"Deixem as crianças ser crianças!!

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As crianças têm cada vez menos tempo para brincar. E passam menos tempo ao ar livre que os reclusos. Isto pode ter consequências sérias no  seu desenvolvimento. É urgente refletir. “Precisamos de deixar as crianças ser crianças”.
A brincadeira, fundamental no desenvolvimento da criança aos mais variados níveis, está “ameaçada” e exige uma atenção especial (e uma mudança radical) por parte de pais e educadores. Caso contrário, e a continuarmos assim, a (falta) de brincadeira vai ter consequências desastrosas no futuro das nossas crianças. O alerta foi lançado no seminário “Revisitar o valor do Brincar”, uma iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Esposende, em colaboração com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e com o Centro de Intervenção Psicológica e Terapêutica, que pretendeu promover a reflexão sobre a importância do Brincar no desenvolvimento infantil.

“Para a criança se desenvolver precisa de brincar”, começou por lembrar o pediatra Hugo Rodrigues, citando estudos que comprovam como “brincar é fundamental para construir o bem-estar cognitivo, físico, social e emocional”, sendo evidentes as vantagens ao nível da criatividade, do desenvolvimento motor, do equilíbrio emocional e da capacidade de resiliência.
Vantagens que, como notou, se acabam por estender aos cuidadores, seja no “reforço das relações” ou porque, ao brincar, “conseguem ver o mundo pelo olhar das crianças” e “entender muito melhor os filhos”. A este propósito, o pediatra defendeu que a brincadeira deve envolver os adultos, seja participando ou, simplesmente, “estar presente”, ou seja, por vezes “estar lá, basta ver, observar…”. Mas atenção, alertou, nesses momentos há que dar-lhes “uma atenção genuína”: “Quando estiverem com as crianças, desliguem do mundo!”


Por outro lado, alertou, “temos que dar-lhes tempo livre” e deixar as crianças brincar de forma criativa, genuína” e “sem regras”, deixando-as inventar as suas próprias brincadeiras. “O brincar não deve castrar a criatividade e a imaginação”. Uma ideia que seria mais tarde reforçada por Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), para quem as crianças “precisam de brincar na rua, de correr riscos e viver situações ousadas”. No fundo, “têm que se tornar mais selvagens”.
E como? Tirando-as de casa, deixando-as inventar as suas próprias brincadeiras, ouvindo-as e deixando-as ter voz ativa. Uma tarefa aparentemente simples mas, nos tempos que correm, cada vez mais desafiante. Na verdade, “é mais difícil brincar que educar”, reconheceu, em jeito de crítica, o pediatra Hugo Rodrigues, deixando um alerta a pais e educadores: “Não se constroem super-crianças!”. Além de que, avisou, “as crianças têm muitos anos para ser adultos e poucos para ser crianças…”
Sem tempo para crescer

As críticas acabariam por ser partilhadas pelo psicólogo Eduardo Sá, que não se cansou de denunciar os atropelos de que são vítimas as crianças no seu direito à brincadeira. “As crianças deviam brincar pelo menos duas horas por dia”, disse, lembrando que “nos últimos 20 anos, as crianças portuguesas perderam oito horas semanais de brincadeira”. E isto é muito grave. “Precisamos de deixar as crianças ser crianças”, disse, garantindo que “é mentira que quem cresce depressa, cresce melhor”.
Acérrimo defensor da brincadeira no jardim de infância, o psicanalista não perdeu a oportunidade de, mais uma vez, criticar os estabelecimentos onde se prefere ensinar a criança a ler ou a escrever e se esquecem as vantagens de outras atividades lúdicas mais enriquecedoras nestas idades tão precoces. “Melhor educação musical significa melhor matemática”, exemplificou, lembrando também que “a educação visual significa melhores competências para o português e a matemática” ou que “quanto mais histórias, mais crianças pensantes”.

Mais. “Uma criança que não é capaz de brincar com o corpo não é saudável”, disse, para sublinhar a importância de explorar o corpo enquanto brinca ou, inclusive, de “andar à bulha”. No fundo, rematou, é a brincar que as crianças “ganham alma”, defendendo a infância como “património da humanidade “ e criticando ainda o excesso de tecnologia e os “maus exemplos” dados pelos pais. Por tudo isto, o psicólogo infantil antevê, com alguma preocupação, um futuro pouco risonho para as nossas crianças. “Estamos a criar os adolescentes mais autistas que a humanidade já viu!”.
Uma preocupação que acabaria por ser partilhada por Carlos Neto, que considerou estarmos a viver uma “decadência da infância” o que, concluiu, faz com que estejamos a viver “momentos de grande preocupação”, onde “ninguém sabe muito bem o que vai acontecer” . Fica o aviso.

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Refetir e experimentar
A importância do brincar no desenvolvimento da criança e do adulto, a utilização educativa e terapêutica da brincadeira e as novas formas de brincar foram alguns dos temas que estiveram em destaque no seminário “Revisitar o Valor do Brincar”.
“Brincar é o melhor remédio!” foi o nome da intervenção de Hugo Rodrigues, pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, e docente na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho e na Escola de Tecnologias da Saúde do Instituto Politécnico do Porto, a que seguiu a palestra “Brincar como património da humanidade” por Eduardo Sá, psicólogo, psicanalista e professor na Universidade de Coimbra e no ISPA. Os “Grupos Aprender, Brincar, Crescer” foram apresentados por Joana de Freitas-Luís, Coordenadora nacional da implementação deste projeto-piloto e “Crianças carentes de Vitamina B" foi o mote da comunicação de Maria José Araújo, professora adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e Investigadora do CIPEM-INET-md e do INED.

Já da parte da tarde, João Amado, professor associado com agregação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, falou sobre “Brincar e modos de ser criança na charneira dos séculos XIX e XX em Portugal”, seguindo-se a mensagem vídeo “Libertem as crianças: Mais autonomia, risco e participação” de Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e, por fim, a intervenção de Helena Sacadura Botte, técnica de Segurança Infantil e Secretária-Geral da APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil, sobre “A liberdade para brincar em segurança.
A terminar, Ana Isabel Veloso, professora no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Ciências dos Videojogos, mostrou como “Jogar  não tem idade”, Nuno Feixa Rodrigues, professor coordenador na Escola Superior de Tecnologia do IPCA – Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, abordou o tema “Criatividade, ensino e jogos digitais”, a que se seguiu “O brincar virtual e desenvolvimento de competências neurocognitivas e psicossociais”, por Carlos Fernandes da Silva, Professor Catedrático no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro e Membro da CPCJ de Mira.

Organizado pela Câmara Municipal de Esposende, em colaboração com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e com o Centro de Intervenção Psicológica e Terapêutica, o seminário “Revisitar o Valor do Brincar” fez parte da iniciativa “Brincar é Coisa Séria!”, que integrou ainda uma Feira do Brincar do Brinquedo. Destinada a refletir sobre a importância do BRINCAR no desenvolvimento infantil e no seu futuro, a iniciativa pretendeu ainda contribuir para a promoção de formas mais saudáveis de BRINCAR, aliando o referido processo reflexivo à possibilidade de as famílias, e a comunidade em geral, experienciarem diversas atividades lúdicas que foram dinamizadas para esse efeito.

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