Poção mágica para dormir?

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O sono dos bebés continua a ser um dos maiores desafios para muitos pais. A melatonina está a tornar-se uma aliada frequente na hora de adormecer. Mas será prudente?

Joana Mendes tentou várias abordagens para facilitar a hora de ir para a cama, mas o filho Vasco (na altura com dois anos) parecia imune a qualquer estratégia: “Desde a leitura de histórias, canções calmas, menos luminosidade no quarto…”. Nada resultava. Vasco demorava muito tempo a adormecer e tinha “padrões de sono desregulados”. Joana decidiu procurar ajuda: “Uma amiga psicóloga falou-me no suplemento de melatonina, pedi opinião à pediatra e ela deu-me luz verde. Comecei a dar-lhe as gotas meia hora antes de ele se deitar e comecei a obter resultados, embora continuasse a ser necessária muita rotina”. O tratamento “durou cerca de três semanas” e o sono do Vasco “melhorou substancialmente”. Joana, que sempre teve receio de medicamentos para ajudar a dormir – “ainda mais administrar aos meus filhos” –, não teve medo de recorrer ao suplemento de melatonina: “Por ser natural, esse receio foi colocado um pouco de lado.” Mas será mesmo assim?
É cada vez mais frequente ouvirem-se relatos de pais que recorrem a suplementos de melatonina para facilitar o sono dos filhos, muitos ainda bebés, com a expectativa de conseguirem noites mais tranquilas – para todos. Por ser um suplemento natural, é muitas vezes encarado como uma ajuda inócua. Mas para perceber se é mesmo assim, é preciso saber o que é, para que serve e como pode ser utilizado.

“A melatonina é uma hormona produzida no organismo e fundamental na regulação do sono. É produzida na glândula pineal de forma circadiana, isto é, com um ritmo regular de aproximadamente 24 em 24 horas, e dependente da luz e do escuro. À noite as suas concentrações aumentam até atingir um valor que, junto com outros fatores, nos faz dormir. Depois gradualmente, as concentrações vão diminuindo, até que de manhã, acordamos”, explica a pediatra Núria Madureira, acrescentando que “utilizada como suplemento natural, a melatonina tem efeitos cronobióticos, ou seja, de regulação do ciclo sono-vigília, e hipnóticos, ou seja, de indução do sono”. É sobretudo por este último efeito que é mais utilizada, “já que diminui o tempo que demoramos a adormecer”.

E riscos, existem? “Os estudos que têm sido efetuados, não têm mostrado efeitos secundários significativos, para além da possibilidade de dores de cabeça ou alterações do trânsito intestinal”, refere a pediatra especialista em patologia do sono. O principal risco, defende Núria Madureira, “é a expectativa de que resolva todo o tipo de problemas de sono”. E explica: “A melatonina não é a resposta para os problemas de sono dos bebés e das crianças. Na maior parte dos casos, tratando-se de insónias comportamentais da infância, o fundamental é instituir estratégias comportamentais para adquirir uma boa higiene de sono, funcionando a melatonina como auxiliar para a instituição destas estratégias.”

E dá um exemplo: “Imaginemos uma criança de 12 meses que demora muito tempo a adormecer e só o consegue fazer a mexer no cabelo da mãe na cama dos pais, que depois é colocada na cama dela no quarto dela, e que passa a noite toda a acordar, terminando na cama dos pais. Se a melatonina for o único tratamento instituído, esta criança vai demorar menos tempo a adormecer, mas vai continuar a acordar durante a noite. A melatonina deve ser utilizada para ‘facilitar’ a instituição de medidas para que a criança passe a adormecer sozinha, porque só assim a criança deixará de acordar durante a noite”.
O pediatra Mário Cordeiro concorda e acrescenta: “A desregulação da produção de melatonina pode ser obviada através da administração de melatonina, e se ao fim de 15-20 dias as coisas melhorarem, começa a ‘desmamar-se’, caso contrário, se não resultou, para-se. Mal não faz, bem pode fazer.”

Clementina Almeida, psicóloga clínica especialista em bebés, não está tão confiante em relação à inocuidade destes suplementos. E explica porquê: “Quando nós fornecemos ao cérebro uma substância que deveria ser ele a segregar, estamos a enviar a mensagem de que ele já não tem que a segregar, porque ela está em circulação em níveis suficientes, interferindo com o desenvolvimento deste sistema”. Este facto – esclarece – “contribui, desde logo, para criar perturbações de sono em vez de estabelecer ritmos de sono saudáveis que ficam para toda a vida”. Além disso, sublinha, “esta substância não tem ainda estudos científicos suficientes que nos permitam saber os seus e

feitos a longo prazo, embora os que dispomos já apontam para alterar o sistema metabólico, cardiovascular e reprodutivo”.
Assim, defende a especialista, “ela deverá ser prescrita em casos muito específicos em que está provado que o organismo não segrega esta substância como é o caso de cegueira total ou algumas perturbações autistas e outras de hiperatividade”.
Clementina Almeida chama a atenção sobretudo para a administração deste tipo de suplemento a bebés “muito novinhos e durante muito tempo”, o que desaconselha. “É preciso olhar para as suas dificuldades com o sono como uma fase de desenvolvimento e lidar com a mesma através de técnicas mais inócuas, como seja a consulta do sono com um especialista”.


