"Não é preciso droga para ser feliz”

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Prevenir é melhor que tratar: é com este intuito que o pediatra Mário Cordeiro aborda, no seu livro, um dos maiores receios dos pais de adolescentes: a droga. Realidades, mitos e estratégias, num registo direto e isento de moralismos, que vão ajudar pais e educadores a prevenir e a lidar com um fenómeno que veio para ficar.

As drogas continuam a ser um dos maiores receios dos pais. Como se lida com este risco quando se tem um adolescente em casa?

Mário Cordeiro: É normal que, quando uma criança ganha maior autonomia e identidade, procure explorar o “menu da vida”, criado pelos adultos, e entre eles estão as drogas. Sempre estiveram. Todavia, risco não é certeza, é apenas probabilidade. E diminui-se essa probabilidade informando com base científica, não entrando em maniqueísmos do tipo “a droga faz mal e mata” porque um jovem experimenta cannabis e dirá: “senti-me bem e não morri”, de onde a fonte será mentirosa ou ignorante, mas falar com verdade e mostrar “o filme todo”. Ter uma vida diversificada, objetivos para o percurso de vida, sentido de humor, amigos e família, praticar desporto, gostar de arte, cultura e criatividade são tudo fatores protetores que devemos promover desde pequeninos, e que são a melhor forma de prevenção. Viver com a realidade, portanto, colorir essa realidade e não estar sempre eternamente insatisfeito.

Os adolescentes estão hoje mais expostos às drogas?

M.C.: Sim. Os adolescentes, hoje, estão mais autónomos em termos de procura de informação e, através da internet, podem facilmente chegar aos locais onde se vendem drogas, com o grande risco de, em maior percentagem, estas estarem adulteradas e misturadas com produtos nocivos. Mas mesmo perto da escola ou nos ambientes que frequentam, incluindo discotecas e “centros de convívio”, como são os jardins e cafés onde os jovens se encontram ao fim da tarde. O acesso é mais fácil, por isso convém os adolescentes terem uma cultura de “não preciso de droga para ser feliz”. É preciso muito cuidado com a internet, pelo acesso e pela impureza do produto… e quando se vai para a “dark web” as coisas ficam mais feias…

Não existem fórmulas mágicas... mas que estratégias podem os pais implementar para minimizar os riscos?

M.C.: A necessidade de fugir à realidade é que leva às dependências. Uma pessoa que lê a realidade com uma perspetiva negativa, que se vitimiza, que quer sempre outra coisa e que é “posto para baixo”, fica com péssima autoestima. Se não tiver amigos, apoio da família e um sentido de vida, mais facilmente querer-se-á evadir para um mundo fictício, que pode até ser agradável, mas é efémero e deixará um vazio enorme e doloroso, que levará a mais e mais consumo. Se nos habituarmos a viver com frugalidade e alegria com coisas simples teremos mais hipóteses de ter mais momentos de felicidade na vida.
A que sinais, situações e atitudes devem os pais estar alerta para identificarem uma situação de risco?
M.C: Para lá da evidência do consumo ou de sintomas físicos, comportamentos de distanciamento, falta de alegria, desinvestimento escolar, desinteresse pelos outros e pelo mundo que rodeia, tristeza, depressão. É bom habituarmo-nos a conversar com os filhos, debater com eles a ideia que têm para o seu percurso de vida, objetivos, ideias, sonhos, mas também saber como percecionam a realidade e a incorporam em termos de felicidade.

O haxixe continua a ser entendido por muitos jovens como uma droga que “não faz mal”… O que se sabe hoje sobre isto?

M.C.: É falso que seja uma “droga leve” no sentido de “não faz mal a ninguém”. A cannabis tem efeitos colaterais cumulativos e causa dependência. Física e psicológica. Aliás, a maioria das pessoas atendidas em centros de toxicodependência, em Portugal, estão aí por causa de consumo de cannabis. O argumento “é melhor do que o tabaco” não colhe, porque o tabaco é, também, muito mau, como o álcool ou outras drogas legais! O consumo regular de cannabis pode ter efeitos secundários muito desagradáveis e não se é menos toxicodependente se se for de cannabis do que se se for de heroína. A dependência e todos os fenómenos à sua volta estão lá.

E as drogas sintéticas? São ainda mais perigosas? A velocidade a que surgem novas drogas destas no mercado é impressionante…
M.C.: Exatamente. Mais, e mais perigosas. A tecnologia permite o fabrico de novas drogas, constantemente, e frequentemente adulteradas com substâncias tóxicas. Há que ter muito cuidado, por exemplo, numa discoteca ou num bar, relativamente às bebidas que são servidas e a quem se aproxima delas. O GHB, a chamada “droga da violação”, causa realmente uma perda de sentidos e amnésia, como é bem retratado no depoimento que apresento no livro. O mesmo se deve dizer em relação ao ecstasy e aos seus efeitos de poder, irrealidade, desafios, nesta mistura de alucinogénio com anfetamina.


Álcool também é droga

Mário Cordeiro inclui no livro um capítulo sobre o álcool. A perceção que a sociedade tem acerca do consumo de álcool é, erradamente, diferente da que tem sobre o consumo de drogas.
“É preciso mudar esta visão”, sublnha. “Infelizmente, a droga mais consumida pelos adolescentes é ainda tida como uma ‘não droga’. Mas é. O consumo de álcool pelos adolescentes portugueses é muito preocupante e o perfil de consumo tem mudado. Com as ‘happy hours’ junto dos agrupamentos escolares, com cerveja e shots a preços irrisórios, com as infrações das vendas de álcool a menores, os adolescentes têm uma grande facilidade em encontrar álcool, respaldados pelo facto de não ser uma droga ilegal e de ser consumida em casa – aliás, a esmagadora dos jovens começou a beber bebidas alcoólicas na sua própria casa”. O pediatra lembra que “quando se pede para ‘beber com moderação’, é difícil ser-se ‘moderado’ em plena adolescência ou em plena ‘febre de sábado à noite’. A bebedeira ainda é vista como um momento de glória, quando é um momento patético, por um lado, e perigoso, pelo outro, já que está na base de muitos casos de violência doméstica, abusos sexuais, sexualidade irresponsável, brigas, roubos, enfim, atos que uma pessoa não teria se não estivesse ‘liberto’ pelo álcool…” E volta a salientar: “É preciso, pois, mudar essa visão, por muito que custe e seja ‘politicamente incorreto’”.


Mais vale prevenir

O tema é sensível mas é urgente discutir: os adolescentes e a droga. Partindo de casos clínicos reais, vivências e experiências, Mário Cordeiro convida o leitor a compreender este submundo cada vez mais complexo, através de diversas viagens com toxicodependentes e com pais, educadores e profissionais portugueses e estrangeiros envolvidos nesta problemática.

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