O meu dia do pai e o dia do meu pai

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Boa parte do que quero ser para as minhas filhas reflete também o que o meu pai é para mim. Mas há uma coisa que gostaria de conseguir inverter: a verbalização dos afetos. É que a elas eu consigo dizer o quanto as quero.


Vou dormir até tarde – fica já aqui o pedido feito. As miúdas quererão entrar no quarto, excitadas, para me darem um presente, mas a minha mulher não deixará – fica já aqui o pedido feito. A Abelha Maia, a Dora (a Exploradora), a Patrulha Pata e o Harry mais o seu balde de dinossauros vão todos falar baixinho – fica já aqui o pedido feito. Não terei de ser eu a preparar pequenos-almoços nesse dia – fica já aqui o pedido feito. Pode ser? Por favor... Ficam já aqui os pedidos feitos.

É que este ano o dia 19 de março calha a um sábado. Vocês, pais, sabem o que isso significa. Nem sempre temos o calendário do nosso lado – ao contrario das mães, que têm o dia delas no primeiro domingo de maio, dê lá por onde der. Mas este ano bate num sábado – e em 2017 calha a um domingo. Por isso, a menos que os vossos filhos tenham natação, futebol ou atletismo, a menos que eles sejam bebés de colo, a menos que estejam com alguma das maleitas da época ou da idade, a menos que a noite tenha sido terrível (e, perdido por perdido, já estejam a pé desde as seis da manhã), a menos que vocês tenham de trabalhar, o dia 19 de março é para dormir – é a loucura! – até às nove. Ou nove e meia, se perderem a cabeça e a família cooperar.

Olhando para baixo, isto é o que eu vejo. Olhando para cima, vejo o meu pai e as celebrações alusivas a este dia que houve no passado. As que me lembro. As que dependeram de mim. E aí, caramba, passa-me logo o sono todo que tenho esperança de conseguir recuperar na manhã do dia 19. De há uns anos a esta parte, às vezes vejo-o no dia, outras não. Às vezes passo por lá para lhe dar um beijo, outras não. Às vezes ofereço-lhe um presente, outras não. Às vezes telefono logo de manhã, outras não. Houve até um ano em que liguei já perto da meia-noite (e porque a minha mãe me telefonou à socapa a dar uma descasca). O meu pai faz sempre aquele ar bonacheirão – sinto-o na voz – de quem está agradecido por nos lembrarmos, mas não fica chateado se deixarmos passar o dia. Ele sempre disse que não liga grande coisa à data. E se calhar não liga mesmo... E eu lá fui deixando andar. Um ano, depois outro, outro a seguir...

Só há coisa de dois anos consegui, pela primeira vez na vida, dar um abraço ao meu pai e dizer--lhe “gosto de ti”. Foi numa despedida, antes de me enfiar no carro e seguir viagem, já tinha a porta aberta e tudo. Ele foi apanhado desprevenido, bateu-me duas vezes no ombro, desviou a cara para eu não lhe ver as lágrimas e desejou que eu me pirasse dali depressa tanto quanto eu quis pôr-me a andar. Foram três palavras, mas demoraram anos que se fartaram (quase quarenta) a sair.
Vejo muito do meu pai naquilo que sou. Cada vez mais, à medida que ele envelhece e eu fico mais velho (reparem no eufemismo). Boa parte do que quero ser para as minhas filhas reflete também o que ele é para mim. Mas há uma coisa que gostaria de conseguir inverter: a verbalização dos afetos. É que a elas eu consigo dizer o quanto as quero. E espero que elas cresçam habituadas à normalidade de expressarem o que sentem. Mas com ele é mais difícil. Pode ser que esta catarse de 3200 caracteres me ajude a repetir o gesto. O terceiro sábado de março pode ser um bom pretexto.


Autor do blogue A Farmácia de Serviço (www.afarmaciadeservico.com) e editor executivo da Notícias Magazine, onde assina semanalmente as crónicas “Vida em Comum”.


*Crónica da revista Pais&fikhos de março 2016.


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