Mãe, leva-me à biblioteca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A biblioteca é «um sítio com prateleiras muito grandes, onde os livros chegam ao risco das janelas!». Em pequenos, a grande casa dos livros parece-nos gigante. Pela mão dos pais, pode ganhar dimensão de aconchego e transformar-se num tesouro descoberto em conjunto. Há quanto tempo não vai com o seu filho à biblioteca?

Há os livros que nos fazem rir, os que têm sons, cheiros e até sabor. Os que têm texturas, surpresas e objectos mágicos. E livros de pano que se passam a ferro ou de plástico para levar para o banho. livros em forma de cubo e de estrela, livros de madeira que podemos transformar em castanholas, ao batermos as páginas umas nas outras. os livros de rimas e lengalengas, livros-fantoche ou almofada. Livros que explicam muito bem coisas difíceis de explicar e livros-conselho que nos dizem o que devemos fazer. Até livros «que têm letras, mas que a minha amiga diz que contam histórias à mesma». E uma caixa, em forma de casa, onde estão todos eles. Guardados, mas prontinhos para serem olhados, tocados, folheados (às vezes até provados…) e, no fim, trazidos ao colo. A casa chama-se biblioteca e o colo pode ser o de qualquer criança.

 

Nova realidade

Mas que biblioteca é esta? Uma sala com livros fechados em armários e onde não se ouve uma mosca? Um espaço sem vida com uma fila de técnicos sentados atrás de secretárias? «Neste momento, o mundo das bibliotecas é outro. São um exemplo de sucesso ao nível da aposta na cultura e é necessária a desconstrução de uma série de preconceitos que ainda existem. Muitas pessoas que vêm pela primeira vez à biblioteca com as crianças acabam por se surpreender com este novo universo. Dizem: tantos livros, tantos CD, tantas actividades! E podemos levar para casa? E é tudo gratuito?», conta Ana Isabel Santos, Chefe da Divisão de Bibliotecas, Documentação e Informação da Câmara Municipal de Oeiras.

São já 184, as bibliotecas públicas ao longo de todo o país e todas elas têm secção infantil. Idealmente, «nesta secção, as crianças devem poder ler um livro, ouvir um CD, ver um filme, aceder à internet, jogar no computador, trabalhar em oficinas de artes plásticas e participar em actividades de grupo, num ambiente que as faça sentir em casa», defende Margarida Oleiro, da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas. Nem todas as secções infantis são assim, mas muitos exemplos de grande qualidade. Com exigentes objectivos, as bibliotecas portuguesas têm-se desdobrado em inúmeros projectos e actividades. Os públicos de eleição são as escolas e as famílias e o objectivo central, a promoção da leitura, no sentido mais amplo de leitura do mundo.

 

Bibliofamílias

Quem experimenta, é conquistado. É o caso da família de Madalena Marques. «Ficámos a conhecer a biblioteca de Oeiras 12 anos. Vínhamos de uma aldeia no distrito de Aveiro e não tínhamos cá família, nem amigos. Quando conhecemos a biblioteca, fomos acolhidos de braços abertos e encontrámos um excelente refúgio cheio de amigos imaginários (os dos livros) mas também reais. Tornou-se um programa de família, pois encontramos sempre coisas de que gostamos. O pai gosta de ler os jornais e é o ajudante do Francisco (com quatro anos) na leitura dos livros, jogos e outras brincadeiras que o espaço proporciona. A Catarina e o Vítor (com 13 e 15 anos) encontram sempre algo que lhes agrada ou aproveitam para consultar os livros de leitura obrigatória para os estudos. Para mim, a biblioteca representa uma amiga sempre disponível para conversar e ensinar-me tantas coisas.» Ao longo destes anos, esta família frequentou formação para pais, sessões de contos, actividades de expressão plástica, musical e dramática, visitaram exposições, participaram em serões de contos e até dormiram na biblioteca, na iniciativa anual Pijama às Letras. «Já é uma assoalhada da nossa casa», confessam com entusiasmo.

Chamar mais famílias, como a da Madalena, para as bibliotecas é um desafio. «Há dois anos, criámos o conceito Oeiras a Ler em Família. São actividades destinadas às famílias e não apenas às crianças. Queremos passar a ideia de que os pais podem e devem participar e que as actividades são preparadas para essa participação conjunta», explica Ana Isabel Santos. «Acho que estamos a conseguir criar esse hábito, mas não é fácil», reconhece. E acrescenta: «Ainda há um grande desconhecimento por parte da população. É preciso passar a ideia de que a biblioteca é um equipamento aberto também ao sábado, onde há sempre programas interessantes para fazerem com os filhos».

