Socorro, o meu bebé não pára de chorar!

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Os bebés choram. Ponto. Podem não ter fome, nem frio, nem calor, nem dor e chorar como se os estivessem a matar. Melhor do que tentar acalmá-los é tentar acalmar os pais.

Há várias teorias sobre as razões do choro do bebé. Sabemos que chora para reclamar algum desconforto: fome, frio, calor, cansaço, sede, etc. Mas, por vezes, mesmo com as necessidades básicas asseguradas, o bebé continua num pranto. E ninguém percebe porquê.

Em "O Grande Livro do Bebé", o pediatra Mário Cordeiro explica que os recém-nascidos «estão geneticamente suspensos no tempo, num qualquer ponto há largas dezenas ou mesmo centenas de milhar de anos», na chamada «sociedade de sobrevivência». Nesse tempo, diz o pediatra, «quando havia fugas e problemas, só alguns bebés eram levados: aqueles que demonstrassem ser mais fortes e nos quais merecesse a pena o investimento e o esforço de os levar». Os que choravam mais eram levados certamente pois demonstravam «a sua genica e a sua saúde».

Carlos Gonzaléz, pediatra espanhol, também culpa o instinto de sobrevivência por grande parte do choro dos bebés. Diz ele que os bebés começam a chorar assim que a mãe se afasta um segundo porque «é o comportamento que a selecção natural favoreceu durante milhões de anos». No livro "Besame Mucho", o pediatra explica: «Se um bebé permanecesse calado durante quinze minutos e depois começasse a chorar baixinho e apenas chorasse a plenos pulmões ao fim de duas horas, a mãe podia já encontrar-se demasiado longe para poder ouvir». O mais certo nessa altura, supõe o pediatra, era que fossem predadores, tais como hienas, a atender o bebé…

Michel Cohen, pediatra francês radicado nos EUA, fala num «estado adaptativo». No livro "The New Basics", explica que depois de estar nove meses num ambiente «perfeito», onde tudo era feito à medida do bebé, é natural que ele estranhe agora «as luzes, os sons, os toques, a fome». Durante este estado adaptativo, o bebé está a «aprender a lidar com um mar de informação» e com «a abundância de novas sensações». O pediatra defende que «para o recém-nascido, chorar é mais um mecanismo de alívio de tensão do que um sinal de desconforto».

Sheila Kitzinger, antropóloga e social, também considera que chorar é «a única maneira de descarregar a insuportável cumulação de tensão», que deriva dos novos hábitos e regras a que o bebé fica sujeito assim que deixa a barriga da mãe. «É a única maneira de os bebés se livrarem, quer da tensão que resulta do facto de serem imaturos e relativamente impotentes, quer das tensões culturalmente impostas», escreve no livro "Porque chora o meu bebé?"

Para Berry Brazelton, provavelmente o pediatra mais famoso do mundo, o choro dos recém-nascidos deve-se «sobretudo ao normal desenvolvimento do sistema nervoso», que está a aprender a auto-consolar-se e a organizar-se.

A par destas explicações, surgem as cólicas. O pediatra Luís Pinheiro, autor do livro "Manual de Instruções para Pais", acredita que para além de todas as razões possíveis, as cólicas e a flatulência, consequência de «o bebé não saber como fazer força para sair o cocó» são a principal causa das lágrimas sem fim que acompanham as primeiras semanas dos recém-nascidos.

Deixar ou não chorar?

Seja qual for a razão do choro, e mesmo que se pense que o bebé não tem qualquer problema, ninguém gosta de ouvir os seus gritos de desespero. Diz-se que o choro de um bebé desperta um sinal de alarme nos adultos que se sentem obrigados a tentar acalmá-lo. Talvez socorrê-lo, na tal sociedade de sobrevivência.

Também neste capítulo existem várias teorias. Cada bebé é um bebé e, por isso, por muitos conselhos que os especialistas possam dar, cabe aos pais encontrarem a melhor solução para o seu filho.

A teoria divide-se entre deixar o bebé chorar e atendê-lo imediatamente. «Muito do choro excessivo é causado pela obsessão em acalmar o bebé», diz Michel Cohen. Na sua opinião, quanto mais coisas os pais experimentam, mais o bebé vai ficar hiperestimulado e mais vai chorar. «Se os pais perceberem que nem sempre vão conseguir acalmar o bebé, a vida ficará mais fácil para todos», escreve. Quando os pais já tentaram tudo e não sabem o que fazer mais, o pediatra aconselha a deitarem o bebé no berço, com pouca luz, até ele se acalmar ou deixar dormir.

A recomendação é polémica, mas a psicóloga clínica e terapeuta familiar Cláudia Pires de Lima defende a mesma actuação: «Para uma vinculação segura, é essencial que o bebé tenha a noção de que os pais não estão sempre imediatamente disponíveis para ele, mas que vão confortá-lo sempre que precisar». A psicóloga explica que, caso contrário, o bebé «não irá respeitar o papel dos pais», pois «pensa que estão ali para o servir». Isto não significa que se abandone o bebé, mas que se tente confortá-lo com palavras e com o toque, em vez de tirá-lo logo do berço, para que aprenda a auto-consolar-se.

