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O prazer de folhear

Era o melhor presente que me podiam dar. Abria-o sempre com delicadeza, quase a medo, sentindo-lhe o cheiro e a textura, adivinhando-lhe a história e as emoções. E deliciava-me em cada parágrafo, cada diálogo, cada ilustração. Lido em escassos minutos, ainda era capaz de voltar mais uma vez ao início para me deixar mergulhar a fundo nos meandros da história, nos traços dos personagens ou nos pormenores dos desenhos. Anos mais tarde, troquei os contos ilustrados por aventuras de letras mais pequeninas, mas a excitação manteve-se: o acariciar da capa, a descoberta do enredo e das  personagens, a espreitadela fugaz às últimas linhas. Nesta altura, já devorava páginas de enfiada, doseava os últimos capítulos e alinhava primorosamente os livros em coleções.

A paixão – com altos e baixos – manteve-se ao longo dos anos, mas nada do nervosismo e do encanto que aquele objeto de “luxo” me causou nos primeiros anos de leitora: os diálogos encenados em voz alta, as ilustrações admiradas (e copiadas!) vezes sem conta, os enredos cobiçados em sonhos, os desfechos inesperados. E como naquela altura a produção livreira infantil era escassa – e o orçamento familiar não suportava o meu ritmo alucinante de leitura – era obrigada a ler… e a reler.

Hoje, o mercado está muito diferente. Abundam autores e ilustradores de qualidade, inventam-se histórias fantásticas e tramas mirabolantes, recriam-se heróis e inventam-se antiprincesas, diversificam-se modelos e formatos (para os mais pequenos há livros para tocar e raspar, com sons, autocolantes, janelas pop-up, para aprender os números e as cores, que se transformam em jogos e puzzles…). Mas, infelizmente, nada disto parece convencer. Passado o fascínio pelos “contos para sonhar”, é cada vez mais difícil atrair as crianças para as aventuras impressas no papel, aquelas em que é (mesmo) preciso juntar palavras, folhear… e não passar apenas o dedo pelo ecrã. Numa sociedade em que o ritmo voraz da tecnologia impera, o livro perde pontos e argumentos.

De quem é a culpa? Dos pais que não dão exemplo ou dos professores que não os conseguem interessar pela leitura? Da concorrência feroz dos ecrãs ou da incapacidade de concentração que cada vez mais nos desvia o olhar? Dos enredos ou dos personagens? Dos autores ou dos editores? Para lá das respostas – e das reflexões que elas impõem – arrisco um prognóstico (ou um desejo?): o livro está condenado a sobreviver. Seja pelo toque na capa, o encanto da trama ou o refúgio em que nos abriga. Afinal, por mais atraentes que sejam os ícones, as imagens, os “displays” e os “clicks”, nada é igual a uma história contada através do simples prazer de folhear.

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