Dormir como um bebé
O sono dos bebés continua a ser um dos maiores desafios dos pais, tantas vezes atordoados por noites mal dormidas e teorias várias sobre “ensinar a dormir”. A verdade é que o sono dos bebés é diferente do dos adultos e é preciso saber lidar com isso. Só assim as expectativas, tantas vezes irrealistas, podem ser apaziguadas.
Acima de tudo, defende Clementina Almeida, “os pais precisam saber que o sono do bebé é completamente diferente do sono dos adultos, por imperativos biológicos de desenvolvimento neurológico (passam mais tempo em períodos de sono REM, vulnerável a despertares, mas muito importante para o desenvolvimento cerebral)”. Na prática, é preciso ter em conta que os bebés “precisam de dormir muitas horas, não dormem de uma só vez, não dormem só de noite, nem dormem a noite toda”. Além disso, “adormecem de forma diferente e passam por muitas fases de desenvolvimento naturais que tendem a perturbar o sono”.Por isso, reflete a psicóloga, “quando os pais se queixam do sono dos seus bebés, estamos na maior parte das vezes a falar de expectativas extraordinariamente elevadas e desajustadas ao normal desenvolvimento do bebé”.


Ligações que se quebram
Por tudo isto, vale a pena refletir sobre o chamado “treino” do sono do bebé, a que tantos pais recorrem na esperança de “ensiná-los a dormir”. Há vários métodos, diferentes abordagens, com melhores ou piores resultados. Mas serão os resultados pretendidos? Hellen Ball, antropóloga, especialista em fisiologia e biologia do sono do bebé, explicou recentemente no Congresso Nacional do Bebé, em Lisboa, que “existem várias estratégias, mas todas têm a mesma base: o bebé vai perceber que não vai ser atendido”. Na prática, os pais veem resultados: o bebé não chora, logo assumem que está a dormir melhor! Na verdade, esclarece Helen Ball, “o que estamos a avaliar não é se o bebé dorme mais, mas sim se o bebé deixou de chorar e a mãe não é incomodada”. E isto é substancialmente diferente do pretendido.

“No início, quando o bebé chora, o cortisol (hormona do stresse) é alto tanto no bebé como na mãe. Ao fim de alguns dias de treino, o cortisol na mãe baixa, mas o do bebé continua alto, embora já não chore”. O que acontece, sublinha a antropóloga, é que se quebra uma ligação. “O treino do sono desconecta mãe e bebé, porque a mãe deixa de ter a pista (choro) de que o bebé está em stresse (embora ele esteja)”.
Clementina Almeida lembra que “não podemos ser pais só de dia, responder às necessidades do bebé durante a noite também faz parte do nosso papel, e de noite o bebé tem necessidade de comer, de calor ou frio e de conforto e, pelo seu instinto de sobrevivência, sinaliza essas necessidades com o choro, que muitas vezes perturba, logicamente, o sono dele e o dos pais”. Mas deixar de atender o bebé não é, de todo, aconselhado, defende a especialista. Ao entrar em stresse, os seus níveis de cortisol aumentam, o que é “literalmente cáustico, queima neurónios numa fase tão importante e fundamental para o desenvolvimento cerebral”.

Os estudos mostram que “qualquer tentativa de aplicar treino de sono em bebés com menos de seis meses é uma péssima ideia e pode ser, de facto, prejudicial”, acrescenta Helen Ball, lembrando que “os bebés precisam de ligação e esperam estar perto da mãe, dia e noite, porque o contacto físico é muito importante para o seu desenvolvimento”.


Olívia, a ovelha que não queria dormir

Esta é a história de uma pequena ovelha que, mesmo com muito sono, não tinha vontade de dormir. Escrito pela psicóloga clínica especialista em bebés, Clementina Almeida, com base na investigação científica mais atual, este livro inclui de “forma subtil técnicas de integração sensorial e relaxamento muscular progressivo que, através do imaginário, induzem estados emocionais destinados a organizar o sistema nervoso central e, assim, a acalmar a criança”. Com um delicioso e calmante cheiro a alfazema, um indutor natural do sono, este livro está repleto de “pequenos segredos que ajudam as crianças a adormecerem com mais facilidade e, acima de tudo, a dormirem a noite toda”. E traz um aviso aos pais: “Tenha cuidado com o local que escolhe para ler a história, pois é provável que adormeça também!”


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