Dói-me a cabeça!

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Nos adultos encaramo-las como coisa corriqueira, mas nas crianças as dores de cabeça deixam-nos sempre preocupados. Há razões para isso?


Achamos sempre que as crianças não têm idade para ter dores de cabeça, mas a verdade é que são muito comuns. Entre 37 e 51 por cento de crianças até aos sete anos sofre ocasionalmente de dores de cabeça. E o número aumenta para entre 57 e 82 por cento, se falarmos de crianças com menos de 15 anos. Apesar das evidências, por cada criança que se queixa de dores de cabeça há um pai a achar que ela é nova demais e que, por isso, é decerto sintoma de uma doença grave. Felizmente, raramente é o caso.

Mas comecemos pelo princípio: de que falamos quando falamos de dores de cabeça? “Há as dores de cabeça primárias, que são a doença, não traduzindo outros problemas de saúde, e as dores de cabeça secundárias, que são sintomas de outras coisas”, explica a neuropediatra Teresa Moreno, do Hospital Lusíadas Lisboa. E as crianças, tal como os adultos, sofrem dos dois tipos.

Quando se queixam que lhes dói a cabeça, elas não estão a fazer fita (embora as dores possam ser psicossomáticas, diz-nos o psicólogo Rui Guedes, pelo que se a cabeça só dói quando a criança tem de se levantar para ir para a escola, ou quando se senta à mesa para comer, convém tentar perceber o que se passa), nem têm, na esmagadora maioria, nenhuma doença grave que as justifique, mas estão em sofrimento e precisam de ajuda.
“Os pais devem valorizar sempre que há alteração de comportamento”, esclarece Teresa Moreno. Ou seja, “se a criança diz que lhe dói a cabeça, mas continua a jogar à bola ou a correr atrás do cão pela sala fora, é porque a dor não é, certamente, muito intensa”. Já se a criança para de brincar e fica mais sossegada, devemos dar-lhe um analgésico: “Há pais que têm algum pudor em medicar para a dor de cabeça, mas isso não faz muito sentido. Se a criança tiver febre ou uma dor de garganta, dão-lhe Ben-u-ron ou Brufen, porque não o fazem com a dor de cabeça? Não há qualquer necessidade de a criança ficar em sofrimento por mais tempo”, diz a neuropediatra.


Cefaleias primárias
Feitas as contas, cerca de 20 por cento da população pediátrica tem dores de cabeça crónicas, e as suas causas mais frequentes são, curiosamente, as mesmas da idade adulta: cefaleias de tensão e enxaquecas.
O stresse não é exclusivo dos adultos, e a maioria das dores de cabeça crónicas nas crianças, que surgem quase diariamente, estão associadas a fatores nervosos, de tensão. Pode ser um fator evidente, como o divórcio dos pais, uma doença ou morte na família, conflitos com colegas da escola ou dificuldades de aprendizagem, por exemplo; mas também é comum que sejam aspetos mais subtis, como as preocupações com a imagem corporal, a exigência excessiva (auto-imposta ou da parte dos pais), a falta de atividades fora da escola, para desanuviar, ou, pelo contrário, o excesso de atividades extracurriculares. Além disso, os miúdos preocupam-se com o que os colegas e amigos pensam deles, com o que os professores acham da sua prestação, com o que os pais vão dizer da nota do trabalho, com o teste de matemática, com o jogo de futebol ou o torneio de jiu jitsu que se aproxima, com a música que vão ter de cantar na festa de Natal da escola… Uff, não é fácil ser-se criança! E não admira, por isso, que as dores de cabeça se instalem.
A intensidade das cefaleias de tensão é variável, e podem ser mais ou menos constantes ou durar apenas uns 20 ou 30 minutos. Os analgésicos ajudam, mas o mais importante é arranjar formas de aliviar a tensão e a pressão a que a criança está sujeita, seja intervindo diretamente no que a provoca, quando possível, ou procurando uma atividade lúdica regular, que a faça feliz e promova a descontração.

No caso da enxaqueca, as causas são normalmente genéticas, e, quando o médico faz a história clínica da criança, encontra quase sempre antecedentes familiares do problema. Ainda assim, é possível encontrar fatores que desencadeiam as crises, incluindo, mais uma vez, o malfadado stresse, a falta de prática de exercício físico, perturbações do sono, ou até mesmo (embora seja pouco comum) um tipo específico de alimentos. “Cinco por cento das crianças entre os três e os sete anos têm enxaquecas”, diz-nos a neuropediatra Teresa Moreno.
Como está relacionada com fenómenos vasomotores, os sintomas da enxaqueca vão além da dor que se sente. Ao contraírem, os vasos podem provocar perturbações visuais ou de equilíbrio, e, mesmo antes de lhe doer a cabeça, a criança vê luzinhas, cores ou manchas negras, e sente pressão nos ouvidos. É a chamada “aura”, embora nem todos os que sofrem de enxaqueca a sintam. Na fase de vasodilatação, surge a dor intensa, frequentemente acompanhada de náuseas, vómitos, sensibilidade à luz e aos ruídos. É importante um diagnóstico preciso e adequado a cada caso, que permita identificar e minimizar os fatores que desencadeiam os episódios de dor.

