Tão gordinho!

Indíce do artigo
Tão gordinho!
Pode fazer dieta?
Todas as páginas



O excesso de peso nos bebés está a aumentar e já é preocupante. Está na hora de olhar para além das bochechas rechonchudas e questionar-se: “O meu bebé está gordo?”

Excesso de peso
Aos oito meses, Mariana pesava quase 11 kg. Fazia uma alimentação “normal” para a idade e a mãe não percebia porque estava tão gordinha. “Sempre segui as recomendações da pediatra e mesmo assim ela continuava a engordar a olhos vistos”, conta Eduarda. Na consulta dos nove meses, mencionou esta preocupação à médica e, juntas, fizeram uma revisão do menu diário da bebé. “Percebi que estava a dar-lhe alguns extras perfeitamente dispensáveis: iogurtes infantis, bolachinhas, leite a meio da noite…” Com pequenas alterações, Eduarda conseguiu estabilizar o peso da fi lha e aos poucos voltou a entrar num percentil mais adequado à sua idade e comprimento. “Sei que aos olhos de muitas pessoas um bebé rechonchudo e cheio de pregas ainda é bem visto, mas também sei que o excesso de peso não faz bem a ninguém, muito menos a um bebé...”. Eduarda conseguiu ver aquilo que muitas mães tendem a desvalorizar: um estudo realizado por uma equipa de pediatras da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, concluiu que as mães apresentam uma certa “cegueira” em relação ao peso dos bebés e não reconhecem quando estes têm excesso de peso, o que comporta riscos para a sua saúde não só ao longo da infância, como também na idade adulta.

O excesso de peso e a obesidade nos bebés é um problema crescente e preocupante: “Aos seis meses de vida, cerca de 15 por cento das crianças apresenta peso excessivo, mas somente dois por cento se caracterizam no que se define como obesidade. Aos 12 meses, 31 por cento das crianças apresenta excesso de peso e a percentagem de obesidade atinge os seis por cento. No estudo nacional que avaliou crianças com idades compreendidas entre os 12 e os 36 meses (EPACI Portugal 2012), verificou-se que a prevalência de excesso de peso era de 31,4 por cento, sendo que 6,5 por cento apresentavam obesidade”, explica Elisabete Pinto, nutricionista e investigadora na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, sublinhando que “naturalmente esta é uma situação preocupante, na medida em que muitos destes bebés que agora têm excesso de peso, serão crianças e adultos com excesso de peso também”. Mas como sabemos se o bebé está com excesso de peso? Na realidade não basta olhar para a tabela dos percentis: “Apesar de serem consideradas com excesso de peso, incluindo obesidade, as crianças que se encontrem acima do percentil 85 para o índice de massa corporal, quando uma criança vai subindo, mudando para percentis superiores, de forma rápida e sucessivas, durante os primeiros meses de vida (mesmo estando abaixo do percentil 85), a situação já deve ser vista com alguma preocupação”, esclarece a investigadora.

A “desregra” familiar

Nos primeiros meses de vida, a alimentação dos bebés tende a ser a correta, com uma diversificação alimentar cuidada e bem instituída: “Num estudo representativo nacional em que estive envolvida recentemente foi possível verificar que durante o primeiro ano de vida a alimentação das crianças portuguesas se aproxima muito do que é recomendado pelos especialistas em nutrição infantil”, afirma Elisabete Pinto, referindo que “a esmagadora maioria das crianças inicia aleitamento materno e 53 por cento das crianças continua a fazê-lo aos seis meses, embora apenas 20 por cento o faça em exclusivo, como é recomendado pela Organização Mundial de Saúde”. A diversificação alimentar “ocorre maioritariamente entre os quatro e os seis meses de vida, como recomendado, iniciando-se quase sempre pela sopa de legumes (53 por cento dos casos) ou pela papa de cereais (43 por cento dos casos)”. Em média, “a introdução da fruta, carne, peixe ou iogurte ocorre até aos oito meses de idade”. Os problemas começam quando a criança tem autorização para comer o mesmo que o resto da família: “O início da ‘dieta familiar’ (após os 12 meses) é o início da ‘desregra familiar’, caracterizada por um elevado consumo de proteína animal (predominantemente proveniente do excesso de lacticínios), pelo consumo mais ou menos regular de bebidas e sobremesas doces e até de refrigerantes!”, esclarece a pediatra Carla Rêgo. De facto, de acordo com o estudo EPACI, aos 13 meses já consomem sobremesas doces, aos 15 néctares e aos 18 refrigerantes! Ou seja, na maioria dos casos a dieta familiar inclui demasiados alimentos ricos em açúcares, gordura e sal e isso acaba por se refletir na balança… e na saúde, de todos! Por isso, merece ser revista. Ter um bebé à mesa pode ser um excelente pretexto e uma forte motivação para rever a alimentação da família e fazer escolhas mais saudáveis e equilibradas. Uma das medidas passará pela diminuição do consumo de proteína animal, já que efetivamente, entre os 12 e os 36 meses, há uma “ingestão de proteína quatro vezes superior ao recomendado”. Este excesso proteico resulta sobretudo do consumo de leite e produtos lácteos, que as “crianças portuguesas estarão a ingerir em quantidades superiores às suas necessidades”, sendo que, para agravar ainda mais a situação, “alguns destes produtos lácteos são sobremesas carregadas de açúcar”, alerta Elisabete Pinto.

“Engordar para crescer”

Carla Rêgo, que também é investigadora nesta área, sublinha a importância de desmistificar algumas ideias que ainda perduram: “O conceito de que ‘tem que engordar para crescer’ deverá ser fortemente desaconselhado em qualquer fase da vida, mas particularmente nesta fase, pois o excesso de alimento relativamente às necessidades apenas faz crescer ‘para os lados’”. Além disso, justifica, “o padrão de crescimento e de comportamento alimentar nesta fase programa para a vida a expressão do binómio saúde/doença, incluindo a obesidade”. A verdade é que ainda olhamos – erradamente – para um bebé gordinho como sinónimo de boa saúde e de crescimento. E mais, salienta Carla Rêgo, achamos que “não faz mal ser gordinho agora porque ele vai crescer e fi ca bem!”. Nada mais longe da verdade: são conceitos “erradíssimos à luz atual do padrão de crescimento”. A estes mitos junta-se ainda a distorção da imagem corporal. “Muitas vezes os pais nem se apercebem do excesso de peso dos seus filhos… É muito frequente uma criança com excesso ponderal ser considerada ‘muito bem de peso’ enquanto uma criança adequadamente nutrida é classificada de ‘magrinha’”. E esta distorção revela-se também no prato: o tamanho das doses tem vindo progressivamente a aumentar e nem sempre está em sintonia com o apetite do bebé. “Importa respeitar o apetite de cada criança, que varia não apenas na dependência das suas próprias características, mas também da velocidade de crescimento em cada fase da vida”, esclarece Carla Rêgo, sublinhando que “o importante é oferecer a cada refeição – e apenas comer às refeições e não andar a petiscar ao longo do dia – o alimento correto e deixar para a criança decidir o volume que quer comer”. Até porque, explica, “este volume é regulado por sensores de apetite a nível do sistema nervoso central e ao ‘forçá-los’, obrigando a criança a comer mesmo quando já não tem fome, vamos desregulá-los para a vida e arriscamos a desenvolver, no futuro, comportamentos alimentares alterados”.




Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

editorial-319

alt

Vamos para a rua!

O recado ficou na porta do quarto: “Não me acordem. Deitei-me tarde e gosto de dormir de...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais