O teu lugar para sempre

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O teu lugar para sempre
BEBÉ IMAGINADO
Quando um bebé nasce morto ou vive pouco tempo:
Cristina, uma história na primeira pessoa.
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Para ser superado, o luto precisa de lágrimas, palavras e tempo. Muito tempo. Também é proibido manter o silêncio na família sobre a morte de um filho. a perda exige que a criança seja  falada e evocada, criando-lhe um espaço eterno de memórias no coração dos pais e dos irmãos.     

 

No auge da dor, o futuro não existe. Ficamos suspensos num tempo diferente, que é só nosso, paralisados entre o choque da perda e a incredibilidade do horror que ela contém. Nada existe para lá desse momento, em que subitamente tudo parou e se fez o silêncio.

Depois, diz quem já passou pelas fases do luto, à medida que o tempo começa lentamente a rodar, o futuro regressa, e é sinal de que a aceitação está a chegar e o apaziguamento também. Devagar, a ideia de que há vida para lá do sofrimento, começa a ganhar corpo. As memórias do outro, essas, não se perdem nunca e o espaço por elas ocupado no mais fundo de nós próprios, são o sinal vivo de que o amor é eterno. Assim é o mistério que envolve a perda daqueles que amamos. Profundo e insondável. Não imaginamos as extensões invisíveis dos sentimentos que trazemos dentro de nós, não há limite para o alcance dos longos braços da dor e dos vínculos que tecemos com os outros ao longo do tempo e da vida.

“Sabe-se mais sobre a depressão do que sobre o luto”, esclarece Alexandra Coimbra, psicóloga clínica e psicanalista. Talvez por isso, tendemos a pensar “que deve ser ultrapassado total e rapidamente”, subestimando as emoções que se escondem por detrás deste processo, sem imaginar o “tempo que elas perduram”. Mas de facto perduram, é preciso tempo para que se tornem menos intensas, por vezes muito tempo mesmo. Para alguns, tarda a aceitação da perda, para outros ela nunca chega e o tempo do luto demora uma vida inteira, sem que as emoções se atenuem ou deixem de ter expressão.


ASSUNTO INCÓMODO

Pode haver lutos não terminados, em que o futuro acaba por nunca chegar, mas muitos conseguem aceitar e sobreviver à perda de um ser amado, mantendo vivas as boas memórias, em honra do amor que lhe tiveram. Em ambos os casos, a palavra alivia e pode ajudar à cura, como aliás acontece em qualquer processo terapêutico, sobretudo se, no fundo da sua dor, a pessoa não desistiu verdadeiramente de viver.

Acontece que nem todos temos “veia” terapêutica para ouvir, conter e acalmar o sofrimento dos outros, sem contar que muitas vezes estamos indisponíveis para a suster, pelas mais variadas razões. Mesmo no caso em que as intenções são as melhores, as palavras que usamos podem não ser as mais certeiras e apaziguadoras sendo mesmo, por vezes, profundamente demolidoras. Finalmente, a morte é incómoda e também por isso, assunto tabu para amigos, conhecidos, e mesmo para a família. Cria embaraços e desconfortos, o que aliás também se aplica em relação à partilha e escuta de todos os desgostos, todas as tristezas, a não ser que nós próprios tenhamos passado por tudo isso e cultivemos o gosto e a capacidade para nos colocar na pele dos outros.

A verdade é que, na grande maioria das vezes, faltam-nos as palavras certas  para abordar diretamente a perda que atingiu o outro, não sabemos o que fazer, porque não é fácil falar de sentimentos e de tristezas profundas, nem testemunhar e conter as suas lágrimas e a dor da sua perda. Isto, muitas vezes por pudor ou distância, mas também por medo de nos deixar ir no fluxo de emoções que tememos.


UM LUTO DIFÍCIL

Pudor, distância e medo de não conseguir lidar com a dor alheia, manifestam-se não raramente quando morre um filho de alguém que conhecemos. Mas esta morte é a pior das dores, qualquer que seja a idade em que se perdeu esse filho. Nestas circunstâncias, o sofrimento não se quantifica nem se qualifica. No entanto, para além do pudor que possamos sentir e da dificuldade em encontrar as palavras certas, por vezes tendemos a desvalorizar a dor de um pai ou de uma mãe que perdeu um bebé que nasceu morto, ou que morreu subitamente por doença ou outra razão desconhecida. Por vezes, a mãe que acaba de perder o filho nestas circunstâncias, “está ansiosa por falar”, mas muitos de nós retiramos-lhes pura e simplesmente o direito de chorar as suas lágrimas. Com a crueldade que, muitas vezes, habita as melhores intenções, dizemos-lhe “que se ocupe com outras coisas”, que “se distraia”, que “não se deixe levar por sentimentos mórbidos” e que “pense em coisas mais alegres” como se fosse possível inventar pensamentos divertidos numa situação destas. Desejar intensamente falar do desgosto de uma perda, no caso de um filho muito desejado, procurando desesperadamente um consolo nas outras pessoas, que se recusam a ouvir, “é muito violento”, acentua Alexandra Coimbra.

Inconscientes desta violência, caímos na tentação fácil de acreditar que por ter sido tão curta a sua vida e tão “poucas” as memórias que deles se guardam, não houve tempo para criar laços com estes bebés. Serão, portanto, rapidamente esquecidos e substituídos. Nada mais longe da verdade.

Quando se trata da morte súbita de um bebé com poucas horas ou poucos meses de vida, ou ainda de um nado-

-morto, o luto é difícil, garantem os especialistas.

Por ser tão inesperada e por inspirar um sentimento tão profundo de impotência nos pais, por implicar um mergulho tão violento na dor, minutos ou horas depois da expectativa intensa do seu nascimento, esta morte que chega demasiado cedo, “dá lugar a todos os fantasmas, a todas as culpabilidades imaginárias”, afirma Claude Halmos, psicanalista francesa. Uma culpa que, aliás, é recorrente nestas situações. As mães, sobretudo, interrogam-se amargamente sobre a sua incapacidade de dar à luz um bebé saudável e imaginam-se condenadas a outros insucessos no futuro. À culpa misturam-se a confusão, o medo, a cólera e a desorientação. Em certas situações, também há rancor e inveja face às outras mães que acabam de ter os seus bebés saudáveis.





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