 

De bebés até… sempre

E se pensa, porque o seu filho ainda é bebé, que ainda falta muito tempo para frequentar estas actividades, surpreenda-se. Nas bibliotecas de maior dimensão, já há uma área reservada para as crianças até aos três anos. E para dinamizar estas bebetecas surgem programas especialmente orientados para os muito pequeninos. A Biblioteca Municipal de Beja iniciou, inclusivamente, no mês passado, um programa-piloto de promoção da leitura com puérperas e recém-nascidos. Em 2006, Susana Silvestre, coordenadora da rede de bibliotecas do concelho de Odivelas, foi pioneira nesta área. Passados três anos, o seu programa «Dois braços para embalar, uma voz para contar» tem 100 famílias em fila de espera. «Há pais que, um mês depois de o bebé nascer, já o estão a inscrever para ver se conseguem lugar», reconhece com orgulho. Partilhar livros com bebés dos nove meses aos três anos é o desafio. Susana explica: «Não formamos pequenos leitores, mas sim pais mediadores de leitura. Temos passado muitas ferramentas, servindo de guias de livros a trabalhar e de formas de os explorar e temos cativado vários pais que estavam completamente zangados com a leitura. Há alguns que dizem: ‘Ainda bem que vim para este projecto, porque há muitos anos que não lia’».

Nestas sessões não há teatro, música ou dança. Há colo, aconchego, abraço e também jogos de dizer, de corpo e nomeação. Vão-se buscar cantigas de embalar, lengalengas e trava-línguas, no fundo saberes ancestrais que se foram desaprendendo. E funciona. Cristina Taquelim, coordenadora do serviço de infância da Biblioteca Municipal de Beja, defende: «A questão central do prazer e da afectividade da leitura só pode ser proporcionada pelos pais. Mas tem de ser um processo regular e continuado. Há um amigo que costuma dizer que ‘o segredo é dar o livro certo, na hora certa, ao leitor certo e… sair de perto’. Temos muito que fazer até chegar ao sair de perto! E para os pais, ao longo de toda a vida, sobra sempre o espaço da leitura por prazer, da leitura em voz alta e do ler a pares».

 

Espaços de partilha

Para cativar os mais pequenos e as suas famílias, os sectores infantis recriaram-se. São espaços confortáveis e coloridos, onde a criança facilmente se consegue orientar. Todos os recursos estão identificados e ordenados de uma forma simples e intuitiva. Como refere Cristina Taquelim, «queremos que os livros estejam muito próximos. Uma criança não tem capacidade para trabalhar uma lombada, por isso a lógica de acesso é a capa ao alcance da mão». Muitas bibliotecas já começam a ter uma colecção diversificada e actualizada. Ana Isabel Santos exemplifica: «Às vezes não chega a uma semana depois do livro ser lançado e já está cá na biblioteca». Outro aspecto muito importante é o da promoção da colecção. As bibliotecas começam a ter a preocupação de fazer guias de leitura para os pais e até «arranjar pacotes de livros já escolhidos, colecções de três ou quatro, atados com um lacinho e uma mensagem sugestiva», como conta Cristina Taquelim. Mesmo nos computadores com acesso à internet, é costume encontrarem-se directórios de sites seleccionados sobre vários temas.

Mas nada que substitua o papel essencial que os técnicos destes espaços desempenham. Cristina Taquelim defende: «Tem que haver um trabalho de sala que não tem a ver com o empréstimo, mas sim com aquele adulto que ilumina o livro, que o conhece como a ponta dos dedos e que é capaz de trabalhar variadíssimas competências e de chamar a atenção da criança e dos pais para os detalhes.» Ana Isabel Santos concorda: «É um papel muito pró-activo. São pessoas que estão muito disponíveis e que têm em carteira uma série de actividades a propor a cada família. Cabe-lhes mostrar as várias valências do serviço e ambientar as famílias o melhor possível».

A cumplicidade e os laços criados pelo seu filho Rodrigo, desde os dois anos, com as técnicas do sector infantil da Biblioteca Municipal de Odivelas são, de facto, uma das razões que leva Leonor Sota a lá voltar, mesmo morando longe. «A biblioteca, para o Rodrigo, é um espaço de aprendizagem e brincadeira e é parte integrante da sua vida. Muitas vezes já pergunta: ‘Mamã, papá, quando é que vamos à biblioteca’» Leonor também destaca: «Para além do contacto com os livros, a partilha e o respeito pelos outros são mais-valias que sinto que ali são passadas». E como refere Ana Isabel Santos: «Este espírito de emprestar os livros, de partilhar as leituras… é como se nas bibliotecas fosse sempre Natal!».

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

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