Mesa, campo de batalha


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O seu filho não quer comer? Descartados eventuais problemas de saúde, saiba que não está a travar uma batalha pela comida, mas sim pelo poder.

No que diz respeito à alimentação dos seus filhos, as mães só mudam de endereço. Por alguma razão, estão sempre preocupadas se eles comem o suficiente. Quem nunca se sentou ao lado do filho, de garfo em riste, a implorar “come só mais este pedacinho de frango”, que atire a primeira pedra. Mas a verdade é que, na comida como no resto, quanto mais o progenitor empurra, mais a criança puxa. É a lei da vida. Se estiver constantemente a dizer ao seu filho “come, come, come”, há probabilidades elevadíssimas de ele não comer nada. A angústia dos pais relativamente à alimentação dos filhos tem também a sua génese num equívoco sobre o seu papel enquanto progenitores, que urge esclarecer: muitos pensam que fazer a criança comer faz parte das suas obrigações. Não faz. A obrigação dos pais é prover alimentos nutritivos para os filhos, e certificarem-se de que esses alimentos estão disponíveis. Comerem-nos? Isso já é da responsabilidade dos filhos.

Assim sendo, como é que se pode lidar com estas crianças que parecem nunca ter fome, ou nunca gostar de nada do que se lhes põe à frente? A primeira regra é evitar guerras: “Jamais algum pai ou mãe venceu a batalha da comida”, alerta Ariane Brand, pediatra e coautora do livro “Como devo alimentar o meu filho”.
De acordo com a pediatra, as recusas alimentares na infância são frequentes, atingindo os 25-30 por cento das crianças, mas apenas num ou dois por cento dos casos se tratam de problemas de saúde sérios, sendo a grande maioria crianças saudáveis e bem nutridas. “O ato de comer depende de capacidades motoras, digestivas, e de condicionantes sociais complexas, sendo ainda influenciado pelo temperamento da criança e pela sua relação com a família”, explica. Tendo isto em conta, é fácil perceber como a mesa pode servir de disfarce para outros problemas entre os pais e a criança, e como o que todos achavam ser uma preocupação com a nutrição é, muitas vezes, uma preocupação com a disciplina.

Escolha as suas batalhas

As crianças dependem dos adultos para quase tudo, e desde muito cedo que veem na comida uma forma de ter voz, de impor a sua vontade. E se descobrem que este é um assunto que mexe com o humor dos pais, vão certamente jogar com isso. Por isso, o psicólogo Rui Guedes recomenda que não se dê a entender à criança que estamos preocupados com os seus hábitos alimentares: “Não discutam esse assunto à frente da criança e reajam com naturalidade se ela se recusa a comer, como se isso não vos afetasse minimamente”, diz. “Seja para vos desafiar ou para ter a vossa atenção, o certo é que, se percebe que a questão da alimentação vos afeta, o vosso filho vai aproveitar-se disso”.
A uma dada altura, o problema acaba por, inevitavelmente, evoluir para algo muito maior do que o facto da criança comer bem ou não, transformando-se num jogo de poder. “Quem vai vencer, o vosso filho ou vocês? Será que o vão conseguir atazanar até que ele coma, ou, pelo contrário, ele mantém a recusa até vocês o deixarem em paz?”, pergunta o psicólogo. Mas a resposta pouco interessa, uma vez que, evidentemente, cabe aos adultos acabar com a luta: “A não ser que pretendam amarrá-lo e alimentá-lo por via intravenosa, o vosso filho pode sempre ganhar esta guerra de poder”, brinca Rui Guedes, “pelo que acabem com isso já. Há demasiado stresse envolvido na alimentação do vosso filho, e cabe-vos a vocês normalizarem esta área da vida dele. Se tiver fome, come, se não tiver, não come. Se não o encherem de doces e snacks nos intervalos das refeições, é garantido que até ao final do dia há de comer alguma coisa do que lhe derem”.
Portanto, se a criança não quer comer, deve agir de forma natural, sem se zangar e sem a tentar obrigar. Porque forçar uma criança a comer é contraproducente, explica o psicólogo: “O conflito em torno das refeições produz angústia e frustração tanto nos pais como nos filhos, e fazem com que a criança se ressinta e perca o prazer de se alimentar”.
Saciedade à escala

“Os pais têm que parar para pensar no que é que os leva a dizer que a criança come pouco”, afirma a nutricionista Maria Paes Vasconcelos. “Fizeram as contas? Consideraram as necessidades da criança? É pouco provável. Normalmente o que acontece é que o que a criança come não corresponde às expectativas dos pais, ou não é o mesmo que o primo ou o filho do vizinho. As crianças são pequenas, têm estômagos pequenos, é suposto comerem pouco”, reforça. Que é como quem diz: são os pais que têm que se adaptar; é o adulto que serve que tem que passar a servir menos. Se, sistematicamente, a criança deixa comida no prato, é porque não precisa de tanto. Além disso, “se se dão duas ou três conchas de sopa a uma criança no início da refeição, depois não se pode esperar que coma o segundo prato como se ainda não tivesse comido nada!”.

