-se pelas experiências e emoções que os pais proporcionam e a valorização dessas mesmas experiências e emoções».

E esta é uma via de dois caminhos, aproveita para dizer Ana Durão. «Os pais amam todos os seus filhos, mas é natural que se sintam mais próximos de uns que de outros, seja porque as personalidades são mais compatíveis, seja porque partilham interesses, objectivos ou formas de ver a vida e o mundo.» E isso é bem patente na altura em que as crianças iniciam o processo de identificação de género: «As meninas olham para as mães como modelos a seguir e a imitar e o mesmo se passa com os rapazes e os pais. Daí à expressão de afinidade muito próxima vai um pequeno passo», afirma Ana Durão.

«Se quisermos colocar as coisas de uma forma simples, podemos dizer que, desde que nascem, as crianças se aproximam de quem, numa determinada fase, sentem mais necessidade. Para o exterior, essa aproximação passa por preferência, mas está longe de significar uma escolha, muito menos definitiva, em termos afectivos», conclui.


Flirts e paciência

Não é fácil sentir-se a mais e assistir às demonstrações de afinidade de um filho com o outro membro do casal. Mas não há que ficar de braços cruzados.

Seja paciente = Este tipo de comportamento tem tendência a modificar-se com o tempo e a criança pode, de repente, preferir o progenitor que costumava afastar. Há que não levar a peito e continuar a demonstrar que a ama. «Passe a mensagem ‘ambos gostamos de ti, mesmo quando tu só queres estar com o pai/mãe», defende Tovah Klein, assegurando que as crianças «mesmo à distância procuram, de forma permanente, assegurar-se de que os pais cumprem os seus papéis securizantes».

Partilhe sentimentos = Não deixe a mágoa crescer e compartilhe o que está a sentir com o seu companheiro. Por vezes, ele pode nem sequer se aperceber de que está a ser preferido. E não se esqueça da solidariedade quando a maré mudar e voltar a ser o mais desejado.

Aposte na sedução = E que tal criar um programa aliciante que o seu filho apenas faça consigo? Mesmo que no resto do dia ele esteja agarrado ao outro adulto lá de casa, estes momentos a dois são perfeitos para estabelecer ou voltar a criar laços.


Idade dos armários

Na adolescência, a aproximação a um ou a outro dos pais vai sendo feita ao sabor das conveniências, quase como um «jogo manipulativo de ensaio social e de conquista de maturidade», afirma Ana Durão. Em termos práticos, isto significa que o adolescente escolhe que assuntos pode partilhar com o pai e os que pode confidenciar à mãe. E a qual dos dois apelar para conseguir o que quer. «Por exemplo, nos casos das saídas à noite, ele sabe que há sempre um dos pais a quem é mais fácil pedir e que, provavelmente, acederá», diz ainda Ana Durão, adiantando: «Em contrapartida, provavelmente nem passa pela cabeça desse mesmo jovem falar com o mesmo pai de outros assuntos, que abordará mais facilmente com o outro progenitor».

O importante, de acordo com a psicóloga clínica, é que os adultos consigam manter canais de comunicação, sem perturbar os níveis de afinidade com o filho. «Não deveria haver segredos de confidencialidade entre os pais, eles devem estar perfeitamente conscientes do que se passa. Não se trata aqui de quebrar a confiança que o filho neles deposita, mas estarem informados sobre os processos de ensaio social que ele experimenta e que tão importantes são.

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