Açucar: doce veneno

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Problemas de dentes e excesso de peso são as faces mais visíveis do consumo excessivo de açúcar pelas crianças, mas estão longe de ser as mais perigosas. Num mundo em que o doce é uma recompensa, há que mudar mentalidades e hábitos alimentares, porque o excesso de açúcar no sangue não dói, mas mata.


Não vale a pena abordarmos a questão com pezinhos de lã: “O açúcar em excesso é um perigo para a saúde da criança, pelo que os alimentos que contêm adição de açúcar na sua preparação devem ser consumidos o mínimo possível e o mais tarde possível, não devendo fazer parte da alimentação do dia-a-dia”. Quem o diz é Rosa Arménia Campos, coordenadora da Unidade de Endocrinologia Pediátrica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. E, no entanto, um dos poucos estudos em Portugal relativamente a esta matéria – EPACI 2012 – mostra que, aos dois/três anos de idade, as bebidas açucaradas e as sobremesas e doces são consumidos diariamente por 17 por cento e dez por cento das crianças, e que o consumo tende a aumentar no segundo para o terceiro ano de vida. “Estes dados são preocupantes”, refere a pediatra, “porque estamos a falar de crianças muito pequenas, ou seja, em idades em que os hábitos alimentares estão a ser adquiridos, e, na maioria dos casos, acompanham a criança para o resto da vida”.

Portanto, as crianças portuguesas consomem muito mais açúcar do que o desejável. Isso inclui a substância cristalina branca ou acastanhada com que adoçamos a limonada ou com que batemos o bolo, mas também hidratos de carbono que fornecem energia e toda uma série de palavras terminadas em –ose e –itol: glicose, frutose, dextrose, lactose, galactose, sorbitol, poliglicitol, entre outras. Estas moléculas existem naturalmente na comida, como a fruta, os vegetais, o leite, ou podem ser adicionadas durante o processo de fabrico de alimentos processados.

Mas o açúcar, por si só, não é tóxico (ao contrário do sal, por exemplo). Pelo contrário, explica a pediatra Rosa Arménia Campos: “O açúcar é uma importante fonte de energia para o nosso organismo, e, portanto, indispensável ao normal metabolismo celular. É o combustível que precisamos para um normal crescimento, desenvolvimento e atividade física. No entanto, numa criança saudável, o normal metabolismo celular é assegurado pelo açúcar presente naturalmente nos alimentos, tais como cereais, leite e derivados, frutas e legumes, e que fazem parte de uma alimentação saudável”.


Perigo à espreita
De uma forma direta, o açúcar limita-se a ser prejudicial para os dentes, constituindo a causa mais comum de dor forte nas crianças. Para além disso, comer açúcar moderadamente, sob a forma de hidratos de carbono complexos, não só não é nocivo como é essencial para o corpo humano, conforme explicou a especialista. Ainda assim, se a anergia ganha pelo açúcar não for usada, nomeadamente porque se consumiu em excesso, o corpo vai armazená-lo como gordura, o que pode levar à obesidade, que por sua vez pode desencadear diabetes tipo 2, porque o corpo torna-se resistente à insulina. Por outro lado, alimentos com açúcar adicionado, que não está presente naturalmente, pioram esta situação, porque contêm calorias vazias, sem qualquer outro benefício a não ser fornecer energia. Se comemos mais açúcar do que os nossos níveis de energia precisam, então os nossos corpos têm de encontrar outra coisa para fazer com ele, criando toda uma série de problemas. “Para além das cáries dentárias e da obesidade, o açúcar em excesso é responsável pelo aparecimento de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, gota, e, a mais longo prazo, doenças cardiovasculares que causam enfarte precoce do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Está também associado a certos tipos de cancro e à hiperatividade com défice de atenção”, refere Rosa Arménia Campos. 

A indústria alimentar é exímia a “esconder” o açúcar adicionado aos seus produtos sob diferentes nomes. Mas açúcar é açúcar, pelo que convém estar muito atento aos rótulos e a ingredientes como caldo de cana, concentrado de sumo de fruta, dextrina, dextrose, goma-arábica, malte de cevada, maltodextrina, maltose, mel, melaço, néctar de agave, rapadura, xarope de milho, xarope de ácer, xarope de arroz, xarope de alfarroba, xarope de malte, xarope simples… E também temos de ter em atenção os falsos amigos: “Para além dos alimentos pertencentes à categoria dos ‘doces’ (bolos, bolachas recheadas, gomas, marmeladas, etc.), há vários alimentos considerados saudáveis que, na verdade, contêm uma elevada quantidade de açúcar na sua composição e que são prejudiciais. É o caso, por exemplo, de sumos naturais, barras de cereais energéticas, iogurtes com sabor, leites aromatizados, cereais de pequeno-almoço, adoçantes como a dextrose, frutose e lactose, assim como molhos para saladas e alguns alimentos salgados”, refere a pediatra. Além disso, mesmo os açúcares não processados podem ser nocivos, se não houver equilíbrio no consumo dos nutrientes que fazem parte de uma alimentação saudável, conforme explica Rosa Arménia Campos: “Se a balança pender mais para o lado dos alimentos ricos em açúcares, como, por exemplo, o consumo exagerado de frutose contido nas frutas, também pode levar a alterações metabólicas prejudiciais à saúde”.