Convém também que os pais tenham presente que nós todos – crianças incluídas, portanto – “temos saciedade por volume e por tempo”, esclarece Maria Paes Vasconcelos. Ou seja, para além da questão da quantidade de alimento mencionada em cima, há também a questão do tempo passado à mesa: “Cada criança tem o seu ritmo, mas, por norma, ao fim de meia-hora ou 45 minutos à mesa, já não vale a pena continuar lá, pois a criança não vai comer mais”.
Acima de tudo, conclui a nutricionista, “não adianta nada discutir, nem forçar, nem fazer dramas, e o sentido de humor é essencial”. E dá um exemplo prático: “Imaginemos que a criança está a comer peixe e encontra uma espinha no prato. Se a reação dos pais for ‘oh meu Deus, uma espinha, que horror, filho, desculpa, podias ter-te engasgado’, da próxima vez que a criança encontrar uma espinha no prato, vai fazer um drama, gritar e afastar a espinha para o lado como se ela o fosse atacar a qualquer momento. Uma alternativa mais saudável é a resposta dos pais à espinha que o filho encontrou no prato ser ‘ah, deixa-me ver se eu também tenho alguma; vamos fazer um jogo, ganha quem encontrar mais espinhas!’. E assim todos se divertem, e a criança percebe que ter uma espinha no prato não é o fim do mundo”.
Os gostos também se discutem
Também é comum, entre os dois e os cinco anos, as crianças desenvolverem neofobia alimentar. Calma, não se trata de nenhuma doença grave, mas apenas de uma resistência natural a alimentos novos. E, curiosamente, a sua origem parece estar num mecanismo de defesa evolucionário da própria espécie, conta-nos a pediatra Ariane Brand: “Nestas idades a criança já tem alguma autonomia motora, e, ‘na selva’, corria o risco de morrer envenenada, ingerindo alimentos potencialmente venenosos”.

Como ultrapassar esta situação? “Vale a pena ser perseverante”, assegura a nutricionista Maria Paes Vasconcelos. “Os alimentos que a criança não quer provar, ou que diz que não gosta sem sequer provar, têm que lhe ser colocados no prato, mesmo que ela não os coma. E, claro, todas as outras pessoas à mesa têm que os comer. O processo das crianças ‘aprenderem’ a gostar de um alimento é lento, mas recompensador”, afirma esta profissional.
Ou seja, não devemos deixar de oferecer alimentos novos porque a criança os recusa. Se não colocarmos constantemente alimentos novos à sua disposição, ela não aprenderá a comê-los, e a lista de alimentos que não come/não gosta continuará a crescer.
Neste campo dos “gostos”, Maria Paes Vasconcelos afirma ainda que não devemos permitir que a criança diga “não gosto” (ou “não aprecio”, como alguns pais preferem, mas que no fundo vai dar exatamente no mesmo). “Se lhe ensinarmos que não se diz ‘não gosto’, ela hoje recusa determinado alimento, mas para a próxima vez que ele for servido já se esqueceu que, em tempos, não o quis comer. Enquanto se ela disser ‘não gosto’, e, principalmente, se os pais reforçarem essa ideia – ‘Eu sei que não gostas, mas comes menos’, ou ‘Não gostas, mas vais ter que comer um bocadinho’ –, a criança fixa, decora, e depois torna-se muito mais difícil que coma esse alimento”, explica. E continua: “Claro que pode perfeitamente haver um alimento de que a criança não gosta mesmo, mas aqui entra o bom senso dos pais, pois é fácil perceber se a aversão da criança é genuína”. Além disso, é também importante que os pais, que fazem as compras, se lembrem que a criança tem que provar para aprender a gostar, pelo que não se podem esquecer de incluir na lista os alimentos de que eles próprios não gostam.

