A hora dos sólidos

Indíce do artigo
A hora dos sólidos
Página 2
Página 3
Todas as páginas

altHistórias da carochinha. Cantigas. Macacadas e palhaçadas. Na hora de dar a papa vale tudo para tentar convencer o bebé a comer. Mas será que vale mesmo tudo? «A hora da refeição deve ser um momento de calma e tranquilidade familiar. Já basta o stresse do dia-a-dia», refere o pediatra Mário Cordeiro em ‘O Grande Livro do Bebé’. «Devem evitar-se os rituais, como as grandes cantorias, teatros, histórias intermináveis. Palhaços é
no circo.» O pediatra Paulo Oom partilha da mesma opinião: «A introdução de novos alimentos deve ser encarada como um processo natural. E deve ser divertido. Os problemas são a excepção e não a regra, pelo que a ansiedade apenas atrapalha e deve ser deixada de lado», defende.


Existem algumas regras simples a seguir na introdução dos alimentos sólidos, mas não devem ser encaradas com muita rigidez. «As razões que levam os pediatras a escalonar a ordem de introdução dos novos alimentos têm a ver, principalmente, com o seu valor nutricional, a facilidade com que a criança os pode digerir, o seu sabor mais agradável e a fraca possibilidade de desencadearem alergias», refere Paulo Oom. No entanto, outros factores como a disponibilidade de encontrar determinado alimento e o seu preço também são tidos em conta.


PAPA OU PURÉ?

Após cerca de quatro meses de alimentação apenas com leite, está na altura do bebé começar a experimentar outros alimentos, isto nos casos em que a amamentação exclusiva não se prolonga até aos seis meses, como sugere a Organização Mundial de Saúde.

A diversificação alimentar tem vários objectivos: nutricionais – para dar ao bebé a energia e os nutrientes que necessita para crescer – e de desenvolvimento, para a aquisição de competências motoras, de coordenação e atenção. A capacidade de engolir, não se engasgar ou mastigar é evolutiva e os alimentos estimulam estas funções, além de contribuírem para os estímulos gustativos, olfactivos e visuais.

«Os primeiros alimentos a incluir na nova dieta devem ser a papa de cereais, os legumes e algumas frutas», esclarece Paulo Oom. «Não há qualquer razão científi ca para que o início se dê pela papa láctea, pelo puré de legumes ou pela fruta. O que é importante é que a introdução seja gradual para que possa ser detectada qualquer reacção a um determinado alimento.» Embora se desconheça a causa do aparecimento de alergia alimentar, existem factores de risco que devem alertar para uma maior probabilidade de tal reacção acontecer. A alergologista Cristina Santa Marta enumera-os: «História familiar de alergia alimentar, história pessoal de alergia a outro alimento ou introdução precoce de alimentos  potencialmente alergéneos». A especialista chama ainda a atenção para a alimentação com biberão com fórmulas lácteas nas primeiras horas de vida, promovendo depois o aleitamento materno. «Tal pode levar a manifestações de alergia a este alimento quando o mesmo é reintroduzido na alimentação do lactante, semanas ou meses mais tarde.»

As papas podem ser feitas de leite ou já terem o leite incorporado e apenas necessitarem da adição de água. «Não há razões para preferir umas ou outras», diz Paulo Oom. «Se o bebé já está a ser amamentado é mais prático escolher as farinhas lácteas às quais basta juntar água.» E atenção: «Antes dos seis meses é importante que sejam dadas ao bebé apenas papas sem glúten».

PURÉ OU SOPA?

Os legumes são introduzidos sob a forma de sopa ou puré. «Habitualmente começa-se pela batata e cenoura, sendo os outros legumes introduzidos depois em sequência», esclarece o pediatra. «A regra básica é a da introdução de um legume novo por cada quatro a seis dias.» Assim, depois de o bebé ter iniciado o puré de cenoura, pode iniciar outros legumes como o agrião, espinafre, alho francês, nabo, nabiça, alface,
abóbora, entre outros. «Não há razão para seguir alguma ordem especial.» Já as leguminosas (ervilhas, favas, feijões) e o tomate só devem ser dadas, de preferência, após a criança completar um ano, ou porque causam gases e flatulência, ou porque são ácidos. «À sopa deve ser  adicionada apenas gordura vegetal (azeite) e nunca sal.»

