Repensar os TPC

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Os trabalhos para casa tornaram-se num hábito. Longe de serem consensuais, continuam a ser uma questão pertinente, que poderia ser mais discutida por todos os interessados.


Maria José Araújo, docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, lançou em 2009 o livro “Crianças Ocupadas”, no qual colocou na ordem do dia, entre outros, o tema dos trabalhos para casa. Defendia que a maioria se resumia a um tipo de trabalho mecânico, excessivo e repetitivo, que não ajuda as crianças a valorizar a escola nem a criar um sentimento positivo em relação ao ato de aprender. Passados dois anos, a sua opinião mantém-se, no entanto nota “um grande interesse em discutir esta questão”, o que considera “excelente”. Como a própria resume: “A educação diz respeito a todos e este assunto interessa aos pais, professores e aos próprios miúdos. É bom que seja conversado em conjunto”. De facto, é surpreendente que muitas das atividades pedidas sejam iguais às de 50 anos atrás, com a agravante de uma tendência para um acréscimo do seu volume. Dulce Gonçalves, psicóloga educacional, professora e investigadora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, confirma: “Há cada vez mais pais conscientes de que os TPC são excessivos. Há famílias em que, ao fim de semana, veem a sua cozinha ou sala de jantar transformadas em verdadeiros centros de estudos. Não é suposto passarem todo o tempo que têm para estarem juntos com essas atividades”. Este acréscimo parece justificar-se pela associação de quantidade a sucesso escolar. “Há uma tendência em pensar-se que a melhor escola é aquela que é mais exigente e a mais exigente é aquela que passa mais trabalhos para casa”, descreve Dulce Gonçalves. Maria José Araújo contrapõe firmemente esta conceção: “Se fazer muitos TPC conferisse muito sucesso na escola, não havia insucesso!”



Mais do mesmo

Ana Duarte é educadora social num Centro de Atividades de Tempos Livres, lidando diariamente com esta questão, junto de um grupo de crianças com idades entre os seis e os 13 anos. Reconhece que o apoio à realização dos TPC passou a ser uma exigência parental que transforma estes centros em verdadeiras extensões da escola. Além da quantidade excessiva, que leva a que estejam horas à volta das tarefas, critica o tipo de atividades pedidas: “Quem está diariamente com as crianças a realizar os TPC, rapidamente percebe que a sua estrutura nada valoriza o aproveitamento escolar pois é uma aprendizagem muito centrada no treino e na repetição dos conteúdos que já foram lecionados (ou não) dentro do horário escolar. Muitas vezes resumem-se a cópias de textos, de palavras, à escrita e repetição de tabuadas e é usado, muitas vezes, como castigo quando os alunos se portam mal nas aulas, legitimando a associação dos TPC a um fardo”. Oportunidades perdidas. Como a psicóloga Dulce Gonçalves refere, o problema não são os TPC em si, mas o tipo de atividades: “A grande mais valia não é a mera repetição do procedimento que se fez na escola, é a generalização das aprendizagens para outros contextos ou para outras matérias. Mesmo quando se trata de mecanizar e automatizar, só temos a garantia que a aprendizagem está de facto sólida quando experimentamos diferentes formas, jogos, abordagens, estratégias”.



Caminhos diferentes

Felizmente, já surgem vários professores empenhados em propor desafios mais interessantes. Pequenos trabalhos de componente eminentemente lúdica, que promovem a interação da criança com os restantes elementos da família, que não consomem muito tempo e que podem ser um estímulo para todos. Ana Santos, mãe de quatro filhos, recorda-se de um em especial: “Lembro-me de um trabalho sobre a Guerra do Ultramar. Convidámos, para nossa casa, um tio do meu marido que lá tinha estado, para uma das minhas filhas o entrevistar. Com ele veio a sua mulher, duas irmãs e a filha. Foi um momento único. Filmámos a entrevista, revimo-la em conjunto, recordámos os momentos históricos da Guerra e ficámos a conhecer melhor outros elementos da família”. Dulce Gonçalves confirma: “Há TPC que abrem portas para a família!” E exemplifica: “Pedir ao avô que conte uma história que se lembre da sua infância e escrevê-la, recolher receitas antigas, tirar uma fotografia a um sítio onde a criança costuma passear ao fim de semana e explicar porque é tão bom lá ir”. Pessoalmente, partilha um dos trabalhos que ajudou a filha a fazer: “Um cartaz sobre o local onde os pais tinham nascido. Foi uma oportunidade imensa de conversarmos e de ela me fazer perguntas”.

Os trabalhos para casa poderiam ser também uma hipótese de diferenciação dentro de uma mesma turma, adaptando-se aos diversos contextos dos alunos. Dulce Gonçalves faz algumas sugestões: “Poder haver duas ou três fichas com graus de dificuldade diferentes, usar determinadas recapitulações ou sugerir dois trabalhos de casa e dar a escolher aos alunos qual o que gostavam mais de fazer”. E conclui: “Há tantas possibilidades, que os TPC poderiam ser de facto uma boa ferramenta. O problema é a tipificação generalizada que ainda se tem do que eles devem ou não ser”.




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