Menos radical, Luís Pinheiro apela ao bom senso: «O colo é bom, claro. Mas se os pais estão ansiosos, acabam por transmitir essa ansiedade ao bebé mais facilmente se lhe pegarem ao colo». O pediatra diz que «não faz mal deixar o bebé chorar um bocadinho». O mais importante, defende, é manter a calma e proporcionar um ambiente tranquilo. E exemplifica: «Não dar logo suplemento por pensar que é fome, não andar a mudar de leite por achar que pode ser uma reacção, não experimentar todos os medicamentos e mais alguns para as cólicas».

Brazelton, conhecido pela frase «primeiro o amor, depois a disciplina», escreve no seu livro que não aconselha os pais a deixar chorar o bebé à vontade, mas, depois de terem a certeza que a criança «não tem fome, não está suja nem molhada e não tem dores», recomenda «apenas uma de duas coisas: deixe-a ficar ou acarinhe-a sem a estimular muito».

Sheila Kitzinger é a favor de consolar o bebé pegando-o colo, se os pais entenderem que é isso que ele precisa. «O mais importante é que não esteja simplesmente a utilizar uma técnica para o acalmar, mas que entre em sintonia com o bebé, mesmo sem palavras, interagindo e ficando em harmonia com ele», escreve.





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O choro incansável é uma fase. E vai passar. «Por volta dos três ou quatro meses, como que por milagre, os bebés deixam de chorar tanto», afirma Luís Pinheiro.

«Se encararem o choro e a irritabilidade do bebé como uma etapa necessária, até mesmo organizadora, do dia do bebé, não terão de se sentir responsáveis pelo acontecimento», desdramatiza Brazelton.

Unânimes como em poucos assuntos, os especialistas explicam que por esta altura o bebé encontra outras formas de comunicar, já percebe melhor o mundo que o rodeia, adapta-se aos novos ritmos e estímulos fora do aconchego materno, começa a gostar do que esta vida tem para lhe oferecer. Até lá, Cláudia Pires de Lima sossega os pais aflitos: «O mais importante é terem consciência de que estão a ser bons pais. Não se devem julgar por o bebé estar a chorar».


Sinais de alarme

É normal os bebés chorarem até certo ponto. O choro excessivo – muitas horas seguidas sem nada que o acalme – pode significar que estamos perante um bebé colérico. «Estes bebés choram não apenas para comunicar, mas também porque estão em angústia ou em sofrimento», explica a psicóloga clínica Cláudia Pires de Lima. Alguns sinais físicos ajudam a detectar um bebé colérico: «Ficam vermelhos, com a testa enrugada, o corpo rígido, curvado como uma banana». Nesta situação, a psicóloga aconselha procurar ajuda profissional para tentar devolver a harmonia à família. O Hospital de Dona Estefânia tem uma consulta especial para estes bebés.

O pediatra Luís Pinheiro alerta ainda para os sinais associados ao choro que podem indicar algum problema da saúde: «Se nunca chorou muito e, de repente, começa a chorar mais; se bolçou muitas vezes; se tem febre; se está há muito tempo sem fazer cocó; se recusa comer, isto pode querer dizer que há algo por trás do choro e será melhor a criança ser vista pelo médico».



Como acalmar o bebé que chora


Posição "Tigre na árvore": é a posição mais conhecida por acalmar os bebés, ainda que, às vezes, seja só por alguns minutos. Deite-o de barriga para baixo sobre o seu antebraço, com a palma da mão virada para cima a segurar na zona da fralda. A cabeça do bebé deve ficar apoiada no cotovelo. Embale-o ou dê-lhe palmadinhas suaves nas costas ou no rabo.

Movimentos ritmados: andar às voltas de carro para acalmar o bebé é já um clássico do mundo da puericultura. Resulta para muitos, embora seja trabalhoso e dispendioso. Há, por isso, quem prefira colocar o berço em cima da máquina de lavar roupa em funcionamento, desde que com os devidos cuidados. Deitá-lo num berço que baloice ou numa rede também pode ajudar a tranquilizá-lo.

Sons constantes: as canções de embalar têm como característica um ritmo constante e é por isso que, geralmente, ajudam os bebés a acalmar. O ruído de certos electrodomésticos também costumam ter bons resultados, por serem sons monótonos. Se não quer pôr nenhum aparelho a funcionar, pode sempre tentar um "shhhhh" sussurrante. Encostá-lo ao seu peito também poderá ser uma boa ideia, para relembrar ao bebé os sons que ouvia dentro da barriga. Só é preciso certificar-se de que o coração não está acelerado para lhe não transmitir sentimentos de ansiedade.


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