Keep calm and…
...confie no centro de apetite do seu filho. Por mais que nos custe acreditar, a verdade é que o cérebro das crianças certifica-se de que elas comem as calorias necessárias para um crescimento saudável. Aos pais cabe servir refeições equilibradas e saudáveis, que a criança comerá se tiver fome, caso contrário esperará pela próxima oportunidade. Há, portanto,  que respeitar o apetite da criança (ou a falta dele) e relaxar.
O que não vale é dar comida na boca de uma criança que já se sabe alimentar sozinha. “Alimentar-se é da responsabilidade da criança, e retirar-lhe essa responsabilidade, pegando os pais no garfo, é mau para todos, mas especialmente para a criança”, refere o psicólogo Rui Guedes. E também não vale fazer comida diferente para a criança, salvo se ela tiver algum tipo de alergia, claro. “A partir do ano de idade a criança pode comer a refeição da família, e é isso que deve acontecer. Evidentemente que as suas preferências devem ser tidas em conta, mas não faz qualquer sentido preparar outra refeição para a criança, só porque já é garantido que aquela ela vai comer. Isso cria péssimos hábitos”, diz Rui Guedes. Além disso, continua, “não devemos discutir comida com as crianças, mas é muito importante que discutamos valores, e recusar-se a provar aquilo que a mãe (ou o pai) passou horas a cozinhar, fazendo-os sair da mesa para ir preparar outra coisa, revela uma preocupante falta de consideração pelos outros”.
A nutricionista Maria Paes Vasconcelos também refere que “a partir do momento em que se faz o prato diferente para o filho, está-se a aceitar e a sancionar esse comportamento. E entra-se num ciclo vicioso, uma vez que a criança come só o que gosta e só gosta do que come”. Esta é mais uma das áreas da vida da criança para a qual não há fórmulas mágicas. Mas há dicas, há ideias, há persistência, e, acima de tudo, há bom senso e sentido de humor. Estes ingredientes bem misturados e temperados com amor e paciência, resultam numa refeição irresistível…


Quando a saúde está em causa

Como referimos logo na abertura, este texto refere-se a crianças cuja relação difícil com a comida não tem origem em problemas de saúde. As consultas periódicas com o pediatra chegam para assegurar se a criança está a crescer bem ou não, mas, ainda assim, Ariane Brand deixa-nos alguns sinais a que os pais devem estar atentos:

- Alterações do estado geral de saúde
- Perdas de peso abruptas
- Atrasos no desenvolvimento global ou motor
- Dificuldades de mastigação e de deglutição
Nestes casos, o pediatra faz uma avaliação do desenvolvimento estaturo-ponderal (relação entre o peso e a altura), em função das curvas de crescimento, determinando o estado de nutrição da criança. E também uma avaliação global do desenvolvimento e da capacidade de coordenação da musculatura da boca e da face. Pode ser também necessário fazer um exame neurológico completo, exames radiológicos e, eventualmente, análises ao sangue, à urina e às fezes.
No entanto, relembramos que o mais comum é que as crianças cujos pais dizem que “não comem nada” estejam de perfeita saúde.


Dez mandamentos

A pediatra Ariane Brand dá 10 conselhos para lidar com a recusa alimentar:

1 - As crianças necessitam de rotinas e de regras. Dentro do possível, as refeições devem ser servidas sempre à mesma hora e com as mesmas regras à mesa, iguais para toda a família. Ofereça as três refeições principais e duas refeições pequenas: um segundo pequeno almoço e um lanche a meio da tarde.

2 - Respeite as sensações de fome e de saciedade do seu filho. Não obrigue a criança a comer sem fome. Conheça as necessidades calóricas da sua criança e saiba que uma criança pode perfeitamente ficar bem alimentada com poucos alimentos, desde que variados e bem escolhidos.

3 - Não foque as suas atenções na quantidade, mas na qualidade de alimentos ingeridos pelo seu filho. Aprenda a oferecer-lhe quantidades adequadas à idade dele.

4 - Ofereça-lhe um segundo pequeno almoço e um lanche saudáveis, e recorde-lhe que as frutas e vegetais são escolhas deliciosas e disponíveis. Por que não dar-lhe pedaços de fruta variada, ou umas rodelas de tomate ou de pepino, em vez de bolachas? As crianças adquirem facilmente rotinas novas, desde que haja o bom exemplo da parte dos pais e restante família.

5 - Nunca desista. As crianças precisam de experimentar um alimento novo 10 ou 15 vezes para se habituarem ao seu sabor e passarem a gostar dele.

6 - Evite os alimentos altamente calóricos, pobres em nutrientes valiosos. Aprenda a ler os rótulos das embalagens. Um Bolicao ou dois iogurtes com natas e frutas podem conter mais de um terço das necessidades calóricas diárias de uma criança pequena.

7 - Sejam uma família fisicamente ativa. Desligue a televisão e o computador. Frequentem parques, promova brincadeiras ao ar livre.

8 - As refeições em família são um tempo importante de convívio social e de conversa. Se não puderem jantar todos juntos todos os dias, tente que isso aconteça pelo menos três vezes por semana.

9 - Ajude o seu filho a desenvolver a arte de comunicar à mesa, incentivando-o a relatar pequenos eventos do dia-a-dia e a partilhar os seus pensamentos convosco. Ouçam-no com atenção e paciência.

10 - Promova uma alimentação saudável dando um bom exemplo, em vez de estar constantemente a falar no assunto. Tenha paciência e sentido de humor.

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