Na crise, “trata-se com analgésicos comuns, como o paracetamol ou o ibuprofeno”, refere Teresa Moreno, ao mesmo tempo que explica que, antes dos 10/12 anos, não se aconselha a que as crianças tomem os medicamentos especificamente formulados para as enxaquecas que existem no mercado. No entanto, esclarece, “se as crises forem muito frequentes, nomeadamente mais de quatro por mês, fazemos profilaxia”.
Seja enxaqueca ou cefaleia de tensão, há um “remédio” que esta especialista aponta como muito eficaz: o sono. “Dormir tem, normalmente, efeitos muito positivos na melhoria das dores de cabeça ou enxaquecas”, refere.


Cefaleias secundárias
As dores de cabeça podem também ser sintomas de outra doença, como já referimos. E, nas crianças, isto é realmente muito comum. Gripes, constipações, amigdalite, sinusite… Normalmente basta ter febre para que as dores de cabeça sejam uma possibilidade, mas, nestes casos, melhoram assim que se baixa a temperatura. E também podem estar relacionadas com problemas de visão, principalmente se forem mais intensas no final do dia.
“Se a dor é pouco importante e desaparece quando a criança toma um analgésico, não é necessária qualquer outra intervenção”, adverte Teresa Moreno. “Se for uma dor recorrente, a criança deve ser vista pelo pediatra. E se for uma dor intensa, aguda, principalmente se acompanhada de vómitos ou febre, em que a criança está muito prostrada, há que levá-la às urgências”, termina.

Posto isto, as dores de cabeça podem também ser sintomas de doenças graves, mas, tranquiliza a neuropediatra, “raramente são”. E explica: “O maior medo dos pais quando os filhos se queixam de dores de cabeça é que tenham uma doença no cérebro, um tumor. Mas, a sermos realistas, em caso de tumores há sintomas associados que despertariam a atenção dos pais muito antes das dores de cabeça, como tremores e desequilíbrios”. Ainda assim, Teresa Moreno considera que é importante para a tranquilidade dos pais que o médico verbalize “isto não é um tumor”. E, dentro desse mesmo espírito, refere que “50 por cento das dores de cabeça melhoram depois da consulta, porque diminui a ansiedade que lhes está associada”.


Diagnóstico
“O mais importante é a história clínica”, conta-nos a neuropediatra Teresa Moreno, explicando que gasta o tempo que for necessário para cobrir toda a história clínica e familiar da criança. Este relato inclui também, como é óbivo, todo o histórico das dores de cabeça. “As crianças são fantásticas com os detalhes, e prefiro sempre ouvi-las a elas, em vez de só aos pais. Peço sempre que classifiquem a intensidade da dor, de um a dez, e é impressionante como elas conseguem fazê-lo”, diz a especialista.
Depois, claro, há lugar a um exame físico (as coisas mais ou menos “básicas”, como peso, altura, pressão arterial e pulsação, olhos, pescoço, cabeça, ombros, costas…), seguido de um exame neurológico completo, onde o médico verifica a existência de algum problema com o movimento, coordenação ou perceção.
Se a criança é saudável e as dores de cabeça são o único sintoma que apresenta, não é necessário realizar mais testes ou pedir exames complementares. Só quando o histórico dos sintomas ou os dados da observação deixam o médico com dúvidas sobre a possibilidade de existência de uma doença do cérebro – o que acontece em menos de cinco por cento dos casos –, é que se recorrem a exames de imagem, como TAC ou ressonância magnética.
Portanto, e resumindo, as dores de cabeça nas crianças são, no fundo, tal e qual como as dos adultos: incomodam e podem ser altamente incapacitantes, obrigando a uma escusa das atividades normais do dia-a-dia, mas raramente são, só por si, sintoma de doença grave. Aos pais cabe controlar a ansiedade e valorizá-las na medida certa.


Preparar a consulta

A frequência das dores de cabeça do seu filho preocupa-o e, por isso, decidiu marcar uma consulta no pediatra. Enquanto espera, pode preparar um registo de ocorrências, para que nenhum pormenor fique por referir. A neuropediatra Teresa Moreno aconselha a registar “os dias em que a dor de cabeça aconteceu, a que horas, em que circunstâncias, quanto tempo durou e que repercussões teve na atividade da criança”. O resto apura-se depois, na história clínica e familiar, mas não é tempo perdido se escrever uma lista com os medicamentos, vitaminas ou suplementos que o seu filho toma e, porque não, com algumas perguntas para o médico. Assim certifica-se que nada fica por esclarecer.


Tratar em casa

Os medicamentos de venda livre, como o paracetamol e o ibuprofeno, costumam ser eficazes na dor de cabeça. Mas antes de dar qualquer tipo de medicação ao seu filho, tenha os seguintes pontos em mente:
- Leia atentamente o folheto informativo e utilize apenas a dosagem recomendada.
- Não dê nova dose com mais frequência do que o recomendado, mesmo que a dor não passe.  
- Não dê estes medicamentos à criança mais do que dois ou três dias por semana. O uso diário pode desencadear uma dor de cabeça de ricochete, causada, exatamente, pelo abuso de analgésicos.

Para além dos analgésicos, há outras “técnicas” a ter em conta:
- Descanso.  Encoraje a criança a deitar-se numa divisão escura e sossegada. Muitas vezes, dormir resolve as dores de cabeça.
- Compressa molhada. Enquanto a criança descansa, ponha-lhe uma compressa fresca na testa.
- Comida. Se a criança não come há algum tempo, dê-lhe uma peça de fruta, umas bolachas, um queijinho ou um iogurte. Não comer pode piorar as dores de cabeça.


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