Quanto à fruta dê preferência à maçã, pêra e banana por serem de mais fácil digestão. As duas primeiras devem ser inicialmente cozidas e depois esmagadas antes de serem oferecidas à criança. «A fruta não deve constituir, por si só, uma refeição e deve ser servida como sobremesa, após a papa láctea ou o puré de legumes», recorda o pediatra.



CARNE E PEIXE


Após terem sido introduzidos os primeiros três alimentos – papa láctea, legumes e fruta – segue-se a carne aos seis meses e o peixe aos nove meses. «Tanto um como outro devem ser magros, isto é, com pouca gordura. Com esta medida estaremos a contribuir para a protecção da criança
de doenças futuras como a obesidade, arterioesclerose e hipertensão», explica o pediatra. É por este motivo que é preferível a carne de frango,
borrego ou peru. Já a nível dos peixes, a pescada é uma excelente opção, mas pode optar por outros peixes ‘brancos’ como o linguado ou o sargo.

A carne ou o peixe devem ser inicialmente dados na sopa, passados juntamente com os legumes e sempre sem sal.

Por serem alimentos susceptíveis de causarem alergias, o leite de vaca, o ovo, o peixe, o trigo, os frutos secos e alguns frutos frescos como o kiwi devem ser introduzidos o mais tarde possível. «Se a sua introdução for mais tardia, o aparelho digestivo mais maduro terá maior capacidade de processamento dos mesmos, com absorção mais eficaz e correcta», elucida Cristina Santa Marta. Estes alimentos têm maior capacidade de levar o nosso organismo a produzir anticorpos ou a activar células capazes de reagir quando entramos em contacto com o respectivo alimento. Paulo Oom
lembra que mês a mês devem ser introduzidas outras frutas, sempre com o cuidado de retirar a pele, quaisquer caroços e esmagar de forma a obter um puré. «Algumas frutas, como a laranja, o ananás ou o morango, são muitas vezes responsáveis por reacções alérgicas e de intolerância, pelo que a sua introdução deve ser adiada para depois do primeiro ano.» O número de refeições em que não entra o leite deve ir aumentando
gradualmente. Ao mesmo tempo deve ser também aumentada a consistência dos alimentos, nomeadamente de homogénea (puré) para  granulosa e finalmente com alguns pedaços.

Quanto ao leite, este deve persistir na alimentação da criança e «deve ser ingerido em quantidades superiores a meio litro por dia», observa Paulo
Oom. «Após os 18 meses (de preferência a partir dos três anos) pode começar a beber leite de vaca meio gordo, o mesmo que é ingerido pelos restantes membros da família.» Já a água pode ser dada às refeições.


BIRRAS À MESA

É normal o bebé recusar-se a comer, deitar a papa fora ou fazer birras durante as refeições. Graças ao medo que os pais têm que as crianças comam mal, estas apercebem-se deste ponto fraco para impor a sua vontade.

Um conselho dos especialistas: não desespere. «As crianças normais e saudáveis que não querem comer quando têm alimentos à sua frente fazem-no por sua conta e risco, ou seja, os pais não devem partir para a refeição carregados de stresse, não devem fi car preocupados se a criança começar a fazer ‘teatro’, muito menos embarcar nesse jogo», alerta Mário Cordeiro no capítulo dedicado à alimentação. «Se uma criança não tem outros sinais de doença e tem comida à frente, comerá se tiver fome, não comerá se mesmo com fome quiser fazer birra, mas os
pais não deverão ceder ou mostrar medo. Como dizia a minha bisavó: ‘fome é de três dias!’» Evite refeições demasiado prolongadas, com rituais
excessivos e excesso de atenção em coisas secundárias.

E se o seu bebé teima em expulsar os alimentos para fora da boca saiba que essa situação tem um nome: reflexo de extrusão. É o acto reflexo do bebé que consiste em expulsar os alimentos que sejam colocados na parte anterior da língua. «O bebé tem de aprender a ‘enrolar’ a comida para trás e muitas vezes os pais esquecem-se deste pormenor e interpretam o reflexo como a criança não querendo comer», explica Mário Cordeiro. Este reflexo mantém-se até aos quatro ou seis meses e é muito importante na prevenção de acidentes.

