Não me falas assim, que sou tua mãe!

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É por acaso, verdade que a mãe nasça, “de série”, equipada com tanta e tamanha bondade que, mesmo quando está pronta para “cair para o lado”, de exaustão, rasgue um sorriso, dê um afago e fale baixinho? Pode até fazer isso, sim. E depois?... E da fúria da mãe, será que ninguém fala? É, por acaso, mentira que a mãe, quando nada o faz esperar, se transforma num “tornado” e leva tudo à sua frente, começando por pegar com a prata de um chocolate que se aconchegou, para uma sesta, entre as almofadas do sofá, ou com uma lata de refrigerante (que não incomodava ninguém!), só porque, há dias – cheia de paciência, num canto da sala – ela espera pelo momento certo para dar “um saltinho” até à reciclagem?

E, já agora, onde está o seu lado sempre bondoso, sempre zen e sempre mimento quando, sem nunca contrariarmos a sua acalorada teimosia, a mãe insiste e insiste que um quarto, para ser um quarto, não pode ter pilhas de papéis – por mais que uma pessoa se oriente na sua (só aparente) desarrumação? E porque é que ela pega por tudo e por nada com as “toneladas de roupa” amontoada (mesmo que, depois de ter pedido amizade ao ambiente, ela só esteja a apanhar ar, há poucos dias)? E, a propósito, porque é que o quarto de um filho não pode ser, numa casa, um enclave com autonomia administrativa? Por acaso o Vaticano – que é uma espécie de reserva natural da bondade – não o é, também? E porque é que o lado sempre bondoso, sempre zen e sempre mimento da mãe parece ir de férias quando – solidários, todavia, com o formato do seu português de “sai-me da frente...” – respondemos à sua fúria, e ela acentua o rubor e nos arrasa com um “apontamento” do género: “Não me falas assim que sou tua mãe!...”? Mas, afinal, em que é que ficamos? Se uma pessoa se espevita e reage, ou murmura ou bichana, mesmo com prejuízo da sua tensão arterial e entaramelado pela taquicardia, a mãe infreniza-se e barafusta. Se se forra de paciência, faz um último apelo ao seu espírito olímpico e (todavia, a ferver) fica barricado no zelo e, imperturbável, sem mexer um músculo, cerra os dentes e não diz um “ai”, mesmo quando ela esbraceja e se esganiça, a mãe encarrapita-se na fúria, e dá-nos cabo dos nervos com mais um: “E, mesmo assim, não me dizes nada?...” E uma pessoa diz o quê?... Que não há direito que haja quem se zangue só porque um filho, sempre que uma mãe está muito quieta e muito calada, fique tremendamente preocupado, porque ela pode estar com uma “pontinha de febre” ou, até, doente?

Às vezes, a vida é injusta! Uma pessoa até aceita que aquilo a que muitos chamam Natureza Humana não tenha tanto de National Geographic como parece. Condescende que, feitas as contas, não nascemos bons. Resigna-se que, isso sim, todos nascemos inacreditavelmente frágeis e espantosamente competentes para conhecer e para pensar. Dá, de barato, que é por sermos inacreditavelmente frágeis e espantosamente sensíveis, atentos e inteligentes que transformamos ligações em vínculos mágicos eternos e fazemos com que a família pareça ser uma inevitabilidade humana. Avaliza que só crescemos em família porque somos frágeis. Afiança que o amor de mãe, ao contrário do que parece, não é biologia; é escolha, sim senhor. Assina, de papel passado, que isso do instinto maternal “já era”. Reconhece que se não nascemos “equipados” nem para a família nem para o amor, quem liga amor, bondade, beleza e conhecimento é, antes de mais, a mãe. E, mesmo assim, quando se espera que ela seja sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta, quando nos fala, a mãe – logo a mãe! – toma-se de amores de perdição pelos nossos pecadilhos sem importância e zás! – aqui vai fúria! – salta dos 0 para os 100 em meia dúzia de décimos de segundo, vira leoa e dá-nos cabo dos nervos, só porque não somos perfeitos? E quando, finalmente, já desolados e inconsoláveis, reagimos, e lavramos um protesto – insignificante! Mínimo, até... – como, por exemplo: “Já sei que não faço nada direito...”; ou, simplesmente apoiados em factos, lhe recordamos: “Já percebi que não sou o teu filho querido...”, o que é que faz a mãe? Lança-nos um olhar que perde o glamour de Sandokan, em “A fúria do guerreiro”. Vacila, por dentro. Cambaleia com a voz. Puxa do seu já clássico: “A sério, meu filho? A sério?… É mesmo só isso aquilo que tens para me dizer?…”. E uma pessoa, em vez de aproveitar aquela fresta e, qual número 10, em vez de ir por ali adiante com uma perna às costas, e chutar para golo, o que é que faz? Diz adeus ao “Tá-se bem”. Fica toda esbardalhada, por dentro. Corre, isso sim, em direção à água com açúcar. Dá-lha a beber. Enxuga-lhe as lágrimas. Puxa de um abraço apertado. Desculpa-se, claro. Aconchega-a com mais outro: “Gosto muito de ti!”. E acaba a reconhecer que, da próxima vez, já será outro dia. Por mais que, logo a seguir, fique carcomida pelo nervoso miudinho por ter perdido, mais uma vez, por KO técnico, outro “combate”, quando se trata de medir forças com a fúria da mãe.

Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta, quando nos fala? Não é verdade!

A fúria da mãe é imprópria para cardíacos. Eleva o cortisol. Põe-nos a tiróide aos solavancos. Estraga-nos o dia! E porquê? Porque a mãe se acha no direito de se tomar de fúrias e exigir, exigir, exigir! Mas quem é que a mãe pensa que é? Deus, por acaso? E porque é que a mãe não faz de pai, não aprende com a sua jovialidade, nem cultiva essa tendência para a distração que o pai preza mais, ainda, do que os seus bicípites? Por que é que a mãe quer controlar tudo e mais alguma coisa? Mas pode um adolescente ter a sua personalidade e um brio a defender, e pode ser escrupuloso nos seus pontos de vista e ir em contra-mão com as perspetivas da mãe, mesmo que, aos olhos dela, pareça “estar sempre do contra” e “enxofrar-se, por tudo e por nada”? Poder, pode. Mas não devia. Aos olhos da mãe, claro.

Se é muito difícil ser adolescente e ser filho, ao mesmo tempo, ser adolescente e filho de uma mãe que ocupa muito espaço faz da nossa vida um drama. Ou inferno, mesmo. Porque a mãe nunca cede à primeira. Porque nunca embarca no nosso olhar mais cândido e faz um uso indevido do seu “dedo que adivinha” e, telepaticamente ou seja lá com que super-poderes, acaba sempre a desmascarar-nos, por mais que uma pessoa só tenha faltado a um apoio, ou ainda só esteja a preparar-se para fazer de conta que se esqueceu de lhe mostrar um teste com uma nota que se constipou.

Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta? Não é verdade! A fúria de mãe põe-nos em sentido. E não devia. E o seu lado chato, irrita-nos. E não merecemos. E, depois dela nos levar ao limite quando, no final do dia, nos aconchega a roupa e nos diz, ao ouvido “Meu amor...”, e devíamos vociferar, o que é que fazemos? Desfazemo-nos todos. E não passamos sem ela. Às vezes, há qualquer coisa de irritante nisto tudo. Mas deve ser só da adolescência...

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