O vício do açúcar
De forma a que a espécie humana sobreviva, coisas como comer, fazer sexo e sentir carinho pelos outros têm de ser entendidas pelo cérebro como agradáveis, para que estes comportamentos sejam reforçados e repetidos. A comida é, por isso, considerada pela neurociência como uma “recompensa natural”. Mas, claro, nem toda a comida é igualmente recompensadora. A maioria de nós prefere alimentos doces a alimentos ácidos e amargos, talvez porque o leite materno – o nosso primeiro alimento – contém açúcares, ou talvez porque, em termos evolutivos, o nosso cérebro informa-nos que os alimentos doces são uma fonte de hidratos de carbono e de energia para o nosso corpo.
Ao ativar o sistema de recompensa do cérebro, o açúcar cria adição. Mas, ao mesmo tempo, o cérebro torna-se tolerante ao açúcar, o que significa que precisamos de consumir cada vez mais para atingir o mesmo estado de “euforia”. De facto, há cada vez mais evidências neuroquímicas e comportamentais que sugerem que o açúcar é viciante, atuando na via de recompensa do cérebro da mesma forma que a nicotina e a heroína. Tal como as drogas, o açúcar liberta dopamina no cérebro. E como hoje é praticamente impossível encontrarmos alimentos processados e preparados que não contenham açúcares adicionados para dar sabor, preservar, ou ambos, e como introduzimos o açúcar demasiado cedo na vida das nossas crianças, ficamos viciados sem dar por isso.


Entretanto, no nosso corpo
Quando digerimos o açúcar, enzimas localizadas no intestino delgado decompõem-no em glicose. Esta glicose é depois libertada na corrente sanguínea, onde é transportada para células de tecido nos nossos músculos e órgãos e convertida em energia. As células beta do pâncreas monitorizam constantemente a quantidade de glicose na corrente sanguínea e libertam insulina para a controlar. Isto significa que se consumirmos mais açúcar do que o nosso corpo precisa naquele momento, ele pode ser armazenado para mais tarde, mantendo os níveis de açúcar no sangue constantes. Se o corpo deixar de produzir insulina ou não produzir a suficiente, ou se as células se tornarem resistentes à insulina, há risco de diabetes, com os níveis de açúcar no sangue a subirem para níveis perigosos.

Então, porque temos desejos de açúcar? Depois de ingerirmos uma grande quantidade de hidratos de carbono, o açúcar no nosso sangue dispara, e ficamos com os níveis de euforia e de energia nos píncaros. A isto segue-se uma quebra, quando a insulina desvia o açúcar do sangue para os músculos. Contudo, diferentes formas de açúcar criam efeitos diferentes. O açúcar de mesa dá um pico muito mais rápido do que os hidratos de carbono complexos, por exemplo. Se saltarmos refeições, os níveis ficam baixos e isso faz com que sintamos desejo de comer hidratos de carbono simples, que nos darão o tal pico mais rápido. Mas se consumirmos grandes refeições contendo açúcar, o corpo reage produzindo grandes quantidades de insulina para o processar, e, uma vez terminada a refeição, podemos ter um excesso de insulina na corrente sanguínea, o que faz com os níveis de açúcar desçam e com que tenhamos, novamente, vontade de comer açúcar.


De pequenino…
Posto isto, é urgente limitar o consumo de açúcar dos nossos filhos. Isto não significa proibir tudo – o fruto proibido é o mais apetecido... –, mas sim reservar os doces processados para as ocasiões especiais, e também não exagerar nos naturais. A pediatra Rosa Arménia Campos deixa algumas dicas de como agir: “O problema do excesso de açúcar na alimentação infantil deve ser tratado junto da criança e família, dos cuidadores em geral (médicos, professores) e também das instituições governamentais. Em casa toda a família deve aderir aos hábitos alimentares saudáveis. Ter água e fruta na mesa em todas as refeições, em vez de sumos e sobremesas doces. Durante o primeiro ano de vida, evitar iniciar a diversificação alimentar com alimentos doces, como por exemplo as papas e as frutas, que vão condicionar o paladar futuro da criança, uma vez que o açúcar cria dependência. Não colocar bolachas, pão com recheio de chocolate, leite achocolatado e refrigerantes na lancheira da escola. Evitar a todo o custo o uso de açúcares refinados, quer na sua forma simples (açúcar de mesa), quer na forma de alimentos industrializados. Estar atento às informações nutricionais dos produtos industrializados e evitar os que contêm maior quantidade de açúcar (ler os rótulos e preocupar-se com a quantidade de glícidos, dextrose, maltose, frutose, xarope de milho, por exemplo). Os nossos governantes também podem ser implicados nesta luta, proibindo a venda de produtos alimentares nocivos em instalações públicas como as escolas, aumentando os impostos sobre esses alimentos nocivos e investindo na formação dos cuidadores da criança e profissionais de saúde”.

Não é um trabalho fácil, e em crianças maiores, é normal que se encontre resistência. Mas a saúde dos nossos filhos tem de ser a nossa prioridade máxima, e, com isso em vista, todos os sacrifícios valem a pena.


Um pouco de história

O nome químico para o chamado açúcar refinado ou açúcar de mesa é sacarose, e é composto por duas moléculas de hidrato de carbono, a glicose e a frutose (metade de cada). E isto é assim independentemente de o açúcar ser branco, amarelo, de origem biológica ou cheio de pesticidas.
Até ao início do século XIX, o açúcar refinado era um produto caro, pelo que a maioria das pessoas não ingeria muita quantidade. Com a descoberta, ainda no final do século XVIII, de que era possível obter açúcar cristalizado a partir da beterraba-sacarina, e, ao mesmo tempo, com o aumento da produção de cana de açúcar, o preço desceu e, em pouco tempo, o açúcar passou de produto de luxo a alimento do quotidiano.
No início do século XX o açúcar era já uma grande parte da dieta comum, mas, ainda assim, a maior parte das pessoas ingeria apenas cerca de 11 quilos por ano. Atualmente, este consumo mais do que quadruplicou.


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