Apesar de todos os conselhos que possam dar aos pais, Paulo Oom sublinha: «Apenas importa não cometer grandes erros, que, de resto, são raros. Por isso não queiram seguir nenhum regime muito rígido. Apenas orientações gerais. Os pais devem usar o bom senso e lembrar-se de que a hora da refeição deve ser um momento agradável para os pais e para as crianças».





O MEU BEBÉ PODE SER VEGETARIANO?

Hoje em dia são cada vez mais os pais que decidem, desde o nascimento, que o filho ou fi lha vai ser vegetariano. Será saudável? Existem práticas alimentares adaptadas à idade infantil? Paulo Oom explica: «Ser vegetariano signifi ca que se exclui da alimentação produtos de origem animal, como a carne. Mas existem diferentes graus de alimentação vegetariana. Na maioria dos casos, a dieta vegetariana inclui alguns produtos de origem animal como o leite e derivados, ou os ovos». No caso dos vegetarianos puros, a dieta é exclusivamente de origem vegetal. «Se a dieta contiver leite e ovo, não existirá qualquer problema e a criança vai crescer e desenvolver-se como qualquer outra», elucida o pediatra. Os casos problemáticos são aqueles em que os pais não pretendem dar à criança leite de vaca ou ovos, fontes principais de algumas vitaminas essenciais
como a vitamina B12 ou a vitamina D, que não existem numa dieta vegetariana pura. «Outras substâncias essenciais que podem faltar são o ferro, o cálcio e o zinco. Se esta dieta é para manter, estas substâncias devem ser adicionadas sob a forma de suplemento vitamínico, pois sem elas a criança não tem uma alimentação saudável».


ALIMENTAÇÃO POR ETAPAS


1ª Etapa
4-6 meses
* Substituir almoço (ou jantar) por
papa de cereais sem glúten
* 1 semana depois: substituir jantar
(ou almoço) por puré de cenoura e
batata (com um pouco de azeite,
sem sal)
* 1 semana depois: fruta (maçã,
pêra, banana) como sobremesa
(ao almoço e ao jantar)
* 1 semana depois: um legume
novo na sopa, cada 4–6 dias. As
outras refeições (pequeno almoço,
lanche e ceia) são apenas com
leite (materno ou leite artifi cial de transição)

2ª Etapa
6 meses
*Iniciar carne magra (na sopa)
* Iniciar papa de cereais com glúten
* Iniciar iogurte (natural ou de aromas,
sem pedaços)
* A sopa passa a ser ao almoço
e ao jantar
* O lanche pode incluir leite ou
papa ou iogurte e bolachas
* O pequeno e almoço e a ceia
são apenas de leite

3ª Etapa
8-9 meses
* Iniciar peixe magro (na sopa)
* Introduzir gema de ovo cozida
(na sopa)
* Introduzir outras frutas (excepto
laranja, ananás, morango e kiwi)
* A criança pode fazer apenas 4
refeições. A ceia pode ser dada
mas é desnecessária

4ª Etapa
1º ano
* A criança pode comer de tudo
* Pode iniciar leite de crescimento
* Pode iniciar ovo inteiro, laranja,
morango, ananás, kiwi, chocolate,
tomate. Vigiar o aparecimento
de intolerância a qualquer novo
alimento
* Aumentar gradualmente a consistência
dos alimentos

Nota: «Outros pediatras podem preferir algumas variações, que estarão também correctas, pois não há apenas uma forma de introduzir os novos alimentos», diz Paulo Oom.

Comentar

Código de segurança
Actualizar

Editorial.

editorial-318

alt

Uma dor irreparável

Nota prévia

Dias depois de escrever este editorial ("Os bons e os maus"), feito no rescaldo...

Consultório

 "O meu filho, que fez recentemente quatro anos, vive intensamente esta altura do ano. Ainda acredita no Pai Natal e acha que é ele quem lhe traz as prendas. Ainda...

Leia Mais