Vencer a dislexia

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Apesar dos mitos e preconceitos, o diagnóstico de dislexia é hoje mais frequente e precoce. Com o devido apoio e muita perseverança, as dificuldades de aprendizagem são quase sempre ultrapassadas. E em lugar da frustração surge a alegria da conquista.



Foi de “coração partido e aflito” que os pais de Inês, na altura com cinco anos, decidiram procurar uma opinião profissional. Na sala de aula, Inês revelava dificuldades objetivas e a sua autoestima caíra “a pique”. Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse crescida, Inês respondia que “não queria ser nada”, tal era o seu descrédito. A preocupação dos pais era evidente, mas quando ouviram da psicóloga que a sua filha “parecia ter quase todos os fatores de risco possíveis para dislexia” sentiram um alívio. “Afinal, o nosso adversário tem nome”, pensou a mãe, Carla. Com a entrada para o 1º ciclo, “tudo piorou” e a meio do primeiro período a Inês “queria morrer” para não ter de ler na sala de aula. “No Natal, a Inês ainda não lia e só nomeava metade das letras do alfabeto”. Nessa altura, com o diagnóstico confirmado, Inês iniciou o seu processo de “recuperação”.  As batalhas foram sendo ganhas aos poucos, com a ajuda e o apoio incondicional dos pais. Na Páscoa, a Inês já lia. “Foi aprendendo a aceitar-se e a aceitar o tipo de trabalho que tinha de fazer”, conta Carla. E, acima de tudo, “voltou a sonhar”. O mais extraordinário foi ver como esta “fisioterapia para o cérebro” se refletiu em todos os aspetos da vida da Inês, “mesmo naqueles que aparentemente não estavam relacionados”. Inês, Carla e a psicóloga que as acompanha continuam a trabalhar juntas, “confiando que, com calma e persistência tudo se consegue, mesmo o que de início parecia inultrapassável”.


A história de Inês é apenas um exemplo entre inúmeras crianças que, todos os dias, enfrentam dificuldades de aprendizagem, frustração perante o insucesso e, muitas vezes, desânimo e incompreensão. Em Portugal, estima-se que cerca de 70 por cento das crianças com dificuldades de aprendizagem têm dislexia. Estes alunos “não são preguiçosos, nem imaturos, não têm problemas visuais ou posturais, não são pouco inteligentes, nem é por não gostarem de ler que têm dificuldades”, afirma Leonor Ribeiro, técnica superior de Educação Especial e Reabilitação e coordenadora do Núcleo de Dislexia do Cadin (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil), explicando que a dislexia “é uma dificuldade crónica, que se manifesta pela dificuldade em aprender a ler, sem que tal esteja relacionado com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais ou as alterações sensoriais”. Este défice tem uma “base neurobiológica, ou seja, existem alterações na estrutura e funcionamento neurológico” e também influências genéticas.


Intervenção precoce

As crianças com dislexia “apresentam uma ‘disrupção’ no sistema neurológico, que dificulta o processamento fonológico e o consequente acesso ao sistema de leitura automática”, acrescenta a psicóloga educacional Paula Teles. Esta dificuldade com as palavras “é mais alargada do que nós pensamos: não é só em relação à linguagem escrita, como também à linguagem oral”. A dificuldade de leitura é precedida de “dificuldades mais ou menos marcadas a nível da fala”. Por isso, “já no pré-escolar é possível sinalizar algumas destas limitações”, alerta Paula Teles, chamando a atenção para a importância da intervenção precoce: quando uma criança “inicia a reeducação aos quatro, cinco anos a recuperação é mais rápida”. Segundo a especialista, e diretora da Clínica de Dislexia, “quanto mais tarde se inicia o trabalho, mais demorada é a recuperação e muito do défice fonológico nunca é recuperado”.

Para os pais de José Miguel, os “problemas” começaram cedo: “recordo-me de sermos chamados para uma reunião com a educadora (ainda na sala dos meninos de um ano) sobre o que ela descrevia como ‘ele põe a sala em alvoroço’, problemas estes que foram contínuos e que nos habituámos a apelidar como ‘problemas de comportamento’”. Já noutro colégio, aos cinco anos, a educadora aconselhou os pais a procurarem o apoio de uma psicóloga, dadas “as evidências de dificuldade de aprendizagem e comportamentos de recusa na elaboração das atividades propostas na sala”. Carla e Ricardo seguiram o conselho e o acompanhamento de psicologia e terapia educacional iniciou-se aos seis anos, já no 1º ano.

“Aprendemos então que o nosso filho nunca teve problemas de comportamento, mas sim uma profunda frustração por não acompanhar as atividades e o ritmo de aprendizagem proposto na sala de aula, causando posturas comportamentais desadequadas até no seio familiar e com os outros amigos”, contam os pais.

De facto, confirma Leonor Ribeiro, o que as crianças disléxicas verdadeiramente necessitam é de um “apoio específico e de adaptações no processo de ensino-aprendizagem, para que consigam ter sucesso”. Até porque, quando este apoio tarda, a frustração rapidamente se instala.

“É fundamental intervir”, defende Paula Teles, explicando que “assim que a criança começa a ver, logo no primeiro ano, que tem dificuldades sente uma enorme frustração”. E se não tiver o apoio de que necessita “essa frustração vai